{"id":12179,"date":"2008-04-30T16:24:00","date_gmt":"2008-04-30T16:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12179"},"modified":"2008-04-30T16:24:00","modified_gmt":"2008-04-30T16:24:00","slug":"o-estado-da-governacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-estado-da-governacao\/","title":{"rendered":"O estado da governa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica no nosso Pa\u00eds, entendida na perspectiva weberiana de produ\u00e7\u00e3o do poder, revela-se cada vez mais como uma mistura de pragmatismo despido de ideologia e de um oportunismo e tacticismo onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 lugar para a \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o admira, pois, que se ou\u00e7a e diga, com uma inacredit\u00e1vel desfa\u00e7atez, que promessas ou contratos entre eleitos e eleitores n\u00e3o passam de um pr\u00f3forma sem significado.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica deixou de ser a coer\u00eancia entre o ser, o pensar, o dizer e o fazer e passou a ser a sintonia ef\u00e9mera entre o parecer e o aparecer. A pol\u00edtica de Estado dissipa-se. O actual Governo j\u00e1 nem o disfar\u00e7a. A sociedade parece passiva, se n\u00e3o mesmo compreensiva. A diverg\u00eancia \u00e9 para o poder um desrespeito e uma afronta, enquanto a conson\u00e2ncia \u00e9 uma virtude recompensada. Os ziguezagues ao sabor das conveni\u00eancias e dos humores s\u00e3o, por demais, not\u00f3rios. <\/p>\n<p>Exalta-se o que \u00e9 privado, mas \u201cnacionalizam-se\u201d os sentimentos ou os afectos como agora \u00e9 moda dizer-se. Fala-se at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o de coes\u00e3o social, mas assiste-se a despudoradas desigualdades e a uma l\u00f3gica de fragmenta\u00e7\u00e3o social. Europe\u00edzam-se as desculpas do que corre mal, mas aportuguesam-se os impostos. Discursa-se pelos pobres, mas subsidia-se ou apoia-se quem n\u00e3o precisa. Elogia-se a solidariedade, mas premeia-se o ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>Fala-se sempre na fam\u00edlia, mas combate-se a sua soberania. Real\u00e7a-se a educa\u00e7\u00e3o dos direitos, mas menospreza-se a educa\u00e7\u00e3o do car\u00e1c-ter e da cultura da responsabilidade. Quer-se avaliar o professor, mas retira-se valor aos exames e limita-se a liberdade de escolher a escola.<\/p>\n<p>Enaltecem-se factos e interesses, mas desvalorizam-se princ\u00edpios e relativizam-se valores. Esfuma-se a respeitabilidade pelo esfor\u00e7o, sabedoria e experi\u00eancia, mas acentua-se o pr\u00e9mio da esperteza, do salamaleque e do arrivismo.<\/p>\n<p>Diabolizam-se receitas extraordin\u00e1rias para a correc\u00e7\u00e3o do d\u00e9fice das finan\u00e7as p\u00fablicas, mas acha-se correcto fazer aumentos do IVA por 3 ou 4 anos, que mais n\u00e3o s\u00e3o do que receitas extraordin\u00e1rias mais perniciosas para a economia. Aumentam-se impostos, quando dias antes se disse o contr\u00e1rio e diminui-se um imposto, quando dias antes tal era \u201cleviano e irrespons\u00e1vel\u201d. Elogia-se a redu\u00e7\u00e3o do d\u00e9fice p\u00fablico, mas ignora-se o maior e mais preocupante d\u00e9fice da nossa economia que \u00e9 o crescente endividamento externo.<\/p>\n<p>Aclama-se o direito da mulher a decidir sobre o seu corpo e a abortar uma vida nascente, mas acha-se que essa liberdade do corpo deve ser negada ou condicionada para um \u201cpiercing\u201d. Diz-se defender a fam\u00edlia e o casamento, mas quer-se transform\u00e1-lo num contrato onde o mais forte dita as regras, certos deveres s\u00e3o secundarizados, os filhos n\u00e3o contam e se permite um \u201csimplex\u201d para a sua dissolu\u00e7\u00e3o, onde \u00e9 mais r\u00e1pido e f\u00e1cil dissolver o casamento com uma mulher do que despedir a mulher-a-dias ou terminar com um contrato de arrendamento.<\/p>\n<p>Define-se o bom objectivo de reduzir o volume da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, mas fomenta-se o eldorado das consultadorias pagas a peso de ouro a meia d\u00fazia de privilegiados respeitosamente consonantes com o Governo. Proclama-se um choque tecnol\u00f3gico, mas aposta-se em sectores de fraca produtividade ou de bet\u00e3o intensivo. Prometem-se empregos e Novas Oportunidades, mas aumenta o desemprego ou o sub-emprego de licenciados e diplomados. Num dia faz-se o elogio p\u00fablico das parcerias p\u00fablico-privadas como nas obras p\u00fablicas, mas noutro volta-se atr\u00e1s perante a sentenciada perf\u00eddia das mesmas parcerias, como foi o caso dos hospitais. <\/p>\n<p>Diminui-se com estrondo medi\u00e1tico o pre\u00e7o de medicamentos, mas reduz-se a comparticipa\u00e7\u00e3o do Estado e retiram-se centenas de f\u00e1rmacos da lista de comparticipa\u00e7\u00e3o. Criam-se taxas moderadoras para o que o doente n\u00e3o escolhe (internamentos e cirurgias), mas faz-se o brilharete de reduzir 1,25 euro a taxa moderadora de consultas para certos estratos demagogicamente escolhidos. Usa-se a infla\u00e7\u00e3o prevista para negociar sal\u00e1rios, mas aplica-se a infla\u00e7\u00e3o passada para reduzir pens\u00f5es.<\/p>\n<p>Entra-se num del\u00edrio de impunidade do Fisco culminado com essa obra-prima de pol\u00edcia fiscal sobre os casamentos, ao mesmo tempo que o Estado se borrifa na \u00e9tica e na autoridade quando faz aplica\u00e7\u00f5es offshore. Usa-se o argumento do pre\u00e7o do petr\u00f3leo para que a gasolina aumente e a receita fiscal suba em flecha, mas esquece-se a deprecia\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar para que ele n\u00e3o aumente. Discursa-se pela bondade da poupan\u00e7a, mas alteram-se abusivamente as regras de jogo nos certificados de aforro.<\/p>\n<p>Proclama-se a protec\u00e7\u00e3o da natalidade, mas a Seguran\u00e7a Social paga licen\u00e7as por aborto volunt\u00e1rio. Fecham-se maternidades mas abrem-se unidades de IVG e convenciona-se com cl\u00ednicas de aborto. Retiram-se servi\u00e7os ao interior, mas investe-se em auto-estradas que trazem as pessoas mais depressa para o litoral.<\/p>\n<p>Estipula-se o fundamentalismo na proibi\u00e7\u00e3o de fumar, mas prop\u00f5e-se proceder \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o gratuita de seringas nas pris\u00f5es. Estimula-se o higienismo fundamentalista da ASAE para o pequeno neg\u00f3cio, mas abrem-se todas as portas \u00e0s empresas e empres\u00e1rios do regime.<\/p>\n<p>Louvam-se at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o o Banco de Portugal, o Tribunal de Contas, o Eurostat, o Provedor de Justi\u00e7a, o INE, a Procuradoria-geral da Rep\u00fablica, quando conv\u00e9m, para logo se diminuir o seu valor e se tornarem empecilhos, quando n\u00e3o conv\u00e9m. Celebra-se a centralidade do papel dos parceiros sociais, quando se alcan\u00e7a um acordo, mas consideram-se os mesm\u00edssimos parceiros empecilhos e for\u00e7as de in\u00e9rcia, quando se aventuram a contestar o Governo. Usa-se virtuosa e piamente qualquer sintonia com a Igreja, mas se esta critica o Governo, aqui d\u2019el rei pois que o Estado \u00e9 laico e n\u00e3o admite a interfer\u00eancia da religi\u00e3o, assunto privado de cada um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica no nosso Pa\u00eds, entendida na perspectiva weberiana de produ\u00e7\u00e3o do poder, revela-se cada vez mais como uma mistura de pragmatismo despido de ideologia e de um oportunismo e tacticismo onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 lugar para a \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o admira, pois, que se ou\u00e7a e diga, com uma inacredit\u00e1vel desfa\u00e7atez, que promessas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-12179","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12179"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12179\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}