{"id":11418,"date":"2008-01-23T15:48:00","date_gmt":"2008-01-23T15:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11418"},"modified":"2008-01-23T15:48:00","modified_gmt":"2008-01-23T15:48:00","slug":"catolicos-e-ortodoxos-a-historia-das-razoes-sem-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/catolicos-e-ortodoxos-a-historia-das-razoes-sem-razao\/","title":{"rendered":"Cat\u00f3licos e ortodoxos: A hist\u00f3ria das raz\u00f5es sem raz\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Pe J. FRANCLIM PACHECO<\/p>\n<p>Primeira parte de uma abordagem da hist\u00f3ria da separa\u00e7\u00e3o entre cat\u00f3licos e ortodoxos<\/p>\n<p>O facto de na nossa diocese de Aveiro a Semana de Ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os ter o seu ponto alto na celebra\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica na Igreja Ortodoxa \u00e9 ocasi\u00e3o de percorrermos um pouco a hist\u00f3ria dos encontros e desencontros, das raz\u00f5es sem raz\u00e3o, com predom\u00ednio dos factores n\u00e3o teol\u00f3gicos que estabeleceram um fosso entre a igreja latina do ocidente, a que chamamos \u00abcat\u00f3lica\u00bb, e a igreja bizantina grega do oriente que \u00e9 designada com o termo \u00abortodoxa\u00bb. <\/p>\n<p>O centro da cristandade latina era Roma; o da cristandade grega era a nova capital do imp\u00e9rio romano, Constantinopla.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os do ocidente e do oriente tinham a mesma cristologia calced\u00f3nia: por isso, tanto maior \u00e9 o esc\u00e2ndalo desta divis\u00e3o. Esta deveu-se a um acentuar cont\u00ednuo, algumas vezes volunt\u00e1rio, dum problema moral que se tornou pouco a pouco numa fractura aceite por uma e outra parte. Em seguida, uma vez consumada a fractura, foram dadas justifica\u00e7\u00f5es em volumosos tratados de teologia. <\/p>\n<p>Mas o problema, na realidade, surgiu nos primeiros quatro s\u00e9culos do imp\u00e9rio crist\u00e3o, por causa duma situa\u00e7\u00e3o cultural e dum acontecimento de ordem pol\u00edtica. <\/p>\n<p>Origem da divis\u00e3o: cultura e pol\u00edtica<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da l\u00edngua<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os conheciam o Antigo Testamento na sua tradu\u00e7\u00e3o grega. O Novo Testamento foi escrito em grego e foi conhecido, a princ\u00edpio, apenas nesta l\u00edngua. O grego tinha sido a primeira l\u00edngua da evangeliza\u00e7\u00e3o do ocidente; no s\u00e9c. II, os crist\u00e3os de Roma e do vale do R\u00f3d\u00e3o falavam em grego. O primeiro grande te\u00f3logo da G\u00e1lia, Ireneu de Le\u00e3o, veio da \u00c1sia Menor e era de l\u00edngua grega. As suas obras foram pensadas e escritas nessa l\u00edngua. Foi somente nos s\u00e9culos seguintes que a Igreja do ocidente se latinizou.<\/p>\n<p>Fora da Terra Santa, o grego foi, pois, a l\u00edngua prim\u00e1ria do cristianismo. Ora, era tamb\u00e9m a l\u00edngua da cultura, da filosofia e da ci\u00eancia. Para os crist\u00e3os do mundo mediterr\u00e2nico oriental \u2013 aquilo que n\u00f3s hoje chamamos os Balc\u00e3s, a \u00c1sia Menor, as grandes cidades da S\u00edria e do Egipto \u2013 o grego era, portanto, a l\u00edngua da sua f\u00e9 e da sua cultura. Eles achavam que era completamente in\u00fatil aprender uma l\u00edngua secund\u00e1ria como era o latim. <\/p>\n<p>Roma ou Constantinopla: <\/p>\n<p>qual o centro da cristandade?<\/p>\n<p>Para refor\u00e7ar o predom\u00ednio cultural do grego contribuiu o factor pol\u00edtico. No fim do s\u00e9c. III, o imperador romano tinha abandonado Roma, a capital, demasiado long\u00ednqua das prov\u00edncias orientais; al\u00e9m disso, na regi\u00e3o romana reinava a mal\u00e1ria. No s\u00e9c. IV, o imperador tinha-se estabelecido junto do estreito do B\u00f3sforo, em Biz\u00e2ncio, que se tornou Constantinopla (actual Istambul). <\/p>\n<p>Pode-se dizer que os imperadores romanos transferiram o imp\u00e9rio romano para o mundo grego e, naturalmente, os imperadores esqueceram o latim. Bem cedo o imp\u00e9rio romano do oriente se tornou grego na l\u00edngua e na cultura, durante dez s\u00e9culos, at\u00e9 \u00e0 metade do s\u00e9c. XV, enquanto os b\u00e1rbaros atingiam o mundo ocidental de l\u00edngua latina.<\/p>\n<p>Patriarca de Constantinopla<\/p>\n<p>ou Papa de Roma?<\/p>\n<p>Do ponto de vista cultural, a Igreja dos s\u00e9cs. IV, V, VI e VII tinha uma tend\u00eancia para aparecer antes de mais como grega. Os primeiros conc\u00edlios expressaram-se em grego e reuniram-se sob a autoridade imperial. Os patriarcas de l\u00edngua grega da nova capital, Constantinopla, colocavam-se como rivais n\u00e3o s\u00f3 dos patriarcas de Jerusal\u00e9m, Antioquia e Alexandria, mas tamb\u00e9m dos papas da antiga capital, Roma, cujo prest\u00edgio tinha diminu\u00eddo quando o poder pol\u00edtico se retirou da sua cidade. <\/p>\n<p>O apoio do imperador ao Patriarca<\/p>\n<p>de Constantinopla<\/p>\n<p>Numa palavra, os patriarcas de Constantinopla consideraram-se como personalidades essenciais da Igreja no seio do imp\u00e9rio. E os imperadores apoiavam-nos, visto que os patriarcas da capital podiam receber, ajudar, prolongar ou aumentar a influ\u00eancia imperial (e, se se opunham, os imperadores podiam mais facilmente destitu\u00ed-los). <\/p>\n<p>A pol\u00edtica e a cultura contribu\u00edam, pois, para que o Papa perdesse o prest\u00edgio. Tinha-se cavado um fosso psicol\u00f3gico, desde a instala\u00e7\u00e3o dos imperadores em Constantinopla, entre a cristandade de l\u00edngua latina e a de l\u00edngua grega, que se habituaram a ignorar-se reciprocamente. <\/p>\n<p>A diferen\u00e7a de l\u00edngua<\/p>\n<p>como factor de distanciamento<\/p>\n<p>Pouco a pouco, no ocidente come\u00e7ava a desaparecer o conhecimento do grego; era penoso seguir a evolu\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da Igreja do oriente. No princ\u00edpio do s\u00e9c. IV, Ambr\u00f3sio de Mil\u00e3o, um Padre da Igreja, sabia bem o grego; no fim do s\u00e9culo IV, Agostinho j\u00e1 o sabia menos. <\/p>\n<p>Mas quando, no s\u00e9c. V, chegou uma carta da Igreja de Constantinopla, importante pelo seu conte\u00fado teol\u00f3gico \u2013 naturalmente em grego \u2013, ficou v\u00e1rios meses sem resposta porque, em Roma, n\u00e3o havia ningu\u00e9m que fosse capaz de a traduzir. E, vice-versa, se os latinos mandavam uma carta para o oriente na sua l\u00edngua, n\u00e3o se lhe prestava aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assistia-se a um distanciamento, duma e outra parte, a um certo menosprezo rec\u00edproco, por raz\u00f5es ao mesmo tempo culturais, pol\u00edticas e psicol\u00f3gicas. Nunca se insistir\u00e1 bastante sobre o papel que teve tamb\u00e9m o orgulho nas divis\u00f5es dos crist\u00e3os: durante s\u00e9culos n\u00e3o houve rela\u00e7\u00f5es profundas entre os crist\u00e3os do oriente e os do ocidente. Roma e a cristandade latina, como tamb\u00e9m Constantinopla e a cristandade bizantina, cada uma convencida da sua dignidade, n\u00e3o tinham entre si rela\u00e7\u00f5es formais. N\u00e3o havia conflito entre estas duas capitais crist\u00e3s. A separa\u00e7\u00e3o que se preparava n\u00e3o era cristol\u00f3gica mas psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Continua na pr\u00f3xima semana<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe J. 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