{"id":1258,"date":"2010-04-21T15:55:00","date_gmt":"2010-04-21T15:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1258"},"modified":"2010-04-21T15:55:00","modified_gmt":"2010-04-21T15:55:00","slug":"igreja-santa-e-pecadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/igreja-santa-e-pecadora\/","title":{"rendered":"Igreja santa e pecadora"},"content":{"rendered":"<p>Eleito h\u00e1 cinco anos (no dia 19 de Abril de 2005), tendo completado 83 anos h\u00e1 dias (16 de Abril), Bento XVI prepara-se para visitar Portugal. E os portugueses, os crist\u00e3os mas tamb\u00e9m muitas outras pessoas que v\u00eaem no Papa uma refer\u00eancia positiva, preparam-se para acolh\u00ea-lo.<\/p>\n<p>At\u00e9 \u00e0 viagem apost\u00f3lica, o Correio do Vouga dedicar\u00e1 algumas p\u00e1ginas especiais a Bento XVI e ao seu pensamento e pontificado<\/p>\n<p>Reflex\u00e3o a partir de textos de Joseph Ratzinger<\/p>\n<p>No curioso e engra\u00e7ado \u201cA Mec\u00e2nica de Deus. Como os cientistas e os engenheiros entendem a religi\u00e3o\u201d (Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica), o cientista e irm\u00e3o jesu\u00edta Guy Consolmagno afirma perto do final que, hoje, aos comandos da Igreja e mais concretamente no Vaticano, n\u00e3o h\u00e1 nada de semelhante \u201c\u00e0 incr\u00edvel fileira de patifes\u201d que pulularam na Hist\u00f3ria da Igreja. \u201cPodem discordar o que quiserem dos pont\u00edfices mais recentes, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que pelo menos tentaram ser Homens de Deus, tentando sinceramente fazer aquilo que lhes parecia ser a vontade de Deus. \u00c9 mais do que poder\u00edamos dizer de muitos outros pont\u00edfices da Hist\u00f3ria, a quem n\u00e3o confiaria as chaves do meu autom\u00f3vel, quanto mais as chaves do Reino dos C\u00e9us. E mesmo assim, a Igreja e as suas doutrinas sobreviveram, de algum modo. Eu estou a brincar um pouco (menos de um pouco) quando digo que esta \u00e9 a derradeira prova da exist\u00eancia de Deus, e um milagre que s\u00f3 Deus poderia ter conseguido\u201d, escreve. O trecho faz pensar naquilo que sempre se disse da Igreja: que \u00e9 santa e pecadora.<\/p>\n<p>Numa altura em que a Igreja est\u00e1 todos os dias na pra\u00e7a p\u00fablica (tamb\u00e9m \u00e9 o seu lugar), mas pelos piores motivos, ainda que exagerados e mesmo manipulados, vale a pena reflectir sobre o que \u00e9 Igreja santa e pecadora a partir do que o pr\u00f3prio Joseph Ratzinger escreveu. Assume-se assim a sugest\u00e3o dos bispos portugueses de conhecermos o pensamento Bento XVI.<\/p>\n<p>Em 1967, apenas dois anos passados sobre o Conc\u00edlio, Ratzinger escrevia que h\u00e1 um verdadeiro motivo da irrita\u00e7\u00e3o quando pronunciamos a f\u00f3rmula \u00abSanta Igreja Cat\u00f3lica\u00bb \u201cSe formos sinceros, teremos de admitir que gostar\u00edamos de afirmar que a Igreja n\u00e3o \u00e9 nem santa, nem cat\u00f3lica. (\u2026) Se h\u00e1 uma cr\u00edtica a fazer ao conc\u00edlio, s\u00f3 pode ser a de ter sido at\u00e9 muito t\u00edmido na sua afirma\u00e7\u00e3o tendo em vista a intensidade da impress\u00e3o de pecaminosidade da Igreja na consci\u00eancia de todos n\u00f3s\u201d. Na verdade, \u201cos s\u00e9culos de hist\u00f3ria da Igreja est\u00e3o t\u00e3o cheios de todo o tipo de falhas humanas que at\u00e9 podemos compreender a vis\u00e3o horrenda de Dante que viu sentada no carro da Igreja a meretriz da Babil\u00f3nia, ou julgar compreens\u00edveis as terr\u00edveis palavras do bispo de Paris, Guilherme de Auv\u00e9rnia, que no s\u00e9culo XIII achava que qualquer um devia ficar horrorizado diante da selvajaria reinante na Igreja: \u00abJ\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma noiva, mas antes um monstro terrivelmente deformado e feroz [\u2026]\u00bb\u201d.<\/p>\n<p>Sonho e decep\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Por que se diz, ent\u00e3o, que a igreja \u00e9 santa? Ratzinger, ent\u00e3o com 40 anos, responde: \u201cA Igreja n\u00e3o \u00e9 qualificada de \u00absanta\u00bb por se pensar que os seus membros s\u00e3o todos seres humanos santos e sem pecados; esse sonho, que reaparece em todos os s\u00e9culos, n\u00e3o combina com o contexto l\u00facido do nosso texto, por mais que corresponda \u00e0 express\u00e3o de um desejo profundo do ser humano, que n\u00e3o o abandonar\u00e1 at\u00e9 que um novo c\u00e9u e uma nova terra lhe d\u00eaem realmente o que este nosso mundo n\u00e3o \u00e9 capaz de lhe proporcionar. Quanto a este aspecto, j\u00e1 podemos afirmar que os maiores cr\u00edticos da Igreja do nosso tempo tamb\u00e9m alimentam, inconscientemente, esse sonho; e, como ficam decepcionados, fecham violentamente a porta de casa e partem para a den\u00fancia do logro. Mas, voltemos ao ponto de partida: a santidade da Igreja consiste naquele poder de santifica\u00e7\u00e3o que Deus exerce nela apesar da pecaminosidade humana. \u00c9 esse o verdadeiro sinal da \u00abnova alian\u00e7a\u00bb: em Cristo, o pr\u00f3prio Deus prendeu-Se aos homens, deixou-Se prender por eles. A Nova Alian\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o se baseia no cumprimento m\u00fatuo do acordo, porque ela \u00e9 gra\u00e7a concedida por Deus, a qual n\u00e3o recua diante da infidelidade do ser humano. Ela \u00e9 a express\u00e3o do amor de Deus que n\u00e3o se deixa vencer pela incapacidade do ser humano; pelo contr\u00e1rio, Deus quer bem ao ser humano apesar de tudo e sem cessar; aceita-o precisamente como ser pecador, dirigindo-Se-lhe para o santificar e amar\u201d.<\/p>\n<p>A verdadeira santidade da Igreja \u00e9 a santidade que resplandece como a santidade de Cristo no meio do pecado da Igreja. Talvez seja algo dif\u00edcil de aceitar no nosso tempo, que gosta tanto de embrulhos, aparatos, luz e cor, que olha mais \u00e0 forma e ao exterior do que ao conte\u00fado. Mas como aquela catequista explicava, o melhor champanhe continua a ser champanhe, mesmo que bebido por uma caneca de barro. Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil desejar copos de cristal? Limpos?<\/p>\n<p>\u201cMist\u00e9rio da iniquidade\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 a prop\u00f3sito da pedofilia, Jo\u00e3o Paulo II falara de \u201cmist\u00e9rio da iniquidade\u201d. Sem d\u00favida que \u00e9 grave. Sem d\u00favida que \u00e9 desastroso. H\u00e1 crist\u00e3os que dizem j\u00e1 n\u00e3o podem olhar para os padres por causa do sofrimento das crian\u00e7as. E n\u00e3o se pode culpar s\u00f3 o poder da comunica\u00e7\u00e3o social. Bento XVI escreveu uma carta \u00e0 Irlanda, reconhecendo \u201ccrimes\u201d e \u201cpecados\u201d. Mas porqu\u00ea a express\u00e3o \u201cmist\u00e9rio da iniquidade\u201d, que em contexto eclesial tem outro significado? Quando se fala em \u201cmist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o\u201d, por exemplo, fala-se de algo que nos ultrapassa, n\u00e3o no sentido do enigma, mas do que vem do alto. O \u201cmist\u00e9rio da iniquidade\u201d ultrapassa-nos?<\/p>\n<p>Ratzinger ajuda-nos: \u201cNo sonho humano de um mundo perfeito, a santidade \u00e9 imaginada como isen\u00e7\u00e3o do pecado e do mal, e n\u00e3o como algo que se mistura com eles; ela permanece sempre uma esp\u00e9cie de pensamento a preto e branco que elimina e condena implacavelmente a respectiva forma negativa (que pode ser vista de muitas maneiras). Na actual cr\u00edtica da sociedade e nas ac\u00e7\u00f5es em que ela se cristaliza, manifesta-se novamente com toda a nitidez essa tend\u00eancia implac\u00e1vel pr\u00f3pria dos ideais humanos. O que escandalizava os contempor\u00e2neos de Jesus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua santidade era a aus\u00eancia absoluta de uma atitude julgadora: Ele nem lan\u00e7ava um raio sobre os indignos, nem autorizava os zelosos a arrancarem a erva daninha que viam proliferar. Pelo contr\u00e1rio, a sua santidade manifestava-se precisamente na promiscuidade, com os pecadores que eram atra\u00eddos por Jesus; essa mistura indiscriminada chegou ao ponto de Ele mesmo ser transformado \u00abem pecado\u00bb, tendo de carregar, pela sua execu\u00e7\u00e3o, a maldi\u00e7\u00e3o da lei, que o levou a associar inteiramente o seu destino ao dos perdidos (cf. 2Cor5, 21; Gal3, 13). (\u2026) N\u00e3o \u00e9 a Igreja simplesmente a continua\u00e7\u00e3o dessa atitude de Deus que se mistura com a miserabilidade humana? N\u00e3o \u00e9 ela a continua\u00e7\u00e3o da comensalidade de Jesus com os pecadores, mediante a qual Ele se misturou com a afli\u00e7\u00e3o do pecado a ponto de parecer sucumbir nele? N\u00e3o se revela na santidade imperfeita da Igreja diante das expectativas humanas de pureza a verdadeira santidade de Deus, que \u00e9 amor, um amor que n\u00e3o se mant\u00e9m na dist\u00e2ncia aristocr\u00e1tica do puro e intoc\u00e1vel, mas se mistura com a sujidade do mundo para a superar?\u201d<\/p>\n<p>Consolo da santidade imperfeita<\/p>\n<p>Reconhecer que a Igreja \u00e9 pecadora n\u00e3o \u00e9, no entanto, uma desculpa. \u00c9 uma responsabilidade. O \u201cmist\u00e9rio da iniquidade\u201d poder\u00e1 bem ser um apelo \u00e0 nossa pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o, ao reconhecimento da nossa fragilidade, \u00e0 nossa sede de Deus.<\/p>\n<p>\u201cConfesso que, para mim \u2013 escreve Joseph Ratzinger \u2013 essa santidade imperfeita da Igreja \u00e9 um consolo infinito. N\u00e3o dever\u00edamos desesperar diante de uma santidade que fosse imaculada e que s\u00f3 pudesse manifestar-se julgando-nos e queimando-nos? E quem poder\u00e1 afirmar que n\u00e3o precisa de ser apoiado e sustentado pelos outros? E como poderia algu\u00e9m que vive da toler\u00e2ncia dos outros recusar o exerc\u00edcio da toler\u00e2ncia da sua parte? N\u00e3o ser\u00e1 ela a \u00fanica retribui\u00e7\u00e3o que ele tem para oferecer? N\u00e3o ser\u00e1 esse o \u00fanico consolo que lhe resta: apoiar tal como ele pr\u00f3prio \u00e9 apoiado? A santidade da Igreja come\u00e7a com o apoio e leva \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o; quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 apoio, deixa de existir tamb\u00e9m a sustenta\u00e7\u00e3o, e uma exist\u00eancia sem sustent\u00e1culos s\u00f3 pode cair no vazio. N\u00e3o me importa a afirma\u00e7\u00e3o de que estas palavras s\u00e3o a express\u00e3o de uma exist\u00eancia d\u00e9bil e fraca\u201d.  Defendia ent\u00e3o o professor que \u00e9 pr\u00f3prio do cristianismo aceitar a debilidade, a fraqueza, ao mesmo tempo que observava o \u201corgulho esconso\u201d da \u201ccr\u00edtica amargurada e biliosa\u201d contra a Igreja.<\/p>\n<p> \u201cOs verdadeiros fi\u00e9is n\u00e3o d\u00e3o muita import\u00e2ncia \u00e0 luta em torno da reorganiza\u00e7\u00e3o das formas da Igreja, porque vivem daquilo que ela sempre foi e \u00e9. Para saber o que \u00e9 propriamente a Igreja, \u00e9 necess\u00e1rio aproximar-se. S\u00f3 quem experimentou (\u2026) a ac\u00e7\u00e3o da Igreja nas pessoas, confortando-as, dando-lhes um lar e uma esperan\u00e7a, um lar que \u00e9 esperan\u00e7a &#8211; caminho para a vida eterna -, s\u00f3 quem teve essa experi\u00eancia sabe o que \u00e9 a Igreja, tanto no passado como no presente\u201d.<\/p>\n<p>Conclui Joseph Ratzinger: \u201cUma porta que se fecha com estrondo pode at\u00e9 transformar-se num sinal para despertar aqueles que se encontram dentro de casa. Mas \u00e9 uma ilus\u00e3o imaginar que se pode construir mais no isolamento do que na coopera\u00e7\u00e3o, assim como \u00e9 uma ilus\u00e3o pensar numa Igreja dos \u00absantos\u00bb em vez de numa \u00abIgreja santa\u00bb, que \u00e9 santa porque nela o Senhor distribui o dom da santidade imerecida\u201d.<\/p>\n<p>Os textos de Joseph Ratzinger foram retirados de \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao cristianismo\u201d (ed. Principia, 2005), p\u00e1ginas 248-252. Edi\u00e7\u00e3o original em alem\u00e3o: 1968.<\/p>\n<p>Pontificado ao servi\u00e7o da unidade e da verdade<\/p>\n<p>Bento XVI foi eleito na tarde de 19 de Abril de 2005, sucedendo a Jo\u00e3o Paulo II como 265.\u00ba Papa da Igreja Cat\u00f3lica. O Conclave que levou \u00e0 sua elei\u00e7\u00e3o tinha-se iniciado no dia anterior, com a presen\u00e7a de 115 Cardeais eleitores. Apenas por duas vezes houve fumo negro e, \u00e0 terceira, surgiu da chamin\u00e9 o fumo branco que anunciava a elei\u00e7\u00e3o de um novo Papa.<\/p>\n<p>Nas suas primeiras palavras, Bento XVI apresentou-se como um \u201chumilde trabalhador da vinha do Senhor\u201d. A Missa de in\u00edcio de pontificado aconteceu a 24 de Abril, na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, diante de quase meio milh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>O Papa j\u00e1 publicou tr\u00eas enc\u00edclicas (\u201cDeus caritas est\u201d \/ \u201cDeus \u00e9 Amor\u201d, de 2005; \u201cSpe salvi\u201d \/ \u201cSalvos na esperan\u00e7a\u201d, de 2007, e \u201cCaritas in veritate\u201d \/ \u201cCaridade na verdade\u201d, de 2009), uma exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, uma constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, nove \u201cMotu proprio\u201d, o livro \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d e centenas de outros textos, entre discursos, homilias, cartas e mensagens.<\/p>\n<p>Efectuou 14 viagens apost\u00f3licas internacionais e 16 visitas \u00e0 It\u00e1lia, tendo passado por Auschwitz (2006), a Mesquita Azul (2006), a sede das Na\u00e7\u00f5es Unidas (2008) e a Terra Santa (2009), entre outros.<\/p>\n<p>Bento XVI convocou dois S\u00ednodos, o primeiro dedicado \u00e0 Palavra de Deus (2008) e o segundo sobre \u00c1frica (2009), mas ainda este ano ir\u00e1 ser celebrado o terceiro, dedicado ao M\u00e9dio Oriente. Por outro lado, o actual Papa j\u00e1 proclamou 573 beatos e 28 santos, tendo presidido a sete cerim\u00f3nias de canoniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O P.e Lombardi, porta-voz da Santa S\u00e9, destaca, neste pontificado, o empenho de reconstituir \u201ca unidade plena e vis\u00edvel de todos os que seguem a Cristo\u201d e o desejo de responder ao \u201cpedido de ajuda da parte da humanidade de hoje, que, abalada por incertezas e receios, se interroga sobre o seu futuro\u201d.<\/p>\n<p>Este respons\u00e1vel fala ainda no di\u00e1logo \u201caberto e sincero\u201d com os que seguem outras religi\u00f5es ou com os que procuram simplesmente resposta \u00e0s quest\u00f5es fundamentais da exist\u00eancia, \u201cpara a busca do verdadeiro bem do homem e da sociedade\u201d.<\/p>\n<p>O processo ao Papa<\/p>\n<p>O \u201cNew York Times\u201d pode acusar Bento XVI do que quiser, sem provas, porque o jornal goza da presun\u00e7\u00e3o de infalibilidade, ironiza William McGurn no \u201cWall Stret Journal\u201d. \u201cN\u00e3o pretendem informar, mas castigar\u201d, escreve no seu blogue, no jornal israelita \u201cJerusalem Post\u201d, o ex-presidente da C\u00e2mara de Nova Iorque Ed Koch, o primeiro judeu que ocupou o cargo.<\/p>\n<p>Inverte-se o sentido do ditado \u201cDiz-me do que te gabas\u2026\u201d [ditado espanhol que na sua forma completa \u00e9: \u201cDiz-me do que de gabas, dir-te-ei o que te faz falta\u201d], que, aplicado ao Papa, se transforma misteriosamente em \u201cDiz-me do que \u00e9 que ele \u00e9 atacado\u2026 e dir-te-ei quais s\u00e3o as suas virtudes\u201d. No seu blogue \u201cChiesa\u201d [Igreja], Sandro Magister sintetiza as principais acusa\u00e7\u00f5es contra Bento XVI nos seus cinco primeiros anos de pontificado. O artigo \u201cA paix\u00e3o do Papa Bento. Seis acusa\u00e7\u00f5es, uma pergunta\u201d come\u00e7a: \u201cA pedofilia \u00e9 somente a \u00faltima das armas apontadas contra Joseph Ratzinger\u201d. Contudo, embora tenham sido muitos os flancos, curiosamente ataca-se sempre naqueles pontos em que \u201cmais exerce o seu papel de guia\u201d.<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o \u00e9 Ratisbona. Depois do seu c\u00e9lebre discurso, disse-se que o Papa \u00e9 inimigo do Isl\u00e3o, e \u201cpartid\u00e1rio incendi\u00e1rio do desencontro entre as civiliza\u00e7\u00f5es\u201d. Na realidade, a sua den\u00fancia da \u201cideia de Deus mutilada pela racionalidade\u201d, e a sua proposta de como venc\u00ea-la, foi um grande impulso para esse di\u00e1logo. Hoje avan\u00e7a-se \u201ccom uma consci\u00eancia mais n\u00edtida sobre o que distingue e sobre o que pode unir a lei natural escrita por Deus no cora\u00e7\u00e3o de cada homem\u201d. Quanto aos factos, depois do famoso discurso, deu-se a hist\u00f3rica carta dos 138 s\u00e1bios mu\u00e7ulmanos ao Papa e a sua visita \u00e0 Mesquita Azul de Istambul.<\/p>\n<p>Depois, foi acusado de ser inimigo da raz\u00e3o: um protesto de professores obrigou-o a cancelar a sua visita \u00e0 universidade de La Sapienza. \u201cO paradoxo \u2013 diz Magister \u2013 \u00e9 que Bento XVI \u00e9 um grande ilustrado numa \u00e9poca em que a verdade tem poucos defensores e a d\u00favida faz de patr\u00e3o dela\u201d.<\/p>\n<p>Seguiu-se uma suposta inimizade em rela\u00e7\u00e3o ao Conc\u00edlio Vaticano II\u2026 Os cr\u00edticos acusaram-no de \u201ctradicionalista apegado ao passado\u201d, por causa, sobretudo, da liberaliza\u00e7\u00e3o do rito antigo da Missa. Mas a sua defesa da Tradi\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o tem nada a ver com uma ades\u00e3o formalista ao passado\u201d, como se mostra em factores como o elevado conceito deste Papa sobre a liberdade religiosa, apoiado precisamente na tradi\u00e7\u00e3o dos primeiros m\u00e1rtires. \u201cQuanto \u00e0 liturgia, se h\u00e1 aut\u00eantico continuador do grande movimento lit\u00fargico que floresceu no s\u00e9culo XIX e no s\u00e9culo XX, desde Proesper Gu\u00e9ranger a Romano Guardini, \u00e9 Ratzinger\u201d.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas de anti-ecumenismo, pela sua excessiva aproxima\u00e7\u00e3o aos lefebvrianos, enfim, ficam desmentidas pelos avan\u00e7os com as Igrejas bizantinas e o Patriarcado de Moscovo, e no Ocidente, por marcos hist\u00f3ricos com alguns anglicanos.<\/p>\n<p>Os lefebvrianos, com os quais ainda h\u00e1 s\u00e9rias diverg\u00eancias, esgrimiram-se, tamb\u00e9m para enfrentar o Papa, com os judeus, embora \u201cnenhum outro Papa, antes deste, se esfor\u00e7asse tanto em avan\u00e7ar para definir uma vis\u00e3o positiva do v\u00ednculo entre cristianismo e juda\u00edsmo\u201d, como mostra, por exemplo, o primeiro tomo do seu livro \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d. \u201cE numerosos judeus v\u00eam efectivamente em Ratzinger um amigo\u201d. Mas os meios [de comunica\u00e7\u00e3o social] reflectem outras coisas.<\/p>\n<p>Magister chega \u00e0 \u00faltima esta\u00e7\u00e3o: acusa-se de ter encoberto abusos sexuais a crian\u00e7as, \u00abjustamente ao homem que fez mais do que ningu\u00e9m para sanar este esc\u00e2ndalo\u00bb. Tudo vale quando se trata de dirigir contra ele os esc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>Conclui Magister: \u201cPor que \u00e9 que este Papa \u00e9 atacado deste modo, fora da Igreja, mas tamb\u00e9m dentro, apesar da sua evidente inoc\u00eancia? Um princ\u00edpio de resposta \u00e9 que ele \u00e9 atacado sistematicamente pelo que sabe, pelo que diz, pelo que \u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Sobre as cr\u00edticas internas, reflecte o bispo Gianpaolo Crepaldi, no Observat\u00f3rio Internacional Cardeal Van Thu\u00e2n. Talvez sejam cada vez menos, mas n\u00e3o faltam f\u00f3runs onde se possa expressar quem, do interior da Igreja, defende ou admite postulados contr\u00e1rios \u00e0 f\u00e9 em pontos muito sens\u00edveis. O estilo do Papa foi sempre paternal em rela\u00e7\u00e3o a eles, mas a absoluta clareza de Ratzinger em temas como a vig\u00eancia da Tradi\u00e7\u00e3o ou os valores \u00abn\u00e3o negoci\u00e1veis\u00bb na pol\u00edtica, fez com que a sua voz n\u00e3o lhes seja c\u00f3moda.<\/p>\n<p>Texto publicado no seman\u00e1rio espanhol \u201cAlfa y Omega\u201d, no dia 15 de Abril de 2010. Tradu\u00e7\u00e3o de Jorge Pires Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleito h\u00e1 cinco anos (no dia 19 de Abril de 2005), tendo completado 83 anos h\u00e1 dias (16 de Abril), Bento XVI prepara-se para visitar Portugal. E os portugueses, os crist\u00e3os mas tamb\u00e9m muitas outras pessoas que v\u00eaem no Papa uma refer\u00eancia positiva, preparam-se para acolh\u00ea-lo. 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