{"id":11542,"date":"2008-02-06T17:58:00","date_gmt":"2008-02-06T17:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11542"},"modified":"2008-02-06T17:58:00","modified_gmt":"2008-02-06T17:58:00","slug":"considerai-peixes-que-tambem-os-homens-se-comem-vivos-assim-como-vos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/considerai-peixes-que-tambem-os-homens-se-comem-vivos-assim-como-vos\/","title":{"rendered":"&#8220;Considerai, peixes, que tamb\u00e9m os homens se comem vivos assim como v\u00f3s&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>No rescaldo de duas palestras <!--more--> 1. A L\u00facia gostou de ouvir o Professor Rog\u00e9rio Roque Carvalho do ISCTE contar que um grupo de pais se reuniu, para dar continuidade \u00e0 escolariza\u00e7\u00e3o dos seus filhos na Guin\u00e9-Bissau. Como n\u00e3o havia escola oficial, decidiram que os filhos mais velhos ensinariam as crian\u00e7as, sentadas no banquinho que cada uma levava de casa, debaixo da sombra da \u00e1rvore mais frondosa do bairro. O caderno di\u00e1rio come\u00e7ou por ser a mem\u00f3ria. Os pais, pessoas pobres e analfabetas, quotizaram-se para pagarem aos professores. A iniciativa expandiu-se, v\u00e1rias aldeias copiaram a ideia; algumas t\u00eam tr\u00eas turmas; umas t\u00eam aulas at\u00e9 ao nono ano; outras at\u00e9 ao 12\u00ba. O sucesso escolar \u00e9 mais elevado do que nas escolas p\u00fablicas. Ali, todos v\u00e3o por gosto. A primeira aldeia que teve a iniciativa de fazer uma escola com os seus pr\u00f3prios recursos n\u00e3o parou: a escola j\u00e1 tem paredes e tecto; o centro de sa\u00fade, a r\u00e1dio, o polidesportivo, a recolha do lixo e a cooperativa de mulheres costureiras foram outras formas de mobiliza\u00e7\u00e3o local com resultados surpreendentes. Aquela comunidade empreendedora tinha um problema (v\u00e1rios), descobriu e desenvolveu capacidades nos seus habitantes, convertendo-os em respostas eficazes. <\/p>\n<p>\u2013 Que pena que as minhas amigas tenham estado a mandar sms e de volta do jogo do galo! Elas que passam o tempo a queixar-se de que os pais as obrigam a vir \u00e0 escola! Se tivessem nascido na Guin\u00e9?!<\/p>\n<p>2. Aos 15 anos, foi deixado sozinho nas ruas de S. Paulo. Escolhido pelo xam\u00e3 da sua tribo, marcado em crian\u00e7a com um sinal na testa, todos sabiam que estava preparado para divulgar as tradi\u00e7\u00f5es do seu povo. Dormiu debaixo da ponte cerca de tr\u00eas anos e meio. O primeiro emprego foi numa padaria. Aprendeu portugu\u00eas, frequentou a Universidade, onde hoje \u00e9 professor de Artes, especialista em Cultura Popular Brasileira. <\/p>\n<p>\u201cTrilha de serpente\u201d, nome ind\u00edgena do professor Jos\u00e9 Francisco de Lima, que falou da sua vida a v\u00e1rios alunos em duas escolas secund\u00e1rias portuguesas, \u00e9 defensor dos direitos e costumes do seu povo. Partindo de uma d\u00fazia de fotografias de \u00edndios com nome pr\u00f3prio, Jos\u00e9 Francisco de Lima denunciou situa\u00e7\u00f5es de escravatura e de desrespeito pelo outro, intoler\u00e2ncia cultural e destrui\u00e7\u00e3o da vida humana e natural. Desconhece o Padre Ant\u00f3nio Vieira [comemoram-se hoje os 400 anos do seu nascimento \u2013 Lisboa, 6 de Fevereiro de 1608, morreu na Bahia, 17 de Junho de 1697 \u2013. Aqui fica, neste par\u00eantesis, um convite \u00e0 leitura dos Serm\u00f5es do Padre Ant\u00f3nio Vieira, autor da frase com que intitulei esta cr\u00f3nica], mas partilha das mesmas preocupa\u00e7\u00f5es: os brancos chacinam grandes grupos populacionais que vivem em reservas \u00edndias; o uso da terra e a desfloresta\u00e7\u00e3o obriga as tribos a imigrarem; alguns mission\u00e1rios \u2013 leigos e consagrados \u2013 e \u00edndios desaparecem por saberem demais. <\/p>\n<p>Para o Ricardo, aquelas fotografias de \u00edndios, das habita\u00e7\u00f5es e do alimento preferido \u2013 quem n\u00e3o se lembra do Indiana Jones a comer miolos de macaco como sobremesa? \u2013 fizeram-no descobrir um mundo que pensava s\u00f3 existir nos livros (Lera A cidade dos deuses selvagens de Isabel Allende e percebeu que a escritora se inspirara na vida real).<\/p>\n<p> \u2013 Que pena que os meus colegas tenham estado a mandar sms durante a conversa! Se tivessem nascido yanomami, estavam agora debaixo da ponte, a pensar como iriam sobreviver no mundo dos brancos. Eles que passam o tempo a queixar-se de que os pais os obrigam a vir \u00e0 escola! <\/p>\n<p>P.S. \u2013 A ementa para 2008 (cf. meu artigo 3 de Janeiro) veio recheada como previsto, e muito se tem protestado. A sobremesa inesperada apareceu na Sondagem Gallup para o F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial. Segundo a not\u00edcia de 25 de Janeiro, os professores s\u00e3o os profissionais em quem os portugueses mais confiam e tamb\u00e9m aqueles a quem confiariam mais poder no pa\u00eds. \u201cE esta, hem?!\u201d como diria o saudoso Fernando Pessa.<\/p>\n<p>Para saber mais sobre a tribo yanomami (cerca de 26 000 pessoas que ocupam um territ\u00f3rio que se estende entre o Brasil e a Venezuela), consulte-se a internet. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No rescaldo de duas palestras<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-11542","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11542"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11542\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}