{"id":11796,"date":"2008-03-05T18:02:00","date_gmt":"2008-03-05T18:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11796"},"modified":"2008-03-05T18:02:00","modified_gmt":"2008-03-05T18:02:00","slug":"piscar-de-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/piscar-de-olhos\/","title":{"rendered":"Piscar de olhos"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 esta a forma de comunicar de Jean-Dominique Bauby. Tudo o que pensava e sentia era transmitido por um piscar de olhos. Se queria dizer \u201csim\u201d piscava uma vez; se pretendia dizer \u201cn\u00e3o\u201d, piscava duas vezes. E com que facilidade o fazia! E que serenidade transparecia do seu rosto! De uma enorme desgra\u00e7a, emergia uma maravilha!<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande cumplicidade natural entre o cora\u00e7\u00e3o e os olhos. A quadra popular expressa-o muito bem: \u201cO cora\u00e7\u00e3o mais os olhos, s\u00e3o dois amigos leais; quando o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 triste, logo os olhos d\u00e3o sinais\u201d. Esta cumplicidade funciona com normalidade. O olhar \u00e9 o espelho do cora\u00e7\u00e3o e da multiplicidade de afectos e emo\u00e7\u00f5es, de prefer\u00eancias e crit\u00e9rios, de op\u00e7\u00f5es e atitudes que d\u00e3o origem \u00e0 qualidade de um estilo de vida humanizado. <\/p>\n<p>Bauby era director da revista francesa \u201cElle\u201d; e aos 42 anos foi v\u00edtima de uma doen\u00e7a que o deixou intelectualmente l\u00facido, mas totalmente paralisado. Apenas um piscar de olhos lhe permitia expressar-se. Foi assim que escreveu o livro \u201cO escafandro e a borboleta\u201d, adaptado ao cinema com rara felicidade. A borboleta \u00e9 o s\u00edmbolo das mensagens que envia do escafandro \u2013 a pris\u00e3o em que se encontra. Em cada voo, vem um postal com um hino \u00e0 vida, o valor das pequenas coisas, a for\u00e7a da esperan\u00e7a, o brilho da luz e tantas outras maravilhas que, quando perdidas ou debilitadas, adquirem mais valor.<\/p>\n<p>Aquele piscar de olhos gravou-se na minha imagina\u00e7\u00e3o e deixou-me marcas profundas. Envolve a passagem da cegueira \u00e0 vis\u00e3o, do isolamento \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, do estar s\u00f3 \u00e0 companhia, do orientar a vida por crit\u00e9rios subjectivos a ter refer\u00eancias objectivas, humanas e crist\u00e3s, do deixar escapar o momento fugaz a agarrar o tempo como \u00fanica oportunidade de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Evangelho \u2013 que narra a cura do cego de nascen\u00e7a \u2013 apresenta esta passagem em forma de itiner\u00e1rio espiritual. Quem se prepara para o baptismo vai adquirindo um novo olhar iluminado por Jesus Cristo \u2013 a luz do mundo. E, depois de baptizado, sente a necessidade de aprender a ver com o cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas com os olhos. <\/p>\n<p>De facto, ver com o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 ir al\u00e9m das apar\u00eancias e descobrir a realidade, \u00e9 apreciar o belo e o bom, ainda que camuflados de laivos de fealdade e de maldade, \u00e9 despertar o melhor de cada consci\u00eancia, mesmo que misturado em desvios err\u00e1ticos not\u00f3rios, \u00e9 deixar o lodo e contemplar as estrelas, \u00e9 sentir o \u201cpiscar dos olhos\u201d de Quem aponta o caminho e respeita a liberdade, de Quem confia em n\u00f3s, mas exige responsabilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 esta a forma de comunicar de Jean-Dominique Bauby. Tudo o que pensava e sentia era transmitido por um piscar de olhos. Se queria dizer \u201csim\u201d piscava uma vez; se pretendia dizer \u201cn\u00e3o\u201d, piscava duas vezes. E com que facilidade o fazia! E que serenidade transparecia do seu rosto! De uma enorme desgra\u00e7a, emergia uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-11796","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11796"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11796\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}