{"id":11523,"date":"2008-02-06T17:22:00","date_gmt":"2008-02-06T17:22:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11523"},"modified":"2008-02-06T17:22:00","modified_gmt":"2008-02-06T17:22:00","slug":"cristo-fez-se-pobre-por-vos-cf-2-cor-89","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/cristo-fez-se-pobre-por-vos-cf-2-cor-89\/","title":{"rendered":"\u00abCristo fez-Se pobre por v\u00f3s\u00bb (cf. 2 Cor 8,9)"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2008 <!--more--> Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/p>\n<p>1. Todos os anos, a Quaresma oferece-nos uma providencial ocasi\u00e3o para aprofundar o sentido e o valor do nosso ser de crist\u00e3os e estimula-nos a redescobrir a miseric\u00f3rdia de Deus, a fim de nos tornarmos, por nossa vez, mais misericordiosos para com os irm\u00e3os. No tempo quaresmal, a Igreja tem o cuidado de propor alguns compromissos espec\u00edficos, que ajudem, concretamente, os fi\u00e9is neste processo de renova\u00e7\u00e3o interior: tais s\u00e3o a ora\u00e7\u00e3o, o jejum e a esmola. Este ano, na habitual Mensagem quaresmal, desejo deter-me sobre a pr\u00e1tica da esmola, que representa uma forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade e, ao mesmo tempo, uma pr\u00e1tica asc\u00e9tica para se libertar da afei\u00e7\u00e3o aos bens terrenos. Jesus declara, de maneira perempt\u00f3ria, qu\u00e3o forte \u00e9 a atrac\u00e7\u00e3o das riquezas materiais e como deve ser clara a nossa decis\u00e3o de n\u00e3o as idolatrar, quando afirma: \u00abN\u00e3o podeis servir a Deus e ao dinheiro\u00bb (Lc 16, 13). A esmola ajuda-nos a vencer esta incessante tenta\u00e7\u00e3o, educando-nos para ir ao encontro das necessidades do pr\u00f3ximo e partilhar com os outros aquilo que, por bondade divina, possu\u00edmos. Tal \u00e9 a finalidade das colectas especiais para os pobres, que s\u00e3o promovidas em muitas partes do mundo durante a Quaresma. Desta forma, a purifica\u00e7\u00e3o interior \u00e9 corroborada por um gesto de comunh\u00e3o eclesial, como acontecia j\u00e1 na Igreja primitiva. S\u00e3o Paulo fala disto mesmo quando, nas suas Cartas, se refere \u00e0 colecta para a comunidade de Jerusal\u00e9m (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27).<\/p>\n<p>2. Segundo o ensinamento evang\u00e9lico, n\u00e3o somos propriet\u00e1rios mas administradores dos bens que possu\u00edmos: assim, estes n\u00e3o devem ser considerados propriedade exclusiva, mas meios atrav\u00e9s dos quais o Senhor chama cada um de n\u00f3s a fazer-se intermedi\u00e1rio da sua provid\u00eancia junto do pr\u00f3ximo. Como recorda o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, os bens materiais possuem um valor social, exigido pelo princ\u00edpio do seu destino universal (cf. n. 2403).<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, no Evangelho, a admoesta\u00e7\u00e3o que Jesus faz a quem possui e usa s\u00f3 para si as riquezas terrenas. \u00c0 vista das multid\u00f5es carentes de tudo, que passam fome, adquirem o tom de forte reprova\u00e7\u00e3o estas palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o: \u00abAquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irm\u00e3o sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu cora\u00e7\u00e3o, como pode estar nele o amor de Deus?\u00bb (1 Jo 3, 17). Entretanto, este apelo \u00e0 partilha ressoa, com maior eloqu\u00eancia, nos Pa\u00edses cuja popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta, na sua maioria, por crist\u00e3os, porque \u00e9 ainda mais grave a sua responsabilidade face \u00e0s multid\u00f5es que penam na indig\u00eancia e no abandono. Socorr\u00ea-las \u00e9 um dever de justi\u00e7a, ainda antes de ser um gesto de caridade.<\/p>\n<p>3. O Evangelho ressalta uma caracter\u00edstica t\u00edpica da esmola crist\u00e3: deve ficar escondida. \u00abQue a tua m\u00e3o esquerda n\u00e3o saiba o que fez a direita\u00bb, diz Jesus, \u00aba fim de que a tua esmola permane\u00e7a em segredo\u00bb (Mt 6, 3-4). E, pouco antes, tinha dito que n\u00e3o devemos vangloriar-nos das nossas boas ac\u00e7\u00f5es, para n\u00e3o corrermos o risco de ficar privados da recompensa celeste (cf. Mt 6, 1-2). A preocupa\u00e7\u00e3o do disc\u00edpulo \u00e9 que tudo seja para a maior gl\u00f3ria de Deus. Jesus admoesta: \u00abBrilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que est\u00e1 nos C\u00e9us\u00bb (Mt 5, 16). Portanto, tudo deve ser realizado para gl\u00f3ria de Deus, e n\u00e3o nossa. Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, que esta consci\u00eancia acompanhe cada gesto de ajuda ao pr\u00f3ximo, evitando que se transforme num meio nos pormos em destaque. Se, ao praticarmos uma boa ac\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tivermos como finalidade a gl\u00f3ria de Deus e o verdadeiro bem dos irm\u00e3os, mas visarmos antes uma compensa\u00e7\u00e3o de interesse pessoal ou simplesmente de louvor, colocamo-nos fora da l\u00f3gica evang\u00e9lica. Na moderna sociedade da imagem, \u00e9 preciso redobrar de aten\u00e7\u00e3o, dado que esta tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 frequente. A esmola evang\u00e9lica n\u00e3o \u00e9 simples filantropia: trata-se antes de uma express\u00e3o concreta da caridade, virtude teologal que exige a convers\u00e3o interior ao amor de Deus e dos irm\u00e3os, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, que, ao morrer na cruz, Se entregou totalmente por n\u00f3s. Como n\u00e3o agradecer a Deus por tantas pessoas que, no sil\u00eancio, longe dos reflectores da sociedade medi\u00e1tica, realizam com este esp\u00edrito generosas ac\u00e7\u00f5es de apoio ao pr\u00f3ximo em dificuldade? De pouco serve dar os pr\u00f3prios bens aos outros, se o cora\u00e7\u00e3o se ensoberbece com isso: tal \u00e9 o motivo por que n\u00e3o procura um reconhecimento humano para as obras de miseric\u00f3rdia realizadas quem sabe que Deus \u00abv\u00ea no segredo\u00bb e no segredo recompensar\u00e1.<\/p>\n<p>4. Convidando-nos a ver a esmola com um olhar mais profundo que transcenda a dimens\u00e3o meramente material, a Escritura ensina-nos que h\u00e1 mais alegria em dar do que em receber (cf. Act 20, 35). Quando agimos com amor, exprimimos a verdade do nosso ser: de facto, fomos criados a fim de vivermos n\u00e3o para n\u00f3s pr\u00f3prios, mas para Deus e para os irm\u00e3os (cf. 2 Cor 5, 15). Todas as vezes que, por amor de Deus, partilhamos os nossos bens com o pr\u00f3ximo necessitado, experimentamos que a plenitude de vida prov\u00e9m do amor e tudo nos retorna como b\u00ean\u00e7\u00e3o sob forma de paz, satisfa\u00e7\u00e3o interior e alegria. O Pai celeste recompensa as nossas esmolas com a sua alegria. Mais ainda: S\u00e3o Pedro cita, entre os frutos espirituais da esmola, o perd\u00e3o dos pecados. \u00abA caridade \u2013 escreve ele \u2013 cobre a multid\u00e3o dos pecados\u00bb (1 Pd 4, 8). Como se repete com frequ\u00eancia na liturgia quaresmal, Deus oferece-nos, a n\u00f3s pecadores, a possibilidade de sermos perdoados. O facto de partilhar com os pobres o que possu\u00edmos predisp\u00f5e-nos para receber-mos tal dom. Penso, neste momento, em quantos experimentam o peso do mal praticado e, por isso mesmo, se sentem longe de Deus, receosos e quase incapazes de recorrer a Ele. A esmola, aproximando-nos dos outros, aproxima-nos de Deus tamb\u00e9m e pode tornar-se instrumento de aut\u00eantica convers\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o com Ele e com os irm\u00e3os.<\/p>\n<p>5. A esmola educa para a generosidade do amor. S\u00e3o Jos\u00e9 Bento Cottolengo costumava recomendar: \u00abNunca conteis as moedas que dais, porque eu sempre digo: se ao dar a esmola a m\u00e3o esquerda n\u00e3o h\u00e1-de saber o que faz a direita, tamb\u00e9m a direita n\u00e3o deve saber ela mesma o que faz \u00bb (Detti e pensieri, Edilibri, n. 201). A este prop\u00f3sito, \u00e9 muito significativo o epis\u00f3dio evang\u00e9lico da vi\u00fava, que, da sua pobreza, lan\u00e7a no tesouro do templo \u00abtudo o que tinha para viver\u00bb (Mc 12, 44). A sua pequena e insignificante moeda tornou-se um s\u00edmbolo eloquente: esta vi\u00fava d\u00e1 a Deus n\u00e3o o sup\u00e9rfluo, n\u00e3o tanto o que tem, como sobretudo aquilo que \u00e9; entrega-se totalmente a si mesma.<\/p>\n<p>Este epis\u00f3dio comovedor est\u00e1 inserido na descri\u00e7\u00e3o dos dias que precedem imediatamente a paix\u00e3o e morte de Jesus, o Qual, como observa S\u00e3o Paulo, fez-Se pobre para nos enriquecer pela sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9); entregou-Se totalmente por n\u00f3s. A Quaresma, nomeadamente atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da esmola, impele-nos a seguir o seu exemplo. Na sua escola, podemos aprender a fazer da nossa vida um dom total; imitando-O, conseguimos tornar-nos dispon\u00edveis para dar n\u00e3o tanto algo do que possu\u00edmos, mas darmo-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios. N\u00e3o se resume porventura todo o Evangelho no \u00fanico mandamento da caridade? A pr\u00e1tica quaresmal da esmola torna-se, portanto, um meio para aprofundar a nossa voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Quando se oferece gratuitamente a si mesmo, o crist\u00e3o testemunha que n\u00e3o \u00e9 a riqueza material que dita as leis da exist\u00eancia, mas o amor. Deste modo, o que d\u00e1 valor \u00e0 esmola \u00e9 o amor, que inspira formas diversas de doa\u00e7\u00e3o, segundo as possibilidades e as condi\u00e7\u00f5es de cada um.<\/p>\n<p>6. Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Quaresma convida-nos a \u00abtreinar-nos\u00bb espiritualmente, nomeadamente atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da esmola, para crescermos na caridade e nos pobres reconhecermos o pr\u00f3prio Cristo. Nos Actos dos Ap\u00f3stolos, conta-se que o ap\u00f3stolo Pedro disse ao coxo que pedia esmola \u00e0 porta do templo: \u00abN\u00e3o tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o que tenho: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda\u00bb (Act 3, 6). Com a esmola, oferecemos algo de material, sinal do dom maior que podemos oferecer aos outros com o an\u00fancio e o testemunho de Cristo, em cujo nome temos a vida verdadeira. Que este per\u00edodo se caracterize, portanto, por um esfor\u00e7o pessoal e comunit\u00e1rio de ades\u00e3o a Cristo, para sermos testemunhas do seu amor. Maria, M\u00e3e e Serva fiel do Senhor, ajude os crentes a regerem o \u00abcombate espiritual\u00bb da Quaresma armados com a ora\u00e7\u00e3o, o jejum e a pr\u00e1tica da esmola, para chegarem \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es das Festas Pascais renovados no esp\u00edrito. Com estes votos, de bom grado concedo a todos a B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica.<\/p>\n<p>Vaticano, 30 de Outubro de 2007.<\/p>\n<p>BENEDICTUS PP. XVI<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2008<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-11523","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11523"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11523\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}