{"id":11858,"date":"2008-03-12T16:43:00","date_gmt":"2008-03-12T16:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11858"},"modified":"2008-03-12T16:43:00","modified_gmt":"2008-03-12T16:43:00","slug":"a-morte-de-um-homem-bom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-morte-de-um-homem-bom\/","title":{"rendered":"A morte de um homem bom"},"content":{"rendered":"<p>Vivi, nas \u00faltimas semanas, a morte de um homem bom.<\/p>\n<p>Um homem cuja vida sempre fez jus \u00e0 determina\u00e7\u00e3o daquele hom\u00f3nimo general cartagin\u00eas para quem nem as montanhas mais altas da Pen\u00ednsula foram obst\u00e1culo a que atravessasse, de elefante, caminhos tortuosos em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 capital do grande imp\u00e9rio romano. Quando a decis\u00e3o estava tomada, as dificuldades n\u00e3o eram determinantes.<\/p>\n<p>Mas a morte acercou-se e, em poucos dias, levou de vencida uma luta, que ainda se pensou poder ser ganha a partir da margem de c\u00e1 da vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi assim; e a interroga\u00e7\u00e3o assomou \u00e0 janela da inquieta\u00e7\u00e3o: Porqu\u00ea? Onde vislumbrar-se a vontade de Deus na morte de um homem bom? <\/p>\n<p>Se \u00e9 certo o dizer do prosador para quem, ao ouvirmos o dobrar dos sinos, n\u00e3o devemos perguntar-nos sobre quem morreu, pois dobram por n\u00f3s, esta era uma morte em que cada um se reencontrava com os seus \u00faltimos limites. <\/p>\n<p>A d\u00favida ganhava contornos de inquieta\u00e7\u00e3o unida a todos os que, na amn\u00e9sia da hist\u00f3ria, se perderam para a mem\u00f3ria colectiva, apesar da sua inoc\u00eancia. E diante deles, a d\u00favida: como ler, na f\u00e9, a rela\u00e7\u00e3o entre Deus bom e a morte daquele que nada faz crer ter merecido a morte?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a d\u00favida mais crucial de toda a hist\u00f3ria da humanidade, a d\u00favida da teodiceia, esse lugar da teologia em que mal e bem se digladiam face \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o mais pungente, sob uma espada que continua a dividir crentes e n\u00e3o crentes, ora recusando que Deus possa estar na origem do mal, ora supondo tal fonte e crendo num deus cruel, ora recusando que Deus &#8211; porque n\u00e3o poderia supor-se a sua exist\u00eancia indiferente ao mal &#8211; possa sequer existir, pois, \u2018se o mal existe?!\u2019\u2026 <\/p>\n<p>Tais perguntas se acercar\u00e3o, seguramente, quando a vida n\u00e3o faz supor a morte. E onde est\u00e1 Deus, quando morre um seu inocente?<\/p>\n<p>A resposta que procuramos na f\u00e9 crist\u00e3 tem, muitas vezes, enfermado de um erro que temos de consciencializar em momentos em que a emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o turva o pensamento, para que, nessoutras horas, o pensamento ilumine a emo\u00e7\u00e3o. A resposta crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 a de uma corrente filos\u00f3fica que explicasse a morte e lhe atribu\u00edsse uma natureza volunt\u00e1ria: a morte como vontade de Deus, assim como o sofrimento, a dor, a cat\u00e1strofe. Esta tem sido, com extrema frequ\u00eancia, a linha de interpreta\u00e7\u00e3o que se tem seguido, devedora de um princ\u00edpio presente em certa fase da teologia do Antigo Testamento, que assentava na considera\u00e7\u00e3o de que o bem e o mal eram retribu\u00eddos, ao longo desta vida, de forma directa e conexa ao agir de um indiv\u00edduo ou dos seus antecedentes. Uma tal concep\u00e7\u00e3o \u00e9 frontalmente contestada, quer por Job, quer por Jo\u00e3o, na c\u00e9lebre passagem do cego de nascen\u00e7a que se lava na piscina de Silo\u00e9 (Jo 9,1-12). <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como interpretar a morte do inocente?<\/p>\n<p>Uma tal inquieta\u00e7\u00e3o desafia a que a f\u00e9 se centre, efectivamente, em Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 o Inocente por defini\u00e7\u00e3o. A Sua n\u00e3o \u00e9 uma morte justa. Muito menos \u00e9 uma morte desejada, como bem denunciam as suas manifesta\u00e7\u00f5es de interroga\u00e7\u00e3o, na hora \u00falti-ma. Mas a abertura que se sucede \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es permite iniciar-nos no caminho que nos leva pela m\u00e3o rumo ao sentido a conferir \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Esta, como os seus eternos companheiros &#8211; sofrimento, dor, cat\u00e1s-trofe\u2026 -, n\u00e3o pode ter origem em Deus. Bem o demonstra, ali\u00e1s, a concep\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 do mundo como criado, afirma\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia da diferen\u00e7a entre criatura e Criador, entre o finito e o Infinito, entre o mortal e o Imortal. Esta dever\u00e1 ser atribu\u00edda \u00e0 condi\u00e7\u00e3o limitada, criatural, n\u00e3o divina do mundo. <\/p>\n<p>Mas, e Deus onde cabe, em tal abordagem?<\/p>\n<p>Deus escolhe criar e continuar a criar. Mesmo sabendo que cria seres limitados, mas a limita\u00e7\u00e3o \u00e9 prefer\u00edvel a nada existir.<\/p>\n<p>Por outro lado, Deus revela, em Jesus Cristo, que a morte do Inocente por excel\u00eancia n\u00e3o se anula em si. Deus tira, da morte, vida. E esta \u00e9 a iniciativa que deve inaugurar um novo dinamismo nos crentes. Tal como Deus tira, da morte, vida, assim a cada um caber\u00e1, n\u00e3o justificar o mal, a morte, a cat\u00e1strofe, mas tudo fazer para que da morte ressuscite a vida. O sofrimento, neste sentido, n\u00e3o ser\u00e1, nunca, desejado, procurado. Seria atentat\u00f3rio de uma genu\u00edna vis\u00e3o criadora de Deus. Pelo contr\u00e1rio, face \u00e0 impossibilidade criatural de se viver sem finitude, sem limite, h\u00e1 que retirar do limite o ilimitado, da destrui\u00e7\u00e3o a renva\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma din\u00e2mica que dever\u00e1 percorrer todos os \u00e2mbitos da exist\u00eancia humana, pessoal e colectiva. A din\u00e2mica inaugurada pela f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o ser\u00e1 a da auto-satisfa\u00e7\u00e3o com o sofrimento, a morte, a dor, mas, sim a desafiadora atitude, activa e tamb\u00e9m intelectual, de procurar retirar de cada morte vida. E perceber que essa \u00e9 a din\u00e2mica de Deus: retirar, da morte, a vida, isto \u00e9, ressuscitar.<\/p>\n<p>E porque neste mundo o Reino j\u00e1 se manifesta, ainda que n\u00e3o de forma plena, esse \u00e9 o dever de todos os que descobriram, um dia, que assim se revela o Deus Criador: como aquele que n\u00e3o abandona o homem, as suas criaturas, pois a morte j\u00e1 n\u00e3o tem a derradeira palavra.<\/p>\n<p>Do nada, Deus retira o ser. Da morte retira a vida\u2026<\/p>\n<p>Obrigado, senhor An\u00edbal!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivi, nas \u00faltimas semanas, a morte de um homem bom. Um homem cuja vida sempre fez jus \u00e0 determina\u00e7\u00e3o daquele hom\u00f3nimo general cartagin\u00eas para quem nem as montanhas mais altas da Pen\u00ednsula foram obst\u00e1culo a que atravessasse, de elefante, caminhos tortuosos em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 capital do grande imp\u00e9rio romano. 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