{"id":12382,"date":"2008-05-29T16:20:00","date_gmt":"2008-05-29T16:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12382"},"modified":"2008-05-29T16:20:00","modified_gmt":"2008-05-29T16:20:00","slug":"aprendo-a-rezar-com-os-pes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/aprendo-a-rezar-com-os-pes\/","title":{"rendered":"Aprendo a rezar com os p\u00e9s"},"content":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 TOLENTINO MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>Caminham em filas ao lado das estradas nacionais, por trilhos de terra batida, atravessando pequenos povoados que antes desconheciam, cruzando horas e horas a paisagem de giestas e sil\u00eancio. T\u00eam em portugu\u00eas um nome que deriva de uma forma latina: Per ager, que significa \u201catrav\u00e9s dos campos\u201d; ou Per eger, \u201cpara l\u00e1 das fronteiras\u201d. Definem-se, assim, por uma extraterritorialidade simb\u00f3lica que os faz, momentaneamente, viver sem cidade e sem morada. Experimentam uma esp\u00e9cie de nomadismo: n\u00e3o se demoram em parte alguma, comem ao sabor da pr\u00f3pria jornada, dormem aqui e ali. Num tempo ferozmente cioso da produ\u00e7\u00e3o e do consumo, eles s\u00e3o um elogio da frugalidade e do dom. Relativizam a pris\u00e3o de comodismos, necessidades, fatalismos e desculpas. E o seu cora\u00e7\u00e3o abre-se \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de um sentido maior. <\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil ter uma vida interior de qualidade, se nem vida se tem, no atropelo de um quotidiano que devora tudo. Na satura\u00e7\u00e3o das imagens que nos s\u00e3o impostas, vamos perdendo a capacidade de ver. No excesso de informa\u00e7\u00e3o e de palavra, esquecemos a arte de ouvir e comunicar vida. Damos por n\u00f3s, e h\u00e1, \u00e0 nossa volta, um deserto sem resposta que cresce. E quando nos voltamos para Deus, parece que n\u00e3o sabemos rezar. <\/p>\n<p>Estes peregrinos que tornam a encher as estradas de F\u00e1tima (mas tamb\u00e9m de Santiago, de Chartres, do Loreto\u2026) assinalam-nos o dever de buscar a estrada luminosa da pr\u00f3pria vida. J\u00e1 n\u00e3o separam a exist\u00eancia por gavetas estanques, mas o seu corpo e a sua alma respiram em un\u00edssono. A ora\u00e7\u00e3o torna-se natural como uma conversa, e as conversas enchem-se de profundidade, de aten\u00e7\u00e3o, de sorrisos. A parte mais importante dos quil\u00f3metros que percorrem n\u00e3o est\u00e1 em nenhum mapa: eles caminham para um centro invis\u00edvel onde pode acontecer o encontro e o renascimento. <\/p>\n<p>Queria dedicar este texto a um amigo que, neste m\u00eas de Maio, fez a sua primeira peregrina\u00e7\u00e3o. A meio do caminho enviou-me uma mensagem a dizer: \u00abAprendo a rezar com os p\u00e9s\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 TOLENTINO MENDON\u00c7A Caminham em filas ao lado das estradas nacionais, por trilhos de terra batida, atravessando pequenos povoados que antes desconheciam, cruzando horas e horas a paisagem de giestas e sil\u00eancio. T\u00eam em portugu\u00eas um nome que deriva de uma forma latina: Per ager, que significa \u201catrav\u00e9s dos campos\u201d; ou Per eger, \u201cpara l\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-12382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12382"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12382\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}