{"id":12498,"date":"2008-06-11T15:03:00","date_gmt":"2008-06-11T15:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12498"},"modified":"2008-06-11T15:03:00","modified_gmt":"2008-06-11T15:03:00","slug":"clausura-moeda-com-duas-caras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/clausura-moeda-com-duas-caras\/","title":{"rendered":"Clausura &#8211; moeda com duas caras"},"content":{"rendered":"<p>CARMELITAS DESCAL\u00c7AS DO CARMELO DE CRISTO REDENTOR<\/p>\n<p>Um destes dias recebemos no convento a visita duma Senhora acompanhada do seu filho que, por aqueles dias ia fazer a sua primeira comunh\u00e3o. A crian\u00e7a insistiu com a m\u00e3e para que pedisse \u00e0 \u201cchefe\u201d para deixar as \u201csenhoras\u201d irem \u00e0 sua festa. A m\u00e3e perguntou-lhe: \u201cMas quem \u00e9 a chefe?\u201d Ao que a crian\u00e7a ter\u00e1 respondido: \u201c\u00c9 a que anda \u00e0 solta\u201d. <\/p>\n<p>Este epis\u00f3dio cheio de inocente humor retrata bem o que muitos pensam acerca da Clausura. O racioc\u00ednio \u00e9 simples: umas grades, as Irm\u00e3s atr\u00e1s delas, logo as Irm\u00e3s est\u00e3o presas\u2026 Ser\u00e1 que as Irm\u00e3s est\u00e3o presas atr\u00e1s das grades? N\u00e3o ser\u00e1 antes que encontraram o caminho para a plenitude da liberdade atr\u00e1s delas? Deixo isto \u00e0 considera\u00e7\u00e3o do amigo leitor\u2026<\/p>\n<p>Dito em poucas palavras e como quem sabe o texto de cor, direi que a clausura \u00e9 essa estrutura externa com que a Igreja demarca a vida das monjas contemplativas e que se encontra recolhida nos documentos conciliares como Perfectae Caritatis, o Direito Can\u00f3nico e recentemente no documento Verbi Sponsa. Neste documento, afirma-se que: \u00aba clausura constitui uma maneira particular de estar com o Senhor, de partilhar o \u00abaniquilamento de Cristo, atrav\u00e9s de uma pobreza radical que se exprime na ren\u00fancia n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s coisas, mas tamb\u00e9m ao espa\u00e7o, aos contactos, a tantos bens da cria\u00e7\u00e3o\u00bb, unindo-se ao fecundo sil\u00eancio do Verbo na cruz. Assim se compreende que \u00abo retirar-se do mundo para se dedicar, na solid\u00e3o, a uma vida mais intensa de ora\u00e7\u00e3o seja apenas uma forma particular de viver e exprimir o mist\u00e9rio pascal de Cristo\u00bb, um verdadeiro encontro com o Senhor Ressuscitado, num itiner\u00e1rio de cont\u00ednua ascens\u00e3o para a casa do Pai\u00bb (VS 3).<\/p>\n<p>Assim falamos da clausura desde o direito que rege a Igreja, com as suas normas, ou desde a Teologia, a ci\u00eancia que orienta, desde a sabedoria da f\u00e9, as atitudes dos crist\u00e3os. Escritos com muitos matizes n\u00e3o faltam. Mas acredito que o leitor continue a perguntar-se: para isto s\u00e3o necess\u00e1rias as grades?<\/p>\n<p>A clausura \u00e9 como uma \u201cmoeda com duas caras\u201d, a que \u00e9 vista desde fora, isto \u00e9, a que todos v\u00eaem, e a que \u00e9 vista desde dentro, isto \u00e9, a que vivemos n\u00f3s que estamos dentro do Carmelo. \u00c9 como carmelita, portanto desde de dentro, que vou tentar dizer-lhe onde se encontra o sentido da clausura e o que contribui para que as Irm\u00e3s encerradas no convento, por op\u00e7\u00e3o de vida, estejam mais pr\u00f3ximas ou mais afastadas da vida de todos.<\/p>\n<p>N\u00f3s, as Carmelitas, aprendemos a olhar a Clausura com Santa Teresa de Jesus. Ela usa a imagem bel\u00edssima da metamorfose do bicho-da-seda, para explicar \u00e0s suas Irm\u00e3s o que \u00e9 a clausura das carmelitas. Para a Santa, cada um de n\u00f3s \u00e9 um bicho-da-seda, com os nossos pr\u00f3prios ego\u00edsmos. No trabalho que o bicho-da-seda faz para ir construindo \u00e0 sua volta o casulo, Teresa v\u00ea o esfor\u00e7o pessoal para nos libertarmos de tais ego\u00edsmos e assumirmos atitudes crist\u00e3s. Desta forma, torna-se f\u00e1cil de entender que a clausura \u00e9 para a carmelita o que a constru\u00e7\u00e3o do casulo \u00e9 para o bicho-da-seda. \u00c9 a\u00ed que o bicho feio e peludo se converte numa borboleta branca muito bonita!<\/p>\n<p>O construir o casulo, que \u00e9 o mesmo que fabricar a seda, \u00e9 capacidade e direito de todos, contudo, n\u00f3s carmelitas, que dedicamos toda a nossa vida \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, temos formas materiais e est\u00e1veis que expressam o nosso casulo. Formas que, com o passar do tempo, podem perder o sentido, se o bichinho n\u00e3o se transforma numa linda borboleta, branca e graciosa! Santa Teresa, com a sua determina\u00e7\u00e3o, estimula-nos a n\u00e3o perder tempo: \u201ceia, pois, filhas minhas!, dai-vos pressa a fazer este trabalho de nos libertar-mos das coisas da terra\u201d\u2026 Na verdade, de nada vale a clausura se dentro dela as pessoas n\u00e3o trabalham na sua pr\u00f3pria clausura, numa tens\u00e3o constante para alcan\u00e7ar a escala de valores que a pr\u00f3pria Santa nos prop\u00f5e: a generosidade, a liberdade, a humildade e a alegria na austeridade.<\/p>\n<p>A clausura no abstracto n\u00e3o existe. O que existe s\u00e3o homens e mulheres que a vivem, a entendem e fazem das suas vidas express\u00e3o concreta da clausura. O maior paradoxo da clausura \u00e9 que sendo um lugar fechado, e no nosso caso com grades, \u201cabre\u201d a uns horizontes infinitos, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o das mais belas paisagens, imposs\u00edveis de serem vistas fora dela.<\/p>\n<p>A clausura \u00e9 ainda o espa\u00e7o fechado-aberto para a conviv\u00eancia das Irm\u00e3s, que est\u00e3o diariamente em rela\u00e7\u00e3o, o que exige que desenvolvam todas as suas capacidades individuais e as ponham ao servi\u00e7o da comunh\u00e3o. Uma conviv\u00eancia que, quando \u00e9 humanizadora e est\u00e1 repleta de f\u00e9, esperan\u00e7a e amor, \u00e9 capaz de saltar fora dos muros do convento e comunicar a vida e a alegria que se vive dentro.<\/p>\n<p>Na realidade, a clausura \u00e9 como o \u201cfechar\u201d a porta de casa, quando a fam\u00edlia se re\u00fane e se cria o espa\u00e7o de intimidade no lar. O mais importante \u00e9 que no dia seguinte, ao sair de casa, os membros da fam\u00edlia levem a todos aqueles que encontrarem a riqueza divino-humana que a vida familiar comporta. N\u00f3s, no Carmelo, n\u00e3o sairemos de casa, \u00e9 verdade, mas estamos chamadas a acolher todos os que nos v\u00eam visitar e umas \u00e0s outras, de tal maneira que se realizem em n\u00f3s as palavras da Santa Madre Teresa: \u201cMinhas filhas, quanto mais santas, mais convers\u00e1veis, af\u00e1veis no trato com vossas irm\u00e3s. E assim, tudo o que possais sem ofensa de Deus, procurai com todas as pessoas que falarem convosco que amem a vossa conversa e desejem a vossa amizade\u201d. <\/p>\n<p>Definir o sentido de clausura e falar das suas formas concretas de express\u00e3o passa pelo cora\u00e7\u00e3o, lugar onde cada um decide dar tudo e dar-se a si mesmo ou reservar-se para si mesmo, viver no esfor\u00e7o de ser outro Cristo ou passar pela vida como se nada fosse. <\/p>\n<p>N\u00f3s estamos em caminho e pedimos-lhe perd\u00e3o, caro amigo leitor, se n\u00e3o chegarmos a ser a bonita borboleta branca. Contudo apraz-me dizer-lhe que nas nossas clausuras, que tamb\u00e9m s\u00e3o as suas, porque pertencem \u00e0 Igreja, se encontram mulheres de estatura \u00fanica, mulheres como: Teresa de Jesus, Teresinha do Menino Jesus, Edith Stein, Isabel da Trindade, Maravilhas de Jesus, C\u00e2ndida da Eucaristia, entre outras, junto das quais e com as quais esperamos achar gra\u00e7a aos olhos de Deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARMELITAS DESCAL\u00c7AS DO CARMELO DE CRISTO REDENTOR Um destes dias recebemos no convento a visita duma Senhora acompanhada do seu filho que, por aqueles dias ia fazer a sua primeira comunh\u00e3o. A crian\u00e7a insistiu com a m\u00e3e para que pedisse \u00e0 \u201cchefe\u201d para deixar as \u201csenhoras\u201d irem \u00e0 sua festa. 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