{"id":11595,"date":"2008-02-13T16:51:00","date_gmt":"2008-02-13T16:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11595"},"modified":"2008-02-13T16:51:00","modified_gmt":"2008-02-13T16:51:00","slug":"bento-xvi-ataca-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/bento-xvi-ataca-a-ciencia\/","title":{"rendered":"Bento XVI ataca a ci\u00eancia?"},"content":{"rendered":"<p>Nestes tempos sem tempo, o jornalismo que se propala nos nossos di\u00e1rios n\u00e3o pode sen\u00e3o reflectir esta voragem que tudo arrasa \u00e0 sua frente. Nesta onda vertiginosa, temos assistido, de forma cada vez mais clara, a uma incauta falta de rigor em titular assuntos sobre os quais a Igreja se pronuncia que, pela sua frequ\u00eancia, chega a fazer supor uma articula\u00e7\u00e3o intencionada. Motiva esta introdu\u00e7\u00e3o um t\u00edtulo encontrado em p\u00e1gina de capa de um dos nossos matutinos de grande tiragem, que, para se referir a discurso do Papa aos participantes de Sess\u00e3o Plen\u00e1ria da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, chama a t\u00edtulo a ideia de um \u2018ataque\u2019 do Papa \u00e0 ci\u00eancia. Para al\u00e9m da imagem belicista que logo se suscita no leitor menos avisado, este \u00e9 mais um contributo para uma cada vez mais difundida ideia de obscurantismo a que alguns pretendem, n\u00e3o sem inten\u00e7\u00f5es menos expl\u00edcitas, colar a Igreja. <\/p>\n<p>Mas tomemos em refer\u00eancia o que o Papa diz no referido discurso de 31 de Janeiro: \u201cO magist\u00e9rio certamente n\u00e3o pode e n\u00e3o deve intervir em rela\u00e7\u00e3o a cada novidade da ci\u00eancia, mas tem o dever de repetir os grandes valores em jogo e de propor aos fi\u00e9is e aos homens de boa-vontade princ\u00edpios e orienta\u00e7\u00f5es \u00e9tico-morais para as novas quest\u00f5es importantes. Os dois crit\u00e9rios para o discernimento moral neste campo s\u00e3o: a) o respeito incondicionado pelo ser humano como pessoa, desde a sua concep\u00e7\u00e3o \u00e0 sua morte natural; b) o respeito pela originalidade da transmiss\u00e3o da vida humana atrav\u00e9s dos actos pr\u00f3prios dos c\u00f4njuges.\u201d<\/p>\n<p>Daqui n\u00e3o se depreende qualquer ataque formal ou informal \u00e0 ci\u00eancia, em si mesma, mas a uma procura tecnologicista de fazer ci\u00eancia, que identifica o poder fazer com a pretensa legitimidade \u00e9tica para o fazer. A provar que esta den\u00fancia n\u00e3o se destina ao universo da ci\u00eancia, mas a um determinado modo de se proceder, est\u00e3o as palavras a que, mais adiante, Bento XVI recorre, para refor\u00e7ar que \u2018certamente a Igreja aprecia e encoraja o progresso das ci\u00eancias biom\u00e9dicas que abrem prospectivas terap\u00eau-ticas ainda desconhecidas, mediante, por exemplo, o uso das c\u00e9lulas estaminais som\u00e1ticas ou ent\u00e3o mediante as terapias destinadas \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o da fertilidade ou \u00e0 cura das doen\u00e7as gen\u00e9ticas. Ao mesmo tempo, sente o dever de iluminar as consci\u00eancias de todos, a fim de que o progresso cient\u00edfico seja, verdadeiramente, respeitador de cada ser humano [\u2026].\u2019 <\/p>\n<p>Tais condi\u00e7\u00f5es suscitam, naturalmente, a cr\u00edtica impl\u00edcita a uma forma de se fazer ci\u00eancia que reduz o humano \u00e0 condi\u00e7\u00e3o coisificante. \u201cQuando os seres humanos, no estado mais d\u00e9bil e mais indefeso da sua exist\u00eancia, s\u00e3o seleccionados, abandonados, mortos ou utilizados como puro \u00abmaterial biol\u00f3gico\u00bb, como negar que esses s\u00e3o tratados j\u00e1 n\u00e3o como \u00abalgu\u00e9m\u00bb, mas como \u00abalgo\u00bb, pondo, assim, em quest\u00e3o o pr\u00f3prio conceito de dignidade humana?\u201d<\/p>\n<p>A interroga\u00e7\u00e3o gira, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em torno do conceito de progresso que desejamos. Pretendemos um regresso ao conceito positivista e marxista de progresso, que tudo reduz \u00e0 simples mudan\u00e7a vertiginosa, sem sentido, ou ainda \u00e9 poss\u00edvel acreditar num progresso humanamente sustent\u00e1vel? Bem certo que, como diz o ditado chin\u00eas, \u201cuma floresta que cresce, f\u00e1-lo silenciosamente; uma \u00e1rvore que se abate faz um estrondo que longe se faz notado.\u201d Mas, no fim, o sil\u00eancio da destrui\u00e7\u00e3o\u2026 <\/p>\n<p>Conto, a este prop\u00f3sito, uma hist\u00f3ria real, por\u00e9m, oportuna. <\/p>\n<p>Vivo num apartamento que faz parte de um condom\u00ednio a que pertencem mais 20 cond\u00f3minos. Durante anos, cont\u00e1mos com a benfazeja conviv\u00eancia de um cond\u00f3mino que se encarregava de tudo resolver prontamente: uma porta que se estragava, a l\u00e2mpada que fundia, o port\u00e3o que deixava de abrir\u2026 Tudo era prontamente arranjado. T\u00e3o prontamente que muitos n\u00e3o chegavam a notar que algo tivesse estado mal. At\u00e9 que, recentemente, a vida se modificou e este benfeitor deixou-nos. De ent\u00e3o para c\u00e1, as avarias tornaram-se notadas e o desejo de que a benfazeja presen\u00e7a regresse faz-se ouvir em surdina, nos cora\u00e7\u00f5es de todos\u2026<\/p>\n<p>A voz da Igreja apela a esta \u00e9tica do cuidado, do respeito que parece ausente at\u00e9 ao dia em que a sua real aus\u00eancia tudo faz desabar, tarde fazendo despertar o desejo de que mais cedo houv\u00e9ssemos acordado para o que todos viam mas sempre duvidavam que algum dia fosse poss\u00edvel. <\/p>\n<p>S\u00f3 esta \u00e9tica protege a ci\u00eancia. Porque o sentido da ci\u00eancia \u00e9 o bem do homem e da natureza. Porque s\u00f3 a \u00e9tica do cuidado \u00e9 verdadeiramente progressista, ao desafiar a que se encontrem outros caminhos, que nem sempre os mais f\u00e1ceis, para dar solu\u00e7\u00e3o aos desafios. A ci\u00eancia, sem esta \u00e9tica do cuidado, \u00e9, conformista: basta-se com o que pode j\u00e1 fazer, sem se interrogar se haver\u00e1 outros caminhos de maior respeito a percorrer.<\/p>\n<p>Ao leitor caber\u00e1 responder quem, de facto, ataca a ci\u00eancia, conduzindo-a \u00e0 sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o. Uma ci\u00eancia que n\u00e3o serve todo e cada ser humano a quem serve?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestes tempos sem tempo, o jornalismo que se propala nos nossos di\u00e1rios n\u00e3o pode sen\u00e3o reflectir esta voragem que tudo arrasa \u00e0 sua frente. 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