{"id":12558,"date":"2008-06-19T14:45:00","date_gmt":"2008-06-19T14:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12558"},"modified":"2008-06-19T14:45:00","modified_gmt":"2008-06-19T14:45:00","slug":"ano-paulino-uma-proposta-pastoral-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ano-paulino-uma-proposta-pastoral-2\/","title":{"rendered":"Ano Paulino, uma proposta pastoral"},"content":{"rendered":"<p>Segunda parte da Nota Pastoral dos bispos portugueses sobre o Ano Paulino<\/p>\n<p>[Par\u00e1grafo 1]<\/p>\n<p>Toda a vida de Paulo se situa depois deste encontro [na estrada de Damasco], vive dele, em plena alegria (cf. Fil. 1,21; Gal. 2,20), o mais \u00e9 lixo (cf. Fil. 3,8); \u201cAi de mim se n\u00e3o anunciar o Evangelho!\u201d (1Cor. 9,16) \u2013 e d\u00e1 testemunho dos efeitos desse encontro: \u201cO Reino de Deus (\u2026) \u00e9 justi\u00e7a e paz e alegria no Esp\u00edrito Santo\u201d (Rom. 14,17); por isso, Paulo esquece o que fica para tr\u00e1s e atira-se para as coisas que est\u00e3o \u00e0 sua frente (cf. Fil. 3,13). N\u00e3o admira que inicie as suas Cartas com a sauda\u00e7\u00e3o nova da gra\u00e7a e da paz de Deus, Nosso Pai, e do Senhor Nosso, Jesus Cristo, e as termine sempre com a gra\u00e7a do Senhor Nosso, Jesus Cristo\u2026(1) E o autor do Livro dos Actos dos Ap\u00f3stolos fecha o Livro deixando Paulo em Roma (2)\u201ca anunciar o Reino de Deus e a ensinar o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo\u201d (Act. 28,31). <\/p>\n<p>Esta fidelidade de Paulo a Jesus Cristo sugerir-nos-\u00e1 caminhos de convers\u00e3o para todos os evangelizadores, tamb\u00e9m eles chamados a deixarem-se possuir por Jesus Cristo para poderem anunciar o Seu Evangelho.<\/p>\n<p>4. O alargamento do an\u00fancio do Evangelho aos descrentes e aos que abandonaram a vida crist\u00e3 sup\u00f5e evangelizadores com as caracter\u00edsticas exigidas pela nova evangeliza\u00e7\u00e3o. No dizer de Jo\u00e3o Paulo II, esses evangelizadores t\u00eam de ser possu\u00eddos de um novo ardor, porque o seu testemunho \u00e9 um primeiro an\u00fancio de natureza querigm\u00e1tica (3). As Igrejas de Portugal necessitam de repensar estes dois elementos da nova evangeliza\u00e7\u00e3o (4). \u00c9 preciso identificar, preparar e enviar esses evangelizadores. Na pedagogia e nas atitudes, a primeira evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente da catequese. E muitas crian\u00e7as, jovens e adultos, que inserimos nas nossas catequeses organizadas, precisavam desse an\u00fancio querigm\u00e1tico. A generalidade da juventude, as fam\u00edlias, os leigos chamados a evangelizar o meio em que est\u00e3o inseridos, urgem o refor\u00e7o de uma pastoral querigm\u00e1tica.<\/p>\n<p>O Ano Paulino pode ajudar-nos a sistematizar essa pastoral (5) espec\u00edfica, porque Paulo foi o maior evangelizador de todos os tempos. Ele continua a ser exemplo inspirador do ardor da evangeliza\u00e7\u00e3o e da natureza espec\u00edfica do an\u00fancio querigm\u00e1tico.<\/p>\n<p>[Par\u00e1grafo 5]<\/p>\n<p>Um novo ardor!<\/p>\n<p>Evangelizar n\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia e n\u00e3o se reduz a um programa: \u00e9 uma paix\u00e3o de amor por Jesus Cristo e pelos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Com Paulo, o ardor da evangeliza\u00e7\u00e3o brota da sua paix\u00e3o por Jesus Cristo. O encontro com Cristo na estrada de Damasco mudou a sua vida. Aos Filipenses (6)confessa ter sido completamente apanhado por Jesus Cristo: \u201cpara o conhecer na for\u00e7a da sua ressurrei\u00e7\u00e3o e na comunh\u00e3o com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurrei\u00e7\u00e3o de entre os mortos\u201d (Fil 3,10-11). A sua vida reduz-se \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o com Cristo: \u201cPara mim viver \u00e9 Cristo\u201d (Fil 1,21; cf. Gal 2,20); tudo o mais \u00e9 lixo (cf. Fil 3,8). Esta identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 com a P\u00e1scoa de Jesus, na Sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00f3s pregamos um Cristo crucificado, esc\u00e2ndalo para os judeus e loucura para os gentios\u201d, mas para os que s\u00e3o chamados [&#8230;], Ele \u00e9 poder de Deus e sabedoria de Deus\u201d (1Co 1,23-24). <\/p>\n<p>Esta paix\u00e3o por Jesus Cristo e a certeza de que na Sua Cruz se decidiu o novo destino humano geram em Paulo a urg\u00eancia da evangeliza\u00e7\u00e3o, em que ele se sente como cooperador de Deus (cf. 1Co 3,9). \u201cAi de mim, se eu n\u00e3o evangelizar!\u201d (1Co 9,16). A evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o seu futuro, o sentido do tempo que lhe resta para viver, o que o leva a relativizar o seu passado (cf. Fil 3,13). <\/p>\n<p>O an\u00fancio querigm\u00e1tico<\/p>\n<p>Paulo distingue a prega\u00e7\u00e3o querigm\u00e1tica, em que faz o an\u00fancio de Jesus Cristo, da catequese (7) \u00e0s Igrejas, para o aprofundamento da identifica\u00e7\u00e3o com Cristo.<\/p>\n<p>O primeiro an\u00fancio \u00e9 de Jesus Cristo salvador, morto e ressuscita-do, mas com a particularidade de se adaptar aos destinat\u00e1rios. Aos judeus (8) ele anuncia Jesus como o Messias esperado e a plena realiza\u00e7\u00e3o de todas as Escrituras (cf. Act 9,20.22; 13,16ss). Aos gentios (9)anuncia Jesus ressuscitado com desafio \u00e0 convers\u00e3o \u201cdos \u00eddolos a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro\u201d (1Tes 1,9). Este an\u00fancio aos gentios \u00e9 o grande desafio das suas viagens apost\u00f3licas, embora nunca descurando o an\u00fancio aos judeus. Ousou mesmo, sem recusar o di\u00e1logo, enfrentar o mundo da cultura helenista (10), marcada por v\u00e1rias sabedorias e pelo sincretismo (11) filos\u00f3fico e religioso. Foi talvez a sua prega\u00e7\u00e3o no Are\u00f3pago (12) de Atenas que o le-vou a convencer-se mais de que s\u00f3 com as sabedorias humanas n\u00e3o se chega \u00e0 sabedoria da Cruz (cf. Act 17,16ss).<\/p>\n<p>Neste Ano Paulino, temos de pressentir por que caminhos nos conduziria Paulo, se partilhasse hoje, connosco, a miss\u00e3o evangelizadora da Igreja. <\/p>\n<p>[Par\u00e1grafo 10]<\/p>\n<p>A exig\u00eancia do percurso catequ\u00e9tico<\/p>\n<p>5. Paulo tem a consci\u00eancia viva de que o an\u00fancio de Jesus Cristo, que leva \u00e0 f\u00e9, introduz no caminho da salva\u00e7\u00e3o ou da justifica\u00e7\u00e3o (13), conceito que valoriza, pois sente que a salva\u00e7\u00e3o humana rep\u00f5e o justo relacionamento com Deus, em Cristo, que \u00e9 justi\u00e7a de Deus (cf. 1Co 1,30; 2Co 5,21). Trata-se da coer\u00eancia da f\u00e9, ou da \u201cobedi\u00eancia da f\u00e9\u201d, como gosta de lhe chamar (Rom 1,5). Compromete a vida toda, durante toda a vida, exprime-se na \u201cobra da f\u00e9\u201d (1 Tes 1,3), toca o seu auge na viv\u00eancia da caridade (cf. Gal 5,6), projecta-nos, na esperan\u00e7a, para a plenitude da vida eterna (cf Rom 5,1-11; 8,18-39). N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 compreens\u00e3o, \u00e9, sobretudo, entrega e coer\u00eancia de vida, \u00e9 identifica\u00e7\u00e3o com Cristo, na Sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 o grande acontecimento da vida do crist\u00e3o. \u00c9 que, no Evangelho, \u201c\u00e9 revelada a justi\u00e7a de Deus, que vem da f\u00e9 e conduz \u00e0 f\u00e9, conforme est\u00e1 escrito: \u00abo justo viver\u00e1 da f\u00e9\u00bb (Rom 1,17). A f\u00e9 reaviva-se com a escuta permanente da Palavra de Deus, o Evangelho de Jesus Cristo. Ela \u00e9 \u201cPalavra de vida\u201d (Fil 2,16), o crescimento da Igreja identifica-se com a vitalidade da Palavra (cf. Act 19,20).<\/p>\n<p>O caminho catequ\u00e9tico leva, sobretudo, \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o com Cristo. O baptismo (14), sacramento pelo qual os que acreditaram em Jesus Cristo, atrav\u00e9s da Palavra, entram na comunidade dos disc\u00edpulos, para caminharem em Igreja, consiste em morrer com Cristo, para com Ele ressuscitar (cf. Rom 6,3-11). Este morrer com Cristo, o sepultar o homem velho, mostra bem a convic\u00e7\u00e3o de Paulo de que o crist\u00e3o \u00e9 chamado a uma vida nova, em que se manifesta a epifania da gra\u00e7a, na for\u00e7a do Esp\u00edrito (cf. Rom 8,5-17; Col 3,5-17).<\/p>\n<p>Na sua catequese, Paulo n\u00e3o separa a vida pessoal do crist\u00e3o da vida da Igreja: o crist\u00e3o caminha em Igreja e n\u00e3o \u00e9 apenas o indiv\u00edduo que se identifica com Cristo, mas toda a Igreja se identifica com Cristo. Ela \u00e9 o corpo de Cristo (cf. Rom 12,15; 1Co 12, 12-30; Ef 1,22s; 4,4-6; Col 2,19), \u00e9 a sua esposa (cf. Ef 5,25-32), retomando a velha imagem do amor esponsal de Deus pelo Seu Povo. <\/p>\n<p>Esta descoberta da vida nova em Cristo \u00e9 uma aut\u00eantica inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, \u00e9 a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, chamar-se-lhe-\u00e1 mais tarde. \u00c9 uma descoberta, de surpresa em surpresa, at\u00e9 \u00e0 alegria do estar para sempre com o Senhor. \u00c9 uma caminhada catecumenal (15), porque aprofunda continuamente a alegria do seu in\u00edcio: a f\u00e9 em Jesus Cristo e o mergulhar n\u2019Ele, no Baptismo.<\/p>\n<p>[Par\u00e1grafo 15]<\/p>\n<p>O Ano Paulino oferece-nos est\u00edmulo para aperfei\u00e7oar a nossa catequese e conceber a ac\u00e7\u00e3o pastoral como um meio de aprofundar um processo cont\u00ednuo de inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>(Continua na pr\u00f3xima semana)<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>1. Sauda\u00e7\u00e3o similar \u00e0 utilizada pelo ministro no in\u00edcio da Eucaristia.<\/p>\n<p>2. Roma. Capital do Imp\u00e9rio. Na \u00e9poca do Novo Testamento deveria ter cerca de um milh\u00e3o de habitantes, incluindo 50 mil judeus. Rom 1,8 d\u00e1 a entender que a comunidade crist\u00e3 romana \u00e9 relativamente antiga, mas n\u00e3o se sabe quem a fundou. Segundo a tradi\u00e7\u00e3o, Pedro sofreu o mart\u00edrio em Roma, no ano 64. Paulo foi como prisioneiro para Roma em 61 e l\u00e1 permaneceu dois anos em \u201cliberdade vigiada\u201d, numa casa que alugou (Act 28,16.30). Seria decapitado em 64 (ou 68, segundo Eus\u00e9bio de Cesareia), em Tre Fontane (sul Roma), e enterrado na via Ostiense, onde se ergue a bas\u00edlica de S\u00e3o Paulo Fora dos Muros.<\/p>\n<p>3. Natureza querigm\u00e1tica. Querigma \u2013 palavra de origem grega que significa \u201cproclama\u00e7\u00e3o\u201d. Trata-se do an\u00fancio primeiro e essencial de que Jesus \u00e9 o Cristo, o Salvador.<\/p>\n<p>4. Nova evangeliza\u00e7\u00e3o. Foi Jo\u00e3o Paulo II quem primeiro utilizou a express\u00e3o, em 1982, acrescentando que a nova evangeliza\u00e7\u00e3o devia ter novo rigor, novos m\u00e9todos e nova express\u00e3o.<\/p>\n<p>5. Pastoral. Deriva de pastor (\u201cBom Pastor\u201d) e significa a ac\u00e7\u00e3o que a Igreja desenvolve enquanto seguidora do Bom Pastor. Pastoral juvenil \u00e9 a ac\u00e7\u00e3o da Igreja no campo da juventude. Pastoral da sa\u00fade \u00e9 a ac\u00e7\u00e3o da Igreja com os doentes, nos hospitais\u2026<\/p>\n<p>6. Filipenses. Habitantes de Filipos, cidade da Tr\u00e1cia, no norte da actual Gr\u00e9cia. Muito ligados a Paulo, prestam-lhe ajuda financeira (Fl 4,15-18).<\/p>\n<p>7. Catequese. Ensino dirigido \u00e0 transmiss\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3. Na sua raiz grega significa \u201cinstru\u00e7\u00e3o oral\u201d, \u201cinstru\u00e7\u00e3o de viva voz\u201d.<\/p>\n<p>8. Judeus. Paulo dirige-se aos judeus que viviam fora da Palestina, ou seja, espalhados pelo Imp\u00e9rio Romano devido \u00e0s v\u00e1rias di\u00e1sporas. Falavam grego.<\/p>\n<p>9. Gentios (ou pag\u00e3os), no contexto do Novo Testamento, s\u00e3o, simplesmente, os \u201cn\u00e3o judeus\u201d. Paulo \u00e9 o ap\u00f3stolo dos gentios por oposi\u00e7\u00e3o aos outros ap\u00f3stolos, que se dirigem \u201caos circuncisos\u201d (Gl 2,9\u00b8Act 9,15).<\/p>\n<p>10. Cultura helenista, ou seja, cultura de matriz grega.<\/p>\n<p>11. Sincretismo. Mistura de v\u00e1rios elementos de diferentes religi\u00f5es, filosofias ou culturas. Os sincretismos tendem a ser pouco cr\u00edticos e contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p>12. Are\u00f3pago. Pra\u00e7a de Atenas que tinha duas fun\u00e7\u00f5es: era o local do mercado dos oleiros e onde se reuniam os areopagitas, um conselho que tinha poderes de vigil\u00e2ncia e de administra\u00e7\u00e3o dos ensinamentos sobre os atenienses.<\/p>\n<p>13. Justifica\u00e7\u00e3o significa a proclama\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a por parte de Deus. O homem culp\u00e1vel \u00e9 declarado, por vontade de Deus, justo. Justifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo que salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>14. \u201cBaptismo\u201d palavra derivada do verbo grego \u201cbaptizein\u201d, que significa \u201csubmergir\u201d. No baptismo crist\u00e3o, o fiel submerge com Cristo na morte e emerge para a vida nova da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>15. Catecumenal. Referente a catecumenado (ou catecumenato), que \u00e9 o processo de instru\u00e7\u00e3o das pessoas que pedem para ser admitidas \u00e0 Igreja (catec\u00famenos). O processo conclui-se com a recep\u00e7\u00e3o dos sacramentos do Baptismo, Confirma\u00e7\u00e3o e Eucaristia na noite de P\u00e1scoa. Existiu nos primeiros s\u00e9culos. Desapareceu quando o cristianismo se tornou religi\u00e3o oficial do imp\u00e9rio romano. E foi restaurado no s\u00e9c. XX para os adultos que querem ser baptizados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda parte da Nota Pastoral dos bispos portugueses sobre o Ano Paulino [Par\u00e1grafo 1] Toda a vida de Paulo se situa depois deste encontro [na estrada de Damasco], vive dele, em plena alegria (cf. Fil. 1,21; Gal. 2,20), o mais \u00e9 lixo (cf. 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