{"id":1250,"date":"2010-04-21T15:40:00","date_gmt":"2010-04-21T15:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1250"},"modified":"2010-04-21T15:40:00","modified_gmt":"2010-04-21T15:40:00","slug":"mais-das-vozes-do-que-as-nozes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/mais-das-vozes-do-que-as-nozes\/","title":{"rendered":"Mais das vozes do que as nozes"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e0rvore de Zaqueu <!--more--> 4.\u00ba DOMINGO DA P\u00c1SCOA &#8211; Ano C<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nas feiras que encontramos vozes assim: onde o neg\u00f3cio pode depender sobretudo de berrar mais alto do que os outros e de os injuriar como sendo estes os aldrab\u00f5es. Ai dos concorrentes desconhecidos! Ent\u00e3o, forma-se um coro das vozes \u00abda terra\u00bb, a atac\u00e1-los com tanto maior ferocidade quanto, de facto, melhor for o produto do rec\u00e9m-chegado. E assim se pode fazer dinheiro a vender aquilo que se n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>As vozes que n\u00e3o t\u00eam nozes s\u00e3o tanto mais perigosas quanto mais se escondem por tr\u00e1s de altos cargos, apregoando sabedoria e honestidade que talvez nem sequer se tenham esfor\u00e7ado por adquirir (no fundo, reconhecem ser este um produto do mais alto valor). Tal como os falsos pastores, imitam a voz do verdadeiro, trazendo a confus\u00e3o e perdi\u00e7\u00e3o para o rebanho.<\/p>\n<p>A este problema se refere a 1\u00aa leitura. \u00c9 um comportamento tipicamente humano, que se encontra em todos os lugares e esferas sociais, tornando-se muito mais pernicioso na esfera mais delicada \u2013 a religiosa (opondo civiliza\u00e7\u00f5es inteiras). O Antigo Testamento defronta-se frequentemente com a quest\u00e3o dos \u00abfalsos profetas\u00bb (do que \u00e9 magn\u00edfico exemplo o cap\u00edtulo 23 de Jeremias). S. Jo\u00e3o tinha raz\u00f5es de sobra para sublinhar que Jesus era o pastor verdadeiro, dedicando a esse tema todo o cap\u00edtulo 10 do seu evangelho (onde se l\u00ea como a par\u00e1bola do bom pastor provocou divis\u00f5es entre os judeus e forte oposi\u00e7\u00e3o a Jesus).<\/p>\n<p>N\u00e3o agradar\u00e1 muito aos ouvidos modernos esta hist\u00f3ria de sermos comparados a ovelhas e muito menos a um rebanho. Mas na tradi\u00e7\u00e3o dos povos b\u00edblicos, a dedica\u00e7\u00e3o do pastor ao rebanho \u00e9 a imagem cl\u00e1ssica das rela\u00e7\u00f5es entre os chefes e o resto do povo. Os reis eram \u00abpastores\u00bb, cujas qualidades pessoais e boa escolha de colaboradores lhes possibilitavam um vasto leque de informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos, para harmonizar a diversidade e choques de interesses de todo um povo. Esta imagem facilmente se aplicava, na esfera religiosa, ao \u00abcuidado\u00bb de Deus pelos seres humanos.<\/p>\n<p>E a ovelha era a principal propriedade do povo israelita, pelos m\u00faltiplos benef\u00edcios que dela tiravam, e por ser mansa e d\u00f3cil ao pastor. Era o animal escolhido para sacrificar em rituais religiosos (lembremos a import\u00e2ncia do \u00abcordeiro pascal\u00bb, imagem que o Livro do Apocalipse tanto explora).<\/p>\n<p>No evangelho e na 1\u00aa leitura, o verdadeiro pastor d\u00e1 \u00aba vida eterna\u00bb. E que h\u00e1 de mais central do que a vida? <\/p>\n<p>Na cultura hebraica, n\u00e3o existe o nosso conceito de \u00abvida\u00bb, mas somente o de seres \u00abvivos\u00bb, designando caracter\u00edsticas bem concretas, como respira\u00e7\u00e3o \u2013  o \u00abesp\u00edrito\u00bb ou sopro \u00e9 que d\u00e1 vida e gera movimento (ao n\u00edvel f\u00edsico e espiritual). Viver \u00e9 conhecer, amar, trabalhar, gozar, ter sa\u00fade, alegria, sucesso\u2026 \u00e9 ser feliz. Esta no\u00e7\u00e3o t\u00e3o concreta de vida est\u00e1 na base da distorcida imagem de \u00abressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb como restabelecimento de todas as caracter\u00edsticas do corpo que conhecemos. Sendo o bem mais precioso, a vida \u00e9 a maior recompensa de Deus, e a morte o maior castigo. Assim, Vida aparece ligada a Bem e Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a verifica\u00e7\u00e3o de que fazer o bem n\u00e3o nos livra do mal e da morte, e de que \u00abos maus\u00bb \u00e9 que vivem bem (Salmo 73,2-14), levou ao aprofundamento do tema. S\u00f3 Deus \u00e9 \u00abperfeitamente vivo\u00bb \u2013 e por isso tem que existir, mesmo para os seres humanos, uma forma mais alta de vida: a vida eterna, a vida por excel\u00eancia \u2013 mas a ideia de imortalidade s\u00f3 aparece claramente no Livro da Sabedoria (2;3,1-12) e no Livro 2.\u00ba dos Macabeus (7,9-14).<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o renunciar a viver este mundo, saindo dele como quem sai de um barco a afundar-se. No Novo Testamento, a vida (eterna) \u00e9 a forma perfeita do Reino de Deus, e para \u00abentrar na vida\u00bb \u00e9 imprescind\u00edvel lutar neste mundo pela justi\u00e7a (ver especialmente Mateus 19,16-29 e Lucas 10,25-28). Esta exig\u00eancia j\u00e1 \u00e9 bem manifesta nos profetas do Antigo Testamento e na \u00abescola de 40 anos\u00bb do povo israelita no deserto.<\/p>\n<p>Jesus Cristo d\u00e1 essa vida, como ter\u00e1 dito \u00e0 samaritana (Jo\u00e3o 4,14). \u00c9 exemplo de como a \u00abvida eterna\u00bb enobrece e fortifica a nossa luta. Os seus disc\u00edpulos, at\u00e9 hoje, reconheceram que valia a pena dar \u00abmuitas vozes\u00bb \u00e0 sua mensagem, formando uma verdadeira polifonia \u00e0 volta do tema central, apontando para o que vale mais a pena, para um centro que justifique a exist\u00eancia humana. <\/p>\n<p>\u00abNoz\u00bb e \u00abn\u00facleo\u00bb prov\u00eam do mesmo radical, com o sentido geral de solidez e centralidade. Compete a quem lan\u00e7a a voz reflectir honestamente se est\u00e1 mesmo interessado numa \u00abnoz\u00bb s\u00f3lida \u2013 como tamb\u00e9m compete \u00e0s \u00abovelhas\u00bb (evangelho) saber reconhecer a solidez de cada uma das vozes. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e0rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-1250","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1250","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1250"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1250\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}