{"id":12595,"date":"2008-06-25T17:08:00","date_gmt":"2008-06-25T17:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12595"},"modified":"2008-06-25T17:08:00","modified_gmt":"2008-06-25T17:08:00","slug":"precisamos-da-historia-para-nos-compreendermos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/precisamos-da-historia-para-nos-compreendermos\/","title":{"rendered":"&#8220;Precisamos da Hist\u00f3ria para nos compreendermos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Professor Jos\u00e9 Mattoso no Centro Universit\u00e1rio <!--more--> O historiador Jos\u00e9 Mattoso esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura para falar do \u201clugar da hist\u00f3ria\u201d. Especialista em hist\u00f3ria medieval, coordenou a monumental \u201cHist\u00f3ria de Portugal\u201d, do C\u00edrculo de Leitores, e construiu ao longo de d\u00e9cadas uma historiografia que, \u201ccomo poucas, tem contribu\u00eddo para compreender a hist\u00f3ria do Portugal que somos\u201d, nas palavras de Teresa Roberto, professora da Universidade de Aveiro, que moderou o encontro.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Mattoso, um dos poucos autores portugueses com mais de um milh\u00e3o de exemplares das suas obras vendidos, passou uma temporada no Timor p\u00f3s-independ\u00eancia, onde ensinou Hist\u00f3ria da Igreja e organizou os arquivos nacionais.<\/p>\n<p>No encontro de 4 de Junho, no CUFC, o historiador deixou transparecer uma sabedoria de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que mais ter\u00e1 impressionado a sala cheia do que os celebrados conhecimentos de hist\u00f3ria. Mas esses s\u00e3o mais f\u00e1ceis de sintetizar nestas p\u00e1ginas. J.P.F.<\/p>\n<p>Historidade<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o humana depende do tempo. Deus relacionou-se e revelou-se na hist\u00f3ria. N\u00e3o h\u00e1 doutrina sem hist\u00f3ria. Encarnou, viveu e morreu no tempo em que era governador da Judeia P\u00f4ncio Pilatos. A historicidade \u00e9 importante para compreender o modo como as coisas se relacionam.<\/p>\n<p>Compreender a humanidade<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 uma selec\u00e7\u00e3o de factos suscept\u00edveis de nos darem uma explica\u00e7\u00e3o acerca dos acontecimentos. A sua fun\u00e7\u00e3o principal \u00e9 compreender o passado colectivo e n\u00e3o s\u00f3 o passado individual e dos pequenos grupos. A compreens\u00e3o do passado, a Hist\u00f3ria, serve sobretudo para percebermos o que \u00e9 a humanidade, mais do que a Filosofia, a Sociologia ou a Antropologia.<\/p>\n<p>Imprevisibilidade<\/p>\n<p>Um acontecimento \u00e9 hist\u00f3rico na medida em que influencia factos, provoca altera\u00e7\u00f5es. Na Hist\u00f3ria, o fundamental \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o. A imprevisibilidade da hist\u00f3ria \u00e9 uma das componentes mais interessantes. O marxismo tem uma interpreta\u00e7\u00e3o determinista da hist\u00f3ria: interpreta a hist\u00f3ria \u00e0 base de leis pr\u00e9-determinadas, as Leis Hist\u00f3ricas. Nos anos 90 surgiu a ideia do \u201cfim da Hist\u00f3ria\u201d (Francis Fukuyama), mas a partir de ent\u00e3o surgiram muitos factos que est\u00e3o a mudar o curso da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Origens da Hist\u00f3ria<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria tem duas origens: a grega e a b\u00edblica. Na Gr\u00e9cia, Her\u00f3doto narra a hist\u00f3ria para que os seus leitores saibam que h\u00e1 outras formas de governo dos povos para al\u00e9m da democracia.<\/p>\n<p>Na B\u00edblia, o passado \u00e9 contado (a sucess\u00e3o Ad\u00e3o, Babel, No\u00e9&#8230;) para que saibam por que \u00e9 que as coisas correm mal.<\/p>\n<p>Na Idade M\u00e9dia e at\u00e9 ao s\u00e9c. XVIII, a Hist\u00f3ria est\u00e1 ao servi\u00e7o dos reis, para mostrar a legitimidade da transmiss\u00e3o do poder. Encontram-se na Hist\u00f3ria vest\u00edgios de Deus e dos milagres. <\/p>\n<p>Com o Protestantismo (s\u00e9c. XVI), surgem crit\u00e9rios para estabelecer a veracidade dos documentos que Protestantes e Cat\u00f3licos usam para justificar as suas pretens\u00f5es. \u00c9 necess\u00e1rio identificar os textos falsos, pelo que se desenvolvem as t\u00e9cnicas documentais.<\/p>\n<p>No s\u00e9c. XIX, a ideologia do progresso tomou conta da Hist\u00f3ria, imaginando sucessivos est\u00e1dios de sucesso, at\u00e9 \u00e0 fraternidade universal. No s\u00e9c. XX, o p\u00f3s-modernismo estilha\u00e7ou todas as teorias anteriores. \u201cA verdadeira vida n\u00e3o \u00e9, afinal, um absurdo? H\u00e1 algum sentido na hist\u00f3ria?\u201d \u2013 ficaram estas interroga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 mau decorar?<\/p>\n<p>As crian\u00e7as at\u00e9 aos 12-15 anos n\u00e3o compreendem os processos pol\u00edticos e econ\u00f3micos da hist\u00f3ria. Mas podem compreender a hist\u00f3ria narrativa, com as suas personagens e feitos. Saber de cor a sucess\u00e3o dos reis e os seus cognomes foi considerado \u201cinfatilista\u201d, mas permitia ter uma escala da sucess\u00e3o no tempo, que era o essencial. Os cognomes eram um s\u00edmbolo, um reflexo do que os governantes tinham sido em vida. Hoje, parece que, afinal, saber de cor \u00e9 um processo bastante razo\u00e1vel, desde que isso n\u00e3o apare\u00e7a como sendo tudo.<\/p>\n<p>Ideologia e engrandecimento da na\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Durante muitos anos tivemos uma hist\u00f3ria ideol\u00f3gica que dizia que \u201cPortugal n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds pequeno\u201d. Era a resposta a um complexo de inferioridade ati\u00e7ado pela Gera\u00e7\u00e3o de 70 [pensadores do final do s\u00e9c. XIX, que consideravam que as na\u00e7\u00f5es ib\u00e9ricas estavam em decad\u00eancia; neste grupo incluem-se, entre outros, Antero de Quental, E\u00e7a de Queiroz e Oliveira Martins]. Essa hist\u00f3ria glorificava os Descobrimentos e batalhas como a de Aljubarrota. Ora, estes acontecimentos devem ser estudados por si mesmos e n\u00e3o por terem sido gloriosos. N\u00e3o podemos mitificar. O mesmo \u00e9 dizer que Afonso Henriques n\u00e3o tinha em mente um grande pa\u00eds. Queria simplesmente ser independente de Le\u00e3o, na sua concep\u00e7\u00e3o feudal de poder. O \u201cMilagre de Ourique\u201d surgiu nos documentos apenas 300 anos ap\u00f3s a suposta realiza\u00e7\u00e3o (com D. Afonso Henriques) e deixou de fazer parte da historiografia com Alexandre Herculano.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria local<\/p>\n<p>H\u00e1 um papel importante a ser desenvolvido pela hist\u00f3ria local, atrav\u00e9s de monografias que n\u00e3o sejam apenas uma colec\u00e7\u00e3o de gl\u00f3rias da terra como as igrejas, os m\u00e9dicos, os ilustres, com pouca org\u00e2nica e sem sequ\u00eancia interna. Vivo em Carvoeiro (Albergaria) e pensava que o nome da terra estava ligado ao fabrico do carv\u00e3o, de algum modo uma profiss\u00e3o humilde. Mas uma breve investiga\u00e7\u00e3o permitiu verificar que a pequena povoa\u00e7\u00e3o vem dos tempos de D. Afonso II e que por ali passava uma importante via entre o Norte e o Sul.<\/p>\n<p>Feiras medievais<\/p>\n<p>As feiras medievais [que surgem um pouco por todo o lado] s\u00e3o positivas, se forem feitas com cuidado. A no\u00e7\u00e3o de \u00e9poca \u00e9 dif\u00edcil de ensinar \u00e0s crian\u00e7as. Ora, as moedas, a alimenta\u00e7\u00e3o, as formas de tratamento, se estiverem bem adaptadas e formarem um todo coerente, sem anacronismos, permitem que as crian\u00e7as interiorizem a \u00e9poca de forma correcta.<\/p>\n<p>Papel de Deus<\/p>\n<p>O papel de Deus na Hist\u00f3ria, na B\u00edblia, \u00e9 visto como de orienta\u00e7\u00e3o e direc\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o Homem-Deus continua a ter o seu prot\u00f3tipo na B\u00edblia. Na Idade M\u00e9dia, entendeu-se que Jesus protegia a Igreja, os papas, os bispos. Hoje, continua a ser v\u00e1lida a afirma\u00e7\u00e3o de Ireneu de Li\u00e3o: \u201cA gl\u00f3ria de Deus \u00e9 a vida do homem sobre a terra\u201d.<\/p>\n<p>O problema do mal<\/p>\n<p>Subsiste qualquer coisa de mais profundo: o problema do mal. O caso de Etty Hillesum (1914-1943, judia holandesa que morre em Auschwitz, nas c\u00e2maras de g\u00e1s, com toda a sua fam\u00edlia) \u00e9 paradigma. A matan\u00e7a dos judeus n\u00e3o impede que Deus esteja presente. Deus n\u00e3o impede o mal, mas d\u00e1 a Etty Hillesum o sentimento de estar acima de tudo isso. \u00c9 um ponto de apoio na esperan\u00e7a da vida da humanidade. Aceitar o mal \u00e0 sua volta sem perder o sentido de Deus \u00e9 poss\u00edvel onde o mal marca presen\u00e7a, seja nos EUA ou no Iraque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor Jos\u00e9 Mattoso no Centro Universit\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":["post-12595","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-forum-universal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12595"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12595\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}