{"id":12479,"date":"2008-06-11T11:29:00","date_gmt":"2008-06-11T11:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12479"},"modified":"2008-06-11T11:29:00","modified_gmt":"2008-06-11T11:29:00","slug":"fundador-da-ami-apela-a-uma-cidadania-global-solidaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/fundador-da-ami-apela-a-uma-cidadania-global-solidaria\/","title":{"rendered":"Fundador da AMI apela a uma cidadania global solid\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Com apenas duas horas de sono, acabado de chegar da Tail\u00e2ndia, onde tentou, sem sucesso, obter a ordem de entrada de uma equipa da AMI na Birm\u00e2nia, Fernando Nobre, cansado mas n\u00e3o abatido, fala com desenvoltura dos problemas mundiais: a emigra\u00e7\u00e3o, as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, as cat\u00e1strofes humanit\u00e1rias, o cinismo dos poderes ocidentais, a escassez de alimentos, a sobreposi\u00e7\u00e3o da economia \u00e0 sociedade&#8230; Para criar um outro mundo melhor, \u00e9 necess\u00e1ria \u201cuma cidadania global solid\u00e1ria\u201d e, para isso, \u201cj\u00e1 n\u00e3o basta murmurar; \u00e9 preciso gritar\u201d.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico fundador da AMI (Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Internacional) fala com delicadeza, mas as suas palavras s\u00e3o gritos que convencem. A for\u00e7a da sua voz n\u00e3o vem do volume, suave, mas dos factos, esmagadores.<\/p>\n<p>Desde que fundou a AMI, em 1984, participou em mais de 200 miss\u00f5es humanit\u00e1rias em cerca de 70 pa\u00edses. \u00c9 frequentemente convidado para f\u00f3runs internacionais, onde tanto tenta contribuir para as solu\u00e7\u00f5es como lida com a hipocrisia de algumas inst\u00e2ncias e l\u00edderes. Viu popula\u00e7\u00f5es dizimadas por cat\u00e1strofes naturais ou, ainda pior, por outros seres humanos (como no Congo, ex-Zaire, em 1995). Acompanhou na morte dezenas, talvez centenas de pessoas (a come\u00e7ar pelo seu pai). Por isso, impressionando as duas ou tr\u00eas dezenas de pessoas que na tarde de quarta-feira, 4 de Junho, se juntaram na Universidade de Aveiro para o ouvir, afirma: \u201cSe estivermos conscientes, cinco minutos antes da morte, o corpo recebe a mensagem da morte. Nesses momentos \u00faltimos, espero que cada um de n\u00f3s tenha algu\u00e9m a quem agarrar a m\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea falar da morte, quando o tema do encontro diz que \u201c\u00e9 poss\u00edvel sonhar com um mundo melhor?\u201d. Talvez porque, sentindo-se no \u201cOutono da vida\u201d, como referiu (tem 57 anos), pensa na heran\u00e7a que deixa aos seus quatro filhos \u2013 e \u00e0 sociedade, acrescentamos. \u201cAos 20 anos, pensava que ia mudar o mundo. N\u00e3o mudei nada. Deitei umas gotinhas de \u00e1gua aqui e ali, que talvez tenham ajudado algumas pessoas. J\u00e1 me dou por satisfeito, se tiver mudado os meus filhos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSomos correspons\u00e1veis\u201d<\/p>\n<p>Fernando Nobre considera que n\u00e3o pode mudar o mundo, mas est\u00e1 convencido de que os cidad\u00e3os globais podem. \u201cOs problemas s\u00e3o globais, e s\u00f3 como cidad\u00e3os globais podemos enfrent\u00e1-los\u201d. Como? \u201cCom press\u00e3o, press\u00e3o e mais press\u00e3o\u201d. E adianta um exemplo: \u201cUm m\u00eas antes da Guerra do Iraque, participei numa manifesta\u00e7\u00e3o em Lisboa contra a guerra que se anunciava. \u00c9ramos 80 mil. Passados quinze dias, nova manifesta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 \u00e9ramos s\u00f3 15 mil. Se f\u00f4ssemos 800 mil, aquele senhor que agora est\u00e1 em Bruxelas n\u00e3o estaria na fotografia [refer\u00eancia a Dur\u00e3o Barroso e \u00e0 Cimeira das Lajes, com George W. Bush, Tony Blair e Aznar]. N\u00f3s somos correspons\u00e1veis. H\u00e1 temas sobre os quais devemos fazer quest\u00e3o em sermos ouvidos. Se n\u00e3o, depois pagamos\u201d. E conclui: \u201cS\u00f3 podemos sonhar com um mundo melhor, se n\u00e3o nos demitirmos das nossas responsabilidades\u201d. Noutro ponto da conversa, afirmou aquilo que poder\u00e1 ser considerado um \u00abprinc\u00edpio de responsabilidade e de solidariedade\u00bb: \u201cTemos de considerar as crian\u00e7as de todo o mundo como nossos putativos filhos. Melhor, somos seus putativos pais. Elas n\u00e3o s\u00e3o como baratas\u201d.<\/p>\n<p>Economia tentacular<\/p>\n<p>Porque a cidadania global passa pela consci\u00eancia sobre o mundo actual, Fernando Nobre criticou a sobreposi\u00e7\u00e3o da economia a todos os \u00e2mbitos da sociedade. \u201cTal como uma cadeira para ter o m\u00ednimo de estabilidade precisa de tr\u00eas p\u00e9s, o mundo precisa do Estado, da economia e da sociedade civil. Mas o que n\u00f3s vemos \u00e9 a for\u00e7a do mercado a sobrepor-se ao Estado e a avan\u00e7ar sobre a sociedade civil. As empresas at\u00e9 criam as suas pr\u00f3prias ONG! A sociedade civil est\u00e1 cada vez mais cercada\u201d.<\/p>\n<p>Para o fundador da AMI, ainda estamos no tempo de valorizar e aperfei\u00e7oar a democracia e n\u00e3o naquilo a que alguns j\u00e1 chamam de \u201cp\u00f3s-democracia\u201d. Se as pessoas, \u201cem troca de seguran\u00e7a, estiverem dispostas a abdicar de liberdades\u201d, fechando-se em condom\u00ednios, que tanto podem ser a habita\u00e7\u00e3o como uma comunidade de pa\u00edses, entraremos no \u201cplano inclinado\u201d do mundo pouco solid\u00e1rio e cada vez mais desigual.<\/p>\n<p>AMI n\u00e3o consegue entrar na Birm\u00e2nia<\/p>\n<p>Fernando Nobre esteve nove dias na Tail\u00e2ndia a tentar obter autoriza\u00e7\u00e3o de entrada em Myanmar (Birm\u00e2nia), para uma equipa da AMI, mas n\u00e3o conseguiu. <\/p>\n<p>O governo militar de Myanmar exigiu que a AMI fizesse uma lista do material que pretendia levar e uma carta a oferecer os produtos. Fernando Nobre n\u00e3o aceitou as condi\u00e7\u00f5es, porque queria que a equipa da AMI garantisse a entrega dos alimentos e do material m\u00e9dico \u00e0s popula\u00e7\u00f5es v\u00edtimas do ciclone Nargis (no dia 6 de Maio), acompanhando os cami\u00f5es ou o avi\u00e3o. \u201cSabia que, logo na fronteira, a ajuda seria entregue aos militares. N\u00e3o estou para que a ajuda humanit\u00e1ria ajude a ditadura\u201d, afirmou. A solu\u00e7\u00e3o passou por \u201centregar a ajuda atrav\u00e9s da Igreja Cat\u00f3lica\u201d. Foi a primeira vez, em trinta anos de actividade (come\u00e7ou em 1979, ligado aos M\u00e9dicos Sem Fronteiras), que se viu impedido de entrar num pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cO Ocidente perdeu <\/p>\n<p>a autoridade moral\u201d<\/p>\n<p>Embora a recusa da entrada na Birm\u00e2nia se deva \u00e0 obstina\u00e7\u00e3o do regime militar, Fernando Nobre considera que a ac\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias est\u00e1 a ser prejudicada pela perda de autoridade moral do Ocidente. Porqu\u00ea? Porque foi invocado o direito de inger\u00eancia humanit\u00e1ria para fazer a Guerra do Iraque. Ora, as raz\u00f5es para essa guerra foram \u201cfabricadas, falsas e falaciosas\u201d. Mais: que autoridade pode ter o Ocidente com pr\u00e1ticas como os voos da CIA (com prisioneiros), a pris\u00e3o de Guant\u00e1namo e os barcos-pris\u00f5es?<\/p>\n<p>\u201cAs nossas democracias andam por caminhos que n\u00e3o s\u00e3o nada abonat\u00f3rios\u201d, afirmou. Os blocos regionais, como a ASEAN (pa\u00edses asi\u00e1ticos), em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Birm\u00e2nia, ou a \u00c1frica do Sul, em rela\u00e7\u00e3o ao Zimbabu\u00e9, sentem-se fortes para recusar a ajuda ocidental. A ajuda \u201cest\u00e1 manietada\u201d. \u00c9 a primeira vez que tal acontece.<\/p>\n<p>A emigra\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>\u00e9 um desafio global<\/p>\n<p>Fernando Nobre afirmou que \u201cest\u00e1 tudo ligado\u201d \u2013 subida dos pre\u00e7os, altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, escassez alimentar \u2013, mas destacou a emigra\u00e7\u00e3o como um dos principais desafios globais. Notando que na escola da Lous\u00e3, em que estivera ao in\u00edcio da tarde, encontrara crian\u00e7as de 21 nacionalidades, afirmou que at\u00e9 2020 o fen\u00f3meno migrat\u00f3rio aumentar\u00e1 exponencialmente. \u00c9 inevit\u00e1vel. \u201cUma pessoa que emigra da \u00c1frica para a Europa significa o sustento da fam\u00edlia que fica em \u00c1frica\u201d, disse. Para os pescadores africanos, compensa mais transportar pessoas para a Europa (calculando-se que tenham naufragado 20 mil emigrantes em 2006) do que pescar. <\/p>\n<p>Se nada se faz (e a resposta n\u00e3o \u00e9 \u201cfechar fronteiras\u201d, mas solidariedade e desenvolvimento), aumentam os partidos \u201cxen\u00f3fobos, racistas e demagogos que podem acabar com a democracia\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com apenas duas horas de sono, acabado de chegar da Tail\u00e2ndia, onde tentou, sem sucesso, obter a ordem de entrada de uma equipa da AMI na Birm\u00e2nia, Fernando Nobre, cansado mas n\u00e3o abatido, fala com desenvoltura dos problemas mundiais: a emigra\u00e7\u00e3o, as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, as cat\u00e1strofes humanit\u00e1rias, o cinismo dos poderes ocidentais, a escassez de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-12479","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12479"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12479\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}