{"id":11593,"date":"2008-02-13T16:45:00","date_gmt":"2008-02-13T16:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11593"},"modified":"2008-02-13T16:45:00","modified_gmt":"2008-02-13T16:45:00","slug":"a-beleza-na-liturgia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-beleza-na-liturgia\/","title":{"rendered":"A beleza na liturgia"},"content":{"rendered":"<p>JO\u00c3O GAMBOA<\/p>\n<p>Reflex\u00e3o sobre a beleza na liturgia, que resulta de harmoniza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios elementos, entre os quais se destaca a m\u00fasica<\/p>\n<p>1. \u201cA grande quest\u00e3o lit\u00fargica \u00e9 a beleza\u201d. Assim escrevia, h\u00e1 meses (P\u00fablico, 12Nov2006, p. 8), Frei Bento Domingues, afirmando que o actual Papa tem raz\u00e3o quanto a este problema. E acrescentava: \u201cA beleza lit\u00fargica pressup\u00f5e arquitectura, textos e m\u00fasica de qualidade, para exprimir a f\u00e9, a esperan\u00e7a e o amor de uma comunidade concreta\u201d.<\/p>\n<p>Esmiu\u00e7ando mais, diria, seguindo Jos\u00e9 de Le\u00e3o Cordeiro, que a beleza na Liturgia depende de outros elementos que \u00e9 necess\u00e1rio ter em conta: o enquadramento lit\u00fargico (o tempo lit\u00fargico, o lugar, o momento lit\u00fargico); a assembleia (grandeza, consist\u00eancia, idade, diversidade, como se disp\u00f5e, grau de participa\u00e7\u00e3o); o espa\u00e7o onde se celebra, com a sua arquitectura, disposi\u00e7\u00e3o dos lugares, ilumina\u00e7\u00e3o e decora\u00e7\u00e3o (frescos, vitrais, esculturas, vestes, arranjos florais e outros); o mobili\u00e1rio (altar, amb\u00e3o, cadeiras, candelabros, vasos sagrados); as ac\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas com os seus ritos, a interven\u00e7\u00e3o do presidente e dos outros ministros, as desloca\u00e7\u00f5es e gestos, a proclama\u00e7\u00e3o dos textos, o canto\u2026<\/p>\n<p>Da boa harmoniza\u00e7\u00e3o de todos estes elementos e do acerto e dignidade com que s\u00e3o executadas as ac\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, resultar\u00e1 a beleza que se pretende. \u201cN\u00e3o para dar um espect\u00e1culo, mas para criar um clima intenso de ora\u00e7\u00e3o e de reforma de vida\u201d, como dizia ainda Frei Bento Domingues.<\/p>\n<p>Novamente aprofundando e clarificando, resumindo Mons. Piero Marini: a Liturgia \u00e9 ac\u00e7\u00e3o de Cristo; mas \u00e9 tamb\u00e9m ac\u00e7\u00e3o da Igreja, porque esta nada faz que Cristo n\u00e3o lhe tenha dito ou ensinado: \u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d (Lc 22, 19). Os nossos gestos, na celebra\u00e7\u00e3o, s\u00e3o, pois, gestos de Jesus. Ao repeti-los na celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, a Igreja prolonga e actualiza os gestos do Senhor Jesus.<\/p>\n<p>Os gestos concretos da vida de Jesus \u2013 caminhar, aben\u00e7oar, tocar, curar, fazer lodo, levantar os olhos ao c\u00e9u, partir o p\u00e3o, tomar o c\u00e1lice \u2013, a Igreja retoma-os na celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos. Foi, por\u00e9m, na v\u00e9spera da sua Paix\u00e3o que Jesus ensinou os gestos que devemos realizar. \u201cQuando chegou a hora em que ia ser glorificado por V\u00f3s, Pai santo, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim. E durante a Ceia, tomou o p\u00e3o, aben\u00e7oou-o, partiu-o e deu-o aos seus disc\u00edpulos, dizendo: Tomai todos e comei; isto \u00e9 o meu Corpo que ser\u00e1 entregue por v\u00f3s. De igual modo, tomou o c\u00e1lice com vinho e, dando gra\u00e7as, deu-o aos seus disc\u00edpulos\u2026\u201d O que torna belo o gesto do Senhor \u00e9 que ele \u00e9 gesto de amor salv\u00edfico: \u201camou-os at\u00e9 ao fim (\u2026) tomou o p\u00e3o\u201d. Ao repetir o gesto de Cristo, a Igreja acha-o belo porque nele reconhece o amor do seu Senhor. A beleza da Liturgia est\u00e1, em primeiro lugar, no amor do mist\u00e9rio pascal. A beleza arquitect\u00f3nica, as decora\u00e7\u00f5es, a coreografia, as cores, todos os elementos atr\u00e1s enunciados cooperam e auxiliam, s\u00e3o arte que, evangelizada pelo amor, se tornam importantes para a beleza lit\u00fargica. <\/p>\n<p>2. No que diz respeito aos textos e m\u00fasica a cantar na Liturgia, eles t\u00eam de possuir qualidade, para \u201cexprimir a f\u00e9, a esperan\u00e7a e o amor de uma comunidade\u201d, como escrevia Frei Bento Domingues. <\/p>\n<p>2.1. A qualidade de um texto come\u00e7a na seguran\u00e7a teol\u00f3gica (deve estar de acordo com a doutrina cat\u00f3lica), prossegue na correc\u00e7\u00e3o gramatical, na limpidez e clareza de ideias de modo a ser compreendido por todos, e culmina na beleza formal e po\u00e9tica. Um texto, para ser cantado na liturgia, tem de ser belo! Se \u00e9 tirado da Sagrada Escritura, est\u00e1 a qualidade assegurada, em princ\u00edpio. Se se trata de cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, deve inspirar-se na Sagrada Escritura e nas fontes lit\u00fargicas, bebendo na torrente b\u00edblica que est\u00e1 presente e fecunda a express\u00e3o lit\u00fargica de todos os tempos. <\/p>\n<p>H\u00e1 meses, ouvia na r\u00e1dio este refr\u00e3o de um \u201cc\u00e2ntico\u201d de entrada: \u201cBom dia, Pai, bom dia\u201d. \u00c9 de ficar triste e envergonhado com tanta pobreza e mediocridade! Mais recentemente, ouvi como c\u00e2ntico de entrada de uma celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica do tempo natal\u00edcio um cantar de janeiras. Aquela comunidade \u2013 ou aquele grupo \u2013, ao cantar as janeiras ao seu Deus, banalizou, dessacralizou um canto processional que devia abrir os cora\u00e7\u00f5es para a celebra\u00e7\u00e3o da manifesta\u00e7\u00e3o de Deus. <\/p>\n<p>A Liturgia \u00e9 celebra\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o de Deus ao homem num tempo hist\u00f3rico que a B\u00edblia situa. Por isso, a linguagem lit\u00fargica deve ser eminentemente b\u00edblica (cf. S.C. 24). J\u00e1 se situa nessa linha e possui luminosidade po\u00e9tica o texto seguinte, refr\u00e3o de um c\u00e2ntico de entrada do tempo do Advento: \u201cO Senhor vir\u00e1, \/ O Senhor vir\u00e1 como aurora resplandecente. \/ Aleluia\u201d. <\/p>\n<p>2.2. O canto na Liturgia \u00e9 o melhor meio de exprimir e dar forma a uma atitude e sentimento interior da assembleia e de cada um dos que a comp\u00f5em. A m\u00fasica \u00e9, portanto, apoio e condutora indispens\u00e1vel das atitudes de adora\u00e7\u00e3o, convers\u00e3o, f\u00e9, louvor, ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, medita\u00e7\u00e3o, s\u00faplica, comunh\u00e3o\u2026 <\/p>\n<p>Como sinal lit\u00fargico que \u00e9, a m\u00fasica lit\u00fargica d\u00e1 visibilidade, exprime e realiza a presen\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o e a uni\u00e3o da comunidade que celebra com Cristo e, por meio d\u2019Ele, com o Pai, no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Como a Liturgia \u00e9 celebra\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o de Deus ao homem, como a revela\u00e7\u00e3o de Deus chega ao homem atrav\u00e9s da Palavra (incarnada em Cristo e proferida), e como o meio de di\u00e1logo entre Deus e o homem \u00e9, antes de mais, a palavra, a m\u00fasica deve revestir a palavra, dando-lhe realce e express\u00e3o, constituindo com ela uma forte e \u00edntima comunh\u00e3o. A m\u00fasica, portanto, interpreta e d\u00e1 vida \u00e0 palavra e esta, no canto lit\u00fargico, \u00e9 que tem o primado. Quando a m\u00fasica interpreta a palavra e est\u00e1 ao seu servi\u00e7o e a m\u00fasica respeita os momentos lit\u00fargicos, a m\u00fasica alcan\u00e7a a sua dimens\u00e3o sacramental. Deve, para isso, ter qualidade. Em primeiro lugar, deve ser santa e bela; deve manifestar a natureza da verdadeira Igreja, com diversidade de minist\u00e9rios e servi\u00e7os que concorrem para a unanimidade da f\u00e9; deve ter as qualidades de verdadeira m\u00fasica, ser bem feita e bem executada; deve ainda possuir a capacidade de assumir as fun\u00e7\u00f5es rituais b\u00e1sicas \u2013 a proclama\u00e7\u00e3o, a aclama\u00e7\u00e3o, o hino, a ladainha.<\/p>\n<p>3. Em Novembro de 2006, escrevia na Voz Portucalense, em reflex\u00e3o que intitulou \u201cA permanente quest\u00e3o da m\u00fasica sacra\u201d, o Secretariado Diocesano de Liturgia da diocese do Porto: \u201cA m\u00fasica que se pratica em muitas igrejas (\u2026) \u00e9 um lament\u00e1vel insulto \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es de sempre da Igreja e \u00e0 verdadeira transmiss\u00e3o da F\u00e9, agrava a forma\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is e \u00e9 uma afronta \u00e0 cultura\u201d. S\u00f3 por uma grave falta de sensibilidade musical e lit\u00fargica, agravada por uma deficiente forma\u00e7\u00e3o religiosa e humana, se pode explicar a utiliza\u00e7\u00e3o abusiva dessa falsa m\u00fasica.<\/p>\n<p>O conhecido maestro e compositor Ant\u00f3nio Vitorino de Almeida, em entrevista \u00e0 Voz Portucalense (1Fev2006, p. 13), referindo-se \u00e0 m\u00fasica executada \u201cnos meios e espa\u00e7os eclesiais\u201d, afirmava: \u201c\u2026 vejo por vezes umas \u00abmusicatas\u00bb que n\u00e3o compreendo, durante a Eucaristia, com guitarras, castanholas e n\u00e3o sei o qu\u00ea, como se isto tivesse alguma coisa a ver com a atmosfera da m\u00fasica lit\u00fargica\u2026\u201d E mais \u00e0 frente: \u201cTenho o maior respeito pela Igreja Cat\u00f3lica e reconhe\u00e7o o legado est\u00e9tico important\u00edssimo que ela tem na nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Uma grande parte da arte ocidental tem a ver com a Igreja. Por isso, seria tamb\u00e9m bom que ela pr\u00f3pria se respeitasse e n\u00e3o abandalhasse o que tem de bom, o seu patrim\u00f3nio (musical)\u201d. <\/p>\n<p>De facto, ao longo da Hist\u00f3ria da M\u00fasica, grandes compositores n\u00e3o essencialmente religiosos foram beber e inspirar-se na m\u00fasica da Igreja para construir as suas obras; hoje, desgra\u00e7adamente, observa-se, da parte de alguns grupos de igreja, um movimento contr\u00e1rio: v\u00e3o buscar \u00e0 m\u00fasica rock e pop os ritmos e o ru\u00eddo furioso com que atormentam as celebra\u00e7\u00f5es, de cabo a rabo, mesmo em momentos penitenciais como o \u201cSenhor tende piedade\u201d e o \u201cCordeiro de Deus\u201d. E s\u00e3o violas, tambores, os graves da pedaleira do \u00f3rg\u00e3o e at\u00e9 bateria \u2013 uma percuss\u00e3o massiva que esmaga e n\u00e3o deixa entender a palavra, a ponto de sentirem necessidade de a projectar.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos, num conjunto de celebra\u00e7\u00f5es em que participei para acompanhar um familiar, o ambiente profanado de banalidades e berros do pr\u00f3prio presidente era tal que um par de namorados (pais duma crian\u00e7a que celebrava a primeira comunh\u00e3o, soube depois) sentiu que podia beijar-se com vis\u00edvel sensualidade. Uma das can\u00e7\u00f5es cantadas sugeriu-me a imagem visual de um rancho folcl\u00f3rico que, sobre um palco, dan\u00e7a at\u00e9 um extremo, atira a perna para fora e regressa ao outro lado. Na mesma igreja, mais recentemente, o ambiente de arraial levou a que, ao serem chamados os casais que celebravam 25 e 50 anos de casados, alguns jovens assobiassem como se se tratasse de um festival. Pudera!, toda a atmosfera tinha sido de batucada!<\/p>\n<p>4. \u00c9 tempo de concluir. H\u00e1 espa\u00e7os eclesiais onde se passa o que acaba de ser descrito. Estar\u00e3o os seus pastores ref\u00e9ns da incultura musical e da insensibilidade lit\u00fargica? Haver\u00e1 grupos a imporem-se e a imporem os seus crit\u00e9rios e escolhas a uma assembleia inteira? Ou estar\u00e3o os pastores dominados por um esp\u00edrito e atitude de sequestro, assumindo, demagogicamente, o intuito duvidoso de \u201cconquistar\u201d jovens para as celebra\u00e7\u00f5es? Mas isso \u00e9 servir gato por lebre e, se hoje parece dar algum resultado, amanh\u00e3 os jovens sentir-se-\u00e3o enganados e decepcionados, o que \u00e9 tamb\u00e9m um mau servi\u00e7o \u00e0 Igreja. De vez em quando, j\u00e1 aparecem testemunhos nesse sentido\u2026 <\/p>\n<p>A m\u00fasica na Liturgia tem o nobre fim de louvar a Deus e santificar os fi\u00e9is; merece, portanto, outro respeito. \u00c9 problema que tem de ser abordado com seriedade e crit\u00e9rio. \u00c9 de evitar o \u201cabandalhamento\u201d de que falava Ant\u00f3nio Vitorino de Almeida; devemos elevar e n\u00e3o rebaixar. A Igreja deve lutar pelo melhor. E isso consegue-se com trabalho pastoral cont\u00ednuo, correcto, equilibrado e progressivo. N\u00e3o o fazer \u00e9 instilar e instalar o mau gosto. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JO\u00c3O GAMBOA Reflex\u00e3o sobre a beleza na liturgia, que resulta de harmoniza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios elementos, entre os quais se destaca a m\u00fasica 1. \u201cA grande quest\u00e3o lit\u00fargica \u00e9 a beleza\u201d. 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