{"id":11704,"date":"2008-02-28T12:01:00","date_gmt":"2008-02-28T12:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11704"},"modified":"2008-02-28T12:01:00","modified_gmt":"2008-02-28T12:01:00","slug":"vieira-e-percursor-da-dignidade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/vieira-e-percursor-da-dignidade-humana\/","title":{"rendered":"Vieira \u00e9 percursor da dignidade humana"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista ao P.e Alexandre Cruz <!--more--> Alexandre Cruz, padre respons\u00e1vel pelo Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, defendeu com sucesso a tese \u201cUma vis\u00e3o pedag\u00f3gica dialogal na crise na primeira globaliza\u00e7\u00e3o\u201d, na Universidade de Aveiro, no dia 6 de Fevereiro de 2008, precisamente quando se comemorava o quarto centen\u00e1rio do nascimento do P.e Ant\u00f3nio Vieira, que est\u00e1 no cerne do trabalho do novo mestre. O jesu\u00edta \u201cimperador da l\u00edngua portuguesa\u201d, na c\u00e9lebre express\u00e3o de Fernando Pessoa, defensor dos \u00edndios e dos judeus, diplomata e mission\u00e1rio, foi um \u201chomem global\u201d, o \u201cprimeiro cidad\u00e3o da comunidade dos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa\u201d, afirma P.e Alexandre Cruz.<\/p>\n<p>O seu trabalho n\u00e3o foi uma tese sobre o P.e Ant\u00f3nio Vieira, mas nela o jesu\u00edta \u00e9 apresentado como arauto de um novo tempo, ap\u00f3s a primeira globaliza\u00e7\u00e3o&#8230; Ant\u00f3nio Vieira \u00e9 um percursor dos direitos humanos?<\/p>\n<p>A tese n\u00e3o foi sobre \u00fanica e explicitamente o P.e Ant\u00f3nio Vieira. A vis\u00e3o geral deste Mestrado em Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o (Forma\u00e7\u00e3o Pessoal e Social) tinha como tem\u00e1tica \u201cIdentidade e Cidadania\u201d. Tendo sido lan\u00e7ado o desafio de assinalar Vieira numa din\u00e2mica de l\u00edngua, identidade e cidadania, procur\u00e1mos mais do que nos centrarmos exclusivamente em Vieira, compreender o seu tempo social.<\/p>\n<p>O tempo social de Vieira teve a marca da marca da \u201cprimeira globaliza\u00e7\u00e3o\u201d, que resultou dos descobrimentos portugueses e espanh\u00f3is, como estudou&#8230;<\/p>\n<p>Sim. Nos s\u00e9culos XV-XVI deu-se uma primeira grande mudan\u00e7a planet\u00e1ria que foi a primeira globaliza\u00e7\u00e3o. Julgo que olhar para esse per\u00edodo ser\u00e1 importante para compreender a actualidade. Nesse sentido, aprofund\u00e1mos as transforma\u00e7\u00f5es e inc\u00f3modos da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, com as mudan\u00e7as de paradigmas que deram a volta, para o melhor e o pior, aos h\u00e1bitos instalados. Procur\u00e1mos, tamb\u00e9m, ler os sinais da esperan\u00e7a, estampados na Utopia de Thomas More, enraizada na filosofia crist\u00e3 e nos cl\u00e1ssicos, especialmente Plat\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse contexto de transforma\u00e7\u00e3o surge ent\u00e3o Vieira&#8230;<\/p>\n<p>Vieira surge numa \u00e9poca muito dif\u00edcil, tanto na Europa como no Portugal de seiscentos, e acaba por ser o inaugurador do paradigma da dignidade humana, num mundo em profundas convuls\u00f5es de intoler\u00e2ncias e escravatura. O Brasil estava num processo de estrutura\u00e7\u00e3o humana e Vieira deu a vida para dizer que \u00abv\u00f3s escravos tamb\u00e9m estais inscritos nos livros sagrados\u00bb. Ou seja: a afirma\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias da dignidade humana no Brasil, para al\u00e9m, naturalmente, de em Portugal ele procurar abrir muitas portas motivadoras e comprometidas com um pa\u00eds a consolidar [sa\u00eddo dos 60 anos de dom\u00ednio filipino]\u2026<\/p>\n<p>Temos vantagens, hoje, em conhecer a vida e obra do P.e Ant\u00f3nio Vieira?<\/p>\n<p>Muitas vantagens. Para a Hist\u00f3ria, \u00e9 um dever conhecer. Para a Lingu\u00edstica, \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o cultural. Em termos humanos, Vieira \u00e9, com Las Casas e Montaigne, precursor da dignidade da pessoa humana, preferindo a lei natural \u00e0 emergente raz\u00e3o de Estado, as pessoas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. Em termos de evangeliza\u00e7\u00e3o, Vieira tira-nos da passividade e puxa-nos para o confronto como enriquecimento comum. No referente ao di\u00e1logo inter-religioso, toda a sua defesa dos crist\u00e3os-novos abre-nos a novas formas de entendimento. Naturalmente que Vieira \u00e9 multifacetado, como dizem os especialistas, \u201cpolif\u00f3nico\u201d, plural.<\/p>\n<p>Na biografia dessa personalidade multifacetada que \u00e9 Vieira, o que destacaria?<\/p>\n<p>Destacaria talvez a sua componente viajante. Atravessou naquela \u00e9poca sete vezes o Atl\u00e2ntico! Como escritor, deixou 200 Serm\u00f5es e 700 Cartas, mais os escritos prof\u00e9ticos. Destaco a sua condi\u00e7\u00e3o de peregrino, de \u201cerr\u00e2ncia\u201d da condi\u00e7\u00e3o humana, como diz Eduardo Louren\u00e7o. Tamb\u00e9m mais um aspecto: o seu tempo era \u201csombrio\u201d, de pessimismo antropol\u00f3gico. Ele soube dar conte\u00fado \u00e0 \u201cpalavra\u201d, usando-a como forma de transforma\u00e7\u00e3o social e na liberdade da verdadeira f\u00e9 em Jesus Cristo\u2026 Eis, afinal, o desafio de sempre da evangeliza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>O Pe Ant\u00f3nio Vieira \u00e9 o primeiro portugu\u00eas global?<\/p>\n<p>Dos estudos sobre a Utopia renascentista de Thomas More, escrita em 1516, sabemos que os dois livros que comp\u00f5em a obra apresentam um portugu\u00eas como o relatador da ilha da Utopia, o ideal da conviv\u00eancia humana desta obra, como muitas, enraizada na Rep\u00fablica de Plat\u00e3o. Esse portugu\u00eas tinha como nome Rafael Hitlodeu. \u201cRafael\u201d remete para a nau da \u00cdndia\u2026 Parece que esta refer\u00eancia de um portugu\u00eas que \u00e9 eleito para desempenhar o ideal humano nesta grande obra da Renascen\u00e7a tem como base o grande portugu\u00eas da \u00e9poca, Dami\u00e3o de G\u00f3is, um homem global. Mas, de facto, com Ant\u00f3nio Vieira, na \u00e9poca da massifica\u00e7\u00e3o das navega\u00e7\u00f5es, acontece algo de novo. Primeiro, verifica-se que ele tanto viaja nos barcos como percorre a Europa pol\u00edtica; depois, procura uma configura\u00e7\u00e3o viajante que supera os meros relacionamentos pol\u00edtico-econ\u00f3micos. Vieira procura construir comunidades, no Brasil e em Cabo Verde. Poderemos mesmo dizer que \u00e9 o primeiro Cidad\u00e3o da CPLP! \u00c9 homem global, at\u00e9 pelas suas palavras: \u00abPara nascer, Portugal. Para morrer, o mundo!\u00bb<\/p>\n<p>Como conseguiu conciliar o trabalho do Centro Universit\u00e1rio e a colabora\u00e7\u00e3o que d\u00e1 na par\u00f3quia de Aradas com a disponibilidade para ler e investigar?<\/p>\n<p>Bom, neste \u201cregresso \u00e0s aulas\u201d, como forma\u00e7\u00e3o permanente, como costumo dizer, o trabalho foi realizado nos cantos do tempo. Neste ano e meio curricular e de tese, o trabalho foi feito pela noite dentro; enfim, normalmente ap\u00f3s todas as reuni\u00f5es e os variados trabalhos pastorais. S\u00f3 dessa forma \u00e9 que navegaria em paz, ao correr da pena\u2026<\/p>\n<p>Teve como orientador o Doutor Carlos Meireles Coelho&#8230;<\/p>\n<p>Sim, foi o Professor Carlos Meireles, tendo havido muitos outros professores que passaram pelas aulas do ano curricular. O mestrado demorou dois anos: um primeiro curricular; e um segundo de elabora\u00e7\u00e3o da tese. O Professor Carlos Meireles foi o orientador, fundamental numa perspectiva de rigor, m\u00e9todo, em ordem a n\u00e3o se dizer tudo aquilo que se pensa e quer mas a \u201corientar\u201d metodicamente o pensamento. Este \u00e9 um dos aspectos fundamentais de qualquer trabalho cient\u00edfico. Para al\u00e9m da componente acad\u00e9mica, a partilha de ideias e o enriquecimento foram muito estimulantes.<\/p>\n<p>Qual a maior descoberta ao fazer este trabalho?<\/p>\n<p>Destacaria v\u00e1rias:<\/p>\n<p>&#8211; a necessidade de compreender o tempo da globaliza\u00e7\u00e3o, das transforma\u00e7\u00f5es de sociedade que vivemos e que v\u00eam dar a volta \u00e0s formas habituais. Neste sentido, como permanecer nos essenciais e mudar os acess\u00f3rios?<\/p>\n<p>&#8211; o regressar ao passado das grandes transforma\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e das comunica\u00e7\u00f5es que, quer queiramos quer n\u00e3o, s\u00e3o impulsos impressionantes de mudan\u00e7a de paradigmas pessoais e sociais;<\/p>\n<p>&#8211; o entender que a expans\u00e3o e euforia da globaliza\u00e7\u00e3o teve posteriormente a sua profunda crise. Neste aspecto, foi muito interessante encontrar algumas obras \u201cesquecidas\u201d dos anos trinta e \u201ccinquenta\u201d, anos p\u00f3s-guerras europeias, que na crise europeia qualificam o s\u00e9c. XVII como \u201ccrise de consci\u00eancia europeia\u201d;<\/p>\n<p>&#8211; o ler por dentro a Utopia que aliou a filosofia crist\u00e3 ao pensamento cl\u00e1ssico;<\/p>\n<p>&#8211; o procurar esbo\u00e7ar um \u201cconceito educativo\u201d sobre o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo, \u201ca pedagogia dialogal\u201d, como refere no t\u00edtulo, \u00e9 importante?<\/p>\n<p>Fundamental. Estamos a viver o Ano Europeu do Di\u00e1logo Intercultural e tamb\u00e9m os 60 anos da declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos. A certa altura deparei-me com isto: por que \u00e9 que quase todos os grandes momentos de indecis\u00e3o e de op\u00e7\u00e3o do pensamento humano tiveram grandes \u201cdi\u00e1logos\u201d? Os di\u00e1logos de Plat\u00e3o, Galileu, Thomas More (e, de certa forma, de Espinosa, Locke&#8230; tenho uma colec\u00e7\u00e3o de quase 20 di\u00e1logos em momentos de fronteira) marcam as suas \u00e9pocas. E depois, h\u00e1 Vieira, que este ano celebramos e que assumiu o di\u00e1logo como constru\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, naturalmente tendo como raiz existencial o di\u00e1logo com o Deus vivo! Esse Deus-amor que sempre desinstala o que est\u00e1 instalado!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista ao P.e Alexandre Cruz<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-11704","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11704"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11704\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}