{"id":12236,"date":"2008-05-07T14:49:00","date_gmt":"2008-05-07T14:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12236"},"modified":"2008-05-07T14:49:00","modified_gmt":"2008-05-07T14:49:00","slug":"homenagem-na-saudade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/homenagem-na-saudade\/","title":{"rendered":"Homenagem na saudade*"},"content":{"rendered":"<p>No centen\u00e1rio do nascimento de Mons. Raul Duarte Mira <!--more--> Neste dia em que exactamente ocorre o primeiro centen\u00e1rio do nascimento de Mons. Raul Duarte Mira na vila do Luso, a Diocese de Aveiro, de cujo clero ele foi um membro destacado, n\u00e3o podia deixar de estar presente nas respectivas comemora\u00e7\u00f5es, que esta Par\u00f3quia, consciente do m\u00e9rito do seu ilustre conterr\u00e2neo e do carinho com que se guarda a sua mem\u00f3ria, houve por bem e por justi\u00e7a promover e levar a efeito. Na impossibilidade de estar presente, o bispo de Aveiro, D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos \u2013 nesta ocasi\u00e3o ocupado em trabalhos inadi\u00e1veis \u2013 pediu-me que viesse aqui para o representar. Aceitei o encargo, embora sabendo de antem\u00e3o que o homenageado era merecedor de algo mais. Mas desempenho esta miss\u00e3o com grande aprazimento, porque, tendo sido seu disc\u00edpulo e mantendo por ele grande considera\u00e7\u00e3o e penhorada estima, em parte tenho tamb\u00e9m continuado as suas pegadas na mesma galeria de servi\u00e7o que ele, como vig\u00e1rio-geral, t\u00e3o h\u00e1bil e previdentemente desempenhou.<\/p>\n<p>Mons. Raul Duarte Mira, quando jovem, sonhou e abra\u00e7ou o belo ideal do sacerd\u00f3cio, sem quaisquer d\u00favidas. Decerto que, ent\u00e3o, Deus o atirava para um futuro cor de ouro; nessa altura, por\u00e9m, como acontece com todos n\u00f3s, desconhecia as encruzilhadas nos destinos da vida. Mas estava por tudo, confiado na presen\u00e7a e protec\u00e7\u00e3o de Deus, mesmo que n\u00f3s n\u00e3o tenhamos disso consci\u00eancia por mera distrac\u00e7\u00e3o. Por isso, em face do convite de algu\u00e9m a insinuar-lhe que deixasse o Semin\u00e1rio e que ingressasse na Universidade de Coimbra para cursar Medicina \u2013 n\u00e3o lhe faltariam as ajudas econ\u00f3micas \u2013 ele logo replicou negativamente, sem hesita\u00e7\u00e3o. Se aceitasse o convite, n\u00e3o seria feliz. \u00abQuero ser padre, com plena autonomia do meu esp\u00edrito\u00bb &#8211; foi a resposta pronta.<\/p>\n<p>As suas primeiras tarefas de pastor de almas decorreram no extremo sul da Diocese de Coimbra, \u00abnas margens belas do belo Z\u00eazere\u00bb &#8211; segundo ele haveria de evocar, encantado com as paisagens \u00edmpares que se lhe gravaram para sempre. Posteriormente, a partir de 1937, desempenhou o m\u00fanus pastoral nas terras da Ria e do Vouga, em Aveiro, onde se manteve at\u00e9 1957. Como logo se notou o invulgar valor do ent\u00e3o Padre Raul Mira, o Santo Padre Pio XII, uma vez informado, em 27 de Fevereiro de 1947 agraciou-o com a dignidade de Prelado de Honra, podendo usar o t\u00edtulo de Monsenhor.<\/p>\n<p>Em 4 de Abril de 1956, ocorreu o vig\u00e9simo quinto anivers\u00e1rio da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal de Mons. Raul Duarte Mira. Diante da proposta dos seus conterr\u00e2neos em lhe prestarem uma justa homenagem, ele op\u00f4s-se terminantemente, porque desejava passar o dia em ora\u00e7\u00e3o pessoal, sem distrac\u00e7\u00f5es que o perturbassem. Contudo, ao deslocar-se \u00e0 igreja matriz do Luso no dia 12 desse m\u00eas, quinta-feira, para celebrar a Eucaristia comemorativa do dia da Missa Nova, que fora no mesmo templo, ele teve a surpresa de um grupo de sacerdotes amigos que solenizaram a liturgia. Foi uma atitude inesperada e afectuosa, que comoveu o aniversariante e que ele, no futuro, havia de recordar com reconhecimento. H\u00e1 pequenas coisas que jamais esquecem.<\/p>\n<p>Passados meses, precisamente em 17 de Janeiro do ano seguinte, efectuou-se em Aveiro uma especial manifesta\u00e7\u00e3o de simpatia, n\u00e3o apenas para recordar a referida data festiva, mas tamb\u00e9m para lhe agradecer o exemplo do desprendimento sem condi\u00e7\u00f5es, da dedica\u00e7\u00e3o sem fronteiras, da caridade sem artificialismos, do trabalho em profundidade, da disponibilidade sempre pronta, do sacrif\u00edcio sem limites, que Mons. Raul Mira manifestara como sacerdote do presbit\u00e9rio aveirense, como p\u00e1roco da freguesia da Gl\u00f3ria, como vig\u00e1rio-geral da Diocese, como vice-reitor e reitor do Semin\u00e1rio de Santa Joana Princesa, como assistente religioso de movimentos da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e como professor de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa no Liceu de Aveiro. Houve a consci\u00eancia de que ele tamb\u00e9m era credor de muito da forma\u00e7\u00e3o dos novos sacerdotes \u2013 nos quais eu me incluo \u2013 pelo seu exemplo de vida, pela sua larga erudi\u00e7\u00e3o, pela sua invulgar cultura, pela sua delicadeza de maneiras, pelos seus atributos de educador, pela sua bondade natural e pela sua humildade sem dissimula\u00e7\u00f5es \u2013 tudo aliado \u00e0s virtudes crist\u00e3s e sacerdotais. Como era de pressupor, n\u00e3o foi esquecida, mas antes foi louvada a sua labuta constante e cansativa em prol da constru\u00e7\u00e3o do magn\u00edfico edif\u00edcio do novo Semin\u00e1rio que, projectado com rasgada vis\u00e3o, ficou a atestar a beleza nas suas inconfund\u00edveis linhas arquitect\u00f3nicas.  <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a homenagem significava outrossim uma despedida, porque, na linha das suas aspira\u00e7\u00f5es, manifestadas uma ou outra vez, Mons. Raul Mira oferecera-se para a pastoral mission\u00e1ria, acompanhando D. Francisco Nunes Teixeira, bispo de Quelimane, em Mo\u00e7ambique, para colaborar nos trabalhos da sua Diocese. Se Aveiro iria sentir na saudade a sua falta, Quelimane iria ganhar com o seu dinamismo zeloso e sol\u00edcito. <\/p>\n<p>Desta maneira, ap\u00f3s os dezoito anos de actividade na restaurada Diocese, no exerc\u00edcio dos mais altos cargos, deixando o exemplo de um dos seus maiores cabouqueiros, ao lado de D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal, seguir-se-ia um per\u00edodo de sete anos de pastoral em terras de Mo\u00e7ambique, durante os quais continuou a dar provas da sua conhecida generosidade e dos dotes da sua rica personalidade; a\u00ed permaneceu at\u00e9 1964, regressando neste ano \u00e0 sua terra natal, onde lhe foram confiados diversos trabalhos pastorais. Contudo, apesar de ausente, sem liga\u00e7\u00e3o directa \u00e0 comunidade crist\u00e3 de Aveiro, o bondoso sacerdote continuaria a sentir e a viver os seus problemas, contribuindo mesmo com os seus donativos, al\u00e9m dos seus conselhos e das suas ora\u00e7\u00f5es. A Diocese jamais esquecer\u00e1 a d\u00edvida de gratid\u00e3o a quem tanto trabalhou por ela, numa abnega\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel. <\/p>\n<p>Mons. Raul Duarte Mira faleceu h\u00e1 quase vinte anos. Do al\u00e9m perene de Deus, o seu exemplo continua a falar-nos e a ensinar-nos, qui\u00e7\u00e1 numa presen\u00e7a m\u00edstica de mem\u00f3ria, nost\u00e1lgica mas jubilosa. A celebra\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio do seu nascimento significa isto mesmo. <\/p>\n<p>Terminando esta minha mensagem, afirmo que efectivamente a sua vida desmentiu, sem qualquer sombra de d\u00favida, a amargurada confiss\u00e3o que Antero de Quental penosamente proferiu nos derradeiros anos: &#8211; \u00abCheguei \u00e0 morte e a vida n\u00e3o vivi.\u00bb Pelo contr\u00e1rio, ele poderia com verdade atestar, como S. Paulo (1Tim\u00f3teo, 4, 7-8): &#8211; \u00abLutei o melhor que pude pela causa do Evangelho de Cristo, percorri o meu caminho e guardei a f\u00e9; agora s\u00f3 me resta receber a merecida recompensa, que o Senhor, justo Juiz, me dar\u00e1 no dia marcado; e n\u00e3o apenas a mim, mas tamb\u00e9m a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda.\u00bb<\/p>\n<p>* Texto proferido no centen\u00e1rio do nascimento de Mons. Raul Duarte Mira, na par\u00f3quia do Luso, no dia 3 de Maio de 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No centen\u00e1rio do nascimento de Mons. 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