{"id":11631,"date":"2008-02-20T16:57:00","date_gmt":"2008-02-20T16:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11631"},"modified":"2008-02-20T16:57:00","modified_gmt":"2008-02-20T16:57:00","slug":"fiquei-a-admirar-muito-o-trabalho-que-fazem-os-missionarios-a-serio-aqueles-que-o-sao-durante-toda-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/fiquei-a-admirar-muito-o-trabalho-que-fazem-os-missionarios-a-serio-aqueles-que-o-sao-durante-toda-a-vida\/","title":{"rendered":"&#8220;Fiquei a admirar muito o trabalho que fazem os mission\u00e1rios a s\u00e9rio, aqueles que o s\u00e3o durante toda a vida&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Livro de Joana Abranches Portela re\u00fane cartas enviadas durante os dois anos de miss\u00e3o em Mo\u00e7ambique <!--more--> Joana Abranches Portela nasceu em Louren\u00e7o Marques (actual Maputo, Mo\u00e7ambique), em 1975, mas veio para Portugal com ano e meio de idade. Cresceu em Vila Real e estudou L\u00ednguas e Literaturas Cl\u00e1ssicas em Coimbra. \u00c9 casada e tem um filho de 17 meses. Trabalha na Gostar Editora, de Eixo, e vive desde Dezembro de 2006 em Aveiro.<\/p>\n<p>Em 2002, com o marido, partiu como volunt\u00e1ria para Mo\u00e7ambique. Durante dois anos viveu e trabalhou na Miss\u00e3o Fonte Boa. As cartas que de l\u00e1 escreveu est\u00e3o agora publicadas em livro.<\/p>\n<p>Correio Vouga &#8211;  Quando de Mo\u00e7ambique escrevia estas cartas, esperava que viessem a ser publicadas? Conte-nos a hist\u00f3ria deste livro.<\/p>\n<p>Joana Abranches Portela &#8211; N\u00e3o, eram apenas cartas que eu escrevia para as pessoas a quem, antes de partir, prometi que mandaria not\u00edcias. N\u00f3s l\u00e1, em Fonte Boa, nos primeiros meses, n\u00e3o t\u00ednhamos Internet. E mesmo o telefone raramente tinha rede e era preciso sair da miss\u00e3o, de carro, \u00e0 procura de sinal\u2026. Pass\u00e1vamos semanas sem conseguir comunicar para Portugal. Ent\u00e3o, para poder contar o que est\u00e1vamos a viver, eu escrevia cartas. Sempre gostei muito de escrever cartas. Acho que \u00e9 a minha forma de chegar \u00e0s pessoas. A particularidade destas cartas \u00e9 que n\u00e3o eram individualizadas, escrevia o mesmo para toda a gente. Depois enviava por correio um exemplar para cinco ou seis pessoas, que se encarregavam de as fotocopiar e distribuir pelo respectivo grupo: pela fam\u00edlia, pelos amigos de Coimbra, pelos antigos colegas de trabalho, pela minha CVX \u2013 Comunidades de Vida Crist\u00e3, etc. (Assim, era um maneira de poupar dinheiro em selos.) Com isto, as cartas muitas vezes chegavam tamb\u00e9m a outras pessoas, que eu nem conhecia, porque aqueles que as recebiam foram-nas partilhando com outros, e estes com outros ainda\u2026 O meu pai, por exemplo, mandava as minhas cartas para muitas pessoas do c\u00edrculo dele, sobretudo para os amigos e colegas que conheciam \u00c1frica.<\/p>\n<p>De vez em quando, sobretudo atrav\u00e9s das cartas que o meu pai nos enviava, eu ia recebendo o feedback de pessoas que as tinham lido. Muitas incentivavam-me a continuar a escrever e algumas diziam at\u00e9 que mereciam ser publicadas. Mas nunca liguei muito. Percebi que estas cartas iam circulando de m\u00e3o em m\u00e3o, muito para al\u00e9m do meu c\u00edrculo de conhecidos. Portanto, elas j\u00e1 eram p\u00fablicas (a maior parte at\u00e9 foi publicada no jornal interno dos Leigos para o Desenvolvimento) e n\u00e3o havia interesse \u2013 pensava eu \u2013 em public\u00e1-las em livro: aqueles a quem poderiam interessar j\u00e1 as tinham lido.<\/p>\n<p>Mas insistiram na publica\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Quando regressei a Portugal, v\u00e1rias pessoas voltaram a falar-me em publicar as cartas, mas \u2013 para ser honesta \u2013 eu n\u00e3o queria muito ter que me preocupar com isso: procurar editora, rever textos\u2026 Estava mais preocupada em arranjar emprego e em publicar a minha tese de mestrado (que, por ironia do destino, at\u00e9 hoje est\u00e1 na gaveta\u2026). Mas um colega do meu pai, que fez trabalho de campo em Mo\u00e7ambique e que tinha lido as minhas cartas, perguntou-me se as podia mostrar ao editor da Profedi\u00e7\u00f5es, que ele conhecia e onde j\u00e1 tinha publicado. E foi a partir da\u00ed que tudo se despoletou. De facto, este livro surge gra\u00e7as ao empenho do Fernando Bessa, que mostrou os originais ao editor e se envolveu muito na publica\u00e7\u00e3o do livro.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que escrevia as cartas, obtinha ecos dos destinat\u00e1rios?<\/p>\n<p>Sim, algumas pessoas respondiam, sobretudo os familiares e amigos mais pr\u00f3ximos, escrevendo cartas tamb\u00e9m, daquelas enviadas pelos correios, com selo, que demoravam cerca de um m\u00eas a chegar&#8230; (e que tinham um percurso longo: da caixa postal do Malawi, na fronteira, eram levadas por um paroquiano e entregues aos padres de Lifidzi, que depois as entregavam aos padres da Vila, que por sua vez as entregavam na Miss\u00e3o \u2013 um percurso com cerca de 80 km). Tamb\u00e9m recebi cartas de pessoas de quem n\u00e3o estava mesmo \u00e0 espera, mas que se tinham sentido tocadas pelo que escrevi e respondiam. Mas a maior parte dos ecos vieram at\u00e9 daqueles que n\u00e3o eram os destinat\u00e1rios das cartas, mas que pela m\u00e3o de algu\u00e9m as leram. O meu pai mandava-me, por carta, os e-mails com o feedback dessas pessoas.<\/p>\n<p>Gostava de conhecer os ecos que obtinha?<\/p>\n<p>\u00c9 claro que sim, gostava de saber que havia pessoas que n\u00e3o me conheciam mas que gostavam de ler as minhas cartas\u2026 Sentia, muitas vezes, que nisto tudo havia a m\u00e3o de Deus\u2026<\/p>\n<p>As suas cartas est\u00e3o recheadas de cor e hist\u00f3rias. D\u00e3o-nos a conhecer o seu trabalho na Miss\u00e3o de Fonte Boa, mas tamb\u00e9m as pessoas da miss\u00e3o, as viagens que fazia ao fim de semana, as dificuldades do dia-a-dia no interior de um pa\u00eds africano&#8230; Qual o epis\u00f3dio que mais a impressionou (ou sensibilizou)?<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil eleger um epis\u00f3dio\u2026 O que mais me impressionou foram as pessoas com o seu quotidiano dific\u00edlimo. Impressionou-me muito ver as crian\u00e7as subnutridas, v\u00e1rias delas \u00f3rf\u00e3s de sida, que iam ao centro de nutri\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o. Impressionou-me muit\u00edssimo a carga (f\u00edsica e n\u00e3o s\u00f3) que recai sobre as mulheres mo\u00e7ambicanas: carregam toneladas \u00e0 cabe\u00e7a, filhos \u00e0s costas e na barriga, e sobre os ombros ainda o peso da sobreviv\u00eancia di\u00e1ria da fam\u00edlia, pr\u00f3xima e alargada\u2026 Impressionou-me muito a generosidade das fam\u00edlias pobres, que nos davam de presente (e n\u00e3o pod\u00edamos recusar!) a \u00fanica galinha que tinham, quando as visit\u00e1vamos nas aldeias\u2026<\/p>\n<p>Como foi parar a Mo\u00e7ambique?<\/p>\n<p>Fui para Mo\u00e7ambique como volunt\u00e1ria dos Leigos para o Desenvolvimento, uma Organiza\u00e7\u00e3o N\u00e3o Governamental para o Desenvolvimento, que tem miss\u00f5es em Mo\u00e7ambique, Angola, S. Tom\u00e9 e Timor. Desde os meus tempos de faculdade que conhecia o trabalho dos Leigos para o Desenvolvimento, pois enquanto universit\u00e1ria fui animadora do CUMN, em Coimbra, um dos locais onde se realiza a forma\u00e7\u00e3o dos volunt\u00e1rios que pretendem partir em miss\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos n\u00f3s que escolhemos o pa\u00eds para onde somos enviados, \u00e9 a direc\u00e7\u00e3o da ONG. Calhou-nos, felizmente, Mo\u00e7ambique, que era o destino que, de facto, eu preferia, por ter nascido l\u00e1 e por sentir que queria fazer alguma coisa pela minha terra.<\/p>\n<p>Esteve dois anos em Mo\u00e7ambique, com o seu marido, o Carlos. Tratou-se, portanto, de um projecto de casal este voluntariado?<\/p>\n<p>Sim, foi desde o in\u00edcio um projecto a dois. A vontade de partir em miss\u00e3o, como volunt\u00e1rios, foi crescendo e amadurecendo durante os anos de namoro. O Carlos, que tinha iniciado a forma\u00e7\u00e3o dois anos antes, interrompeu-a e esperou por mim para partir, pois eu tinha a tese de mestrado para terminar. Quando percebemos que quer\u00edamos partilhar a felicidade um do outro para o resto da vida, percebemos tamb\u00e9m que s\u00f3 fazia sentido vivermos esta experi\u00eancia juntos, como casal. Cas\u00e1mos em Outubro de 2002 e partimos para Mo\u00e7ambique dois meses depois. No nosso primeiro ano de miss\u00e3o, a nossa comunidade \u00e9ramos s\u00f3 n\u00f3s os dois (normalmente as comunidades s\u00e3o de 4 pessoas), porque nesse ano apenas partiram 5 volunt\u00e1rios e todas as comunidades dos LD ficaram muito reduzidas. Penso que, apesar de tudo, foi bom termos tido a oportunidade de estarmos s\u00f3 os dois durante esse primeiro ano de casados. No segundo ano, j\u00e1 tivemos a companhia de mais dois volunt\u00e1rios. <\/p>\n<p>Foi importante esta experi\u00eancia, no in\u00edcio do casamento?<\/p>\n<p>Foi, foi muito importante para percebermos melhor, numa realidade t\u00e3o diferente da que est\u00e1vamos habituados, os valores e os ideais que partilhamos, aquilo em que acreditamos. Foi fundamental, sobretudo, para percebermos o que queremos fazer da nossa vida, como queremos viv\u00ea-la, l\u00e1 ou c\u00e1. Olhando para tr\u00e1s, penso que o facto de termos passado por esta experi\u00eancia juntos contribui muito para falarmos a mesma linguagem, para partilharmos as mesmas preocupa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, para estarmos em sintonia quanto ao nosso projecto de vida e \u00e0 nossa miss\u00e3o como crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Foi na miss\u00e3o de Fonte Boa que em Novembro de 2006 foi assassinada uma volunt\u00e1ria dos LpD (Idalina Gomes). Alguma vez sentiu a sua vida em perigo?<\/p>\n<p>Nunca senti qualquer tipo de inseguran\u00e7a em Fonte Boa. A ideia que eu ainda tenho de Fonte Boa \u00e9 a de um lugar remoto e pacato. Ainda hoje me custa a acreditar que isso tenha acontecido l\u00e1. Ouvia-se falar de assaltos, por vezes violentos, mas era nas cidades, n\u00e3o no mato. Durante o dia, n\u00f3s at\u00e9 deix\u00e1vamos a chave de casa na porta, do lado de fora\u2026 \u00c9 claro que t\u00ednhamos precau\u00e7\u00f5es durante a noite, mais por aquilo que se ouvia dizer de assaltos na Vila (a 15 km). Nunca senti a minha vida em perigo, enquanto estive em Mo\u00e7ambique. E medo, medo s\u00f3 senti uma vez, quando o nosso carro come\u00e7ou a patinar na lama perto de uma ribanceira\u2026<\/p>\n<p>Os dois anos em Fonte Boa mudaram a sua vis\u00e3o da vida?<\/p>\n<p>Acho que sim. Fiquei muito mais sens\u00edvel, por um lado, \u00e0s enormes injusti\u00e7as sociais, que se verificam a v\u00e1rios n\u00edveis: injusti\u00e7as entre o Norte e o Sul, injusti\u00e7as entre homens e mulheres, entre elites e povo, entre brancos e negros, etc., etc., etc. Tudo isto me revolta mais hoje do que antes, porque estas injusti\u00e7as s\u00e3o estruturais, n\u00e3o s\u00e3o uma fatalidade. Mas, por outro lado, fiquei muito mais desperta para o muito bem que algumas pessoas fazem por esse mundo fora e que est\u00e1 escondido, n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia, n\u00e3o \u00e9 apregoado. H\u00e1 muita gente boa a fazer o bem, muita gente que se entrega verdadeiramente aos outros, muitas coisas boas a acontecerem para evitar que a mis\u00e9ria do mundo seja maior. Fiquei a admirar muito o trabalho que fazem os mission\u00e1rios a s\u00e9rio, aqueles que o s\u00e3o durante toda a vida, como as irm\u00e3s. Hoje tenho a certeza que Deus v\u00ea o sofrimento do mundo e est\u00e1 a actuar por interm\u00e9dio dessas pessoas, que v\u00e3o fazendo poss\u00edveis e imposs\u00edveis para aliviar a dor, a fome, as doen\u00e7as dos homens. Pode parecer at\u00e9 um pouco contradit\u00f3rio, mas, depois de toda a pobreza e injusti\u00e7a que vi, tenho hoje mais esperan\u00e7a, porque tamb\u00e9m vi quanto bem se faz e est\u00e1 oculto. Acredito mais hoje na capacidade do Homem, de cada um de n\u00f3s, para fazer o bem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro de Joana Abranches Portela re\u00fane cartas enviadas durante os dois anos de miss\u00e3o em Mo\u00e7ambique<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-11631","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11631","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11631"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11631\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11631"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11631"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11631"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}