{"id":127,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=127"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-festa-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-festa-2\/","title":{"rendered":"A Festa (2)"},"content":{"rendered":"<p>Notas Lit\u00fargicas <!--more--> D) Tudo o que se disse no artigo anterior pressup\u00f5e a sua realiza\u00e7\u00e3o com um certo ritualismo. \u00c0 festa pertence sempre um ritual: certas estruturas mais ou menos fixas, herdadas ou inventadas, gestos, s\u00edmbolos: certas \u00abregras de jogo\u00bb que d\u00e3o \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o um ar de tradi\u00e7\u00e3o e de solenidade, ao mesmo tempo que de acontecimento espont\u00e2neo. Estes ritos t\u00eam sempre algo de sagrado: s\u00e3o ritos simb\u00f3licos que exprimem os conte\u00fados da celebra\u00e7\u00e3o e que unem a comunidade com a sua linguagem comunicativa \u00e0 volta de valores mais ou menos transcendentes, mas que os seus membros consideram b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>E) A festa est\u00e1 em \u00edmtima rela\u00e7\u00e3o com o tempo. \u00c9 uma celebra\u00e7\u00e3o num tempo determinado (hoje), mas com uma mem\u00f3ria viva do passado (ontem) e uma projec\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao futuro (amanh\u00e3). A din\u00e2mica festiva funda-se basicamente num acontecimento passado, recente ou remoto, m\u00edtico ou hist\u00f3rico, mas que \u00e9 visto como constituinte pelo grupo que o celebra. O chamado \u00abeterno retorno dos mitos ou dos deuses\u00bb tem a sua tradu\u00e7\u00e3o tanto nos acontecimentos familiares como nas recorda\u00e7\u00f5es festivas de uma colectividade ou nas celebra\u00e7\u00f5es sacramentais crist\u00e3s.<\/p>\n<p>Mas este acontecimento compreende-se na festa como algo presente e actual: o que celebra o seu anivers\u00e1rio natal\u00edcio ou o anivers\u00e1rio de casamento, o que est\u00e1 a celebrar, sobretudo, \u00e9 a vida que continua a ter e o amor que persevera. \u00c9 a tens\u00e3o din\u00e2mica entre o semel (semelhante) do acontecimento e o hodie (hoje) da celebra\u00e7\u00e3o memorial. \u00c9 a for\u00e7a da re-presencializa\u00e7\u00e3o do facto originante, chave comum \u00e0 festa pascal judaica, \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es mist\u00e9ricas pag\u00e3s, aos sacramentos crist\u00e3os e tamb\u00e9m a toda a festa familiar. Uma mem\u00f3ria que n\u00e3o s\u00f3 olha o passado, mas que \u00e9 entendida como uma re-cria\u00e7\u00e3o continuada no seio da comunidade. Ao mesmo tempo, a festa lan\u00e7a um olhar para o futuro.  Projecta a recorda\u00e7\u00e3o para o amanh\u00e3; a mem\u00f3ria torna-se esperan\u00e7a e profecia. No fundo, o que se celebra \u00e9 um valor (vida, amor, felicidade, vit\u00f3ria, liberdade&#8230;) que, de alguma maneira, \u00e9 sempre imcompleto e ut\u00f3pico. O projecto ideal do grupo tem muito de processo de conquista e de caminho. A festa, no hoje, une o tempo passado e o futuro, dando um sentido global \u00e0 vida e um car\u00e1cter quase-sagrado ao transcorrer do tempo, escapando por um momento do seu fluir mon\u00f3tono para lhe dar maior consci\u00eancia e profundidade.<\/p>\n<p>E) A festa celebra-se sempre em chave de comunh\u00e3o com uns valores. N\u00e3o consiste s\u00f3 em deixar de trabalhar (tamb\u00e9m o reformado e o grevista deixam de trabalhar e nem por isso est\u00e3o em festa). A festa faz sair de uma determinada ordem de valores para introduzir noutra na qual tamb\u00e9m se acredita. S\u00f3 celebra o que acredita em algo e com algu\u00e9m. A festa \u00e9 um \u00absim\u00bb a valores que normalmente est\u00e3o s\u00f3 impl\u00edcitos na consci\u00eancia e que em determinadas datas se tornam expl\u00edcitos e se celebram. Podem ser c\u00f3smicos (\u00e0 volta das esta\u00e7\u00f5es do ano ou dos acontecimentos agr\u00edcolas), familiares, sociais ou religiosos: mas sempre vistos como paradigm\u00e1ticos e fundamentais para o grupo. A festa faz que a comunidade se identifique com o acontecimento e o que ele significa, por meio do clima criado e do ritual simb\u00f3lico. A festa \u00e9 um reencontro consigo mesmo, com os outros, com a natureza, com a vida. No clima religioso \u00e9 um reencontro tamb\u00e9m com Deus e com os grandes acontecimentos da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>F) Por tudo isso, a festa tem uma for\u00e7a globalizante e unificadora dos diversos n\u00edveis da vida humana. Afecta o homem todo, n\u00e3o s\u00f3 a sua intelig\u00eancia ou as suas op\u00e7\u00f5es de vontade: engloba o homem num clima afectivo e emocional. Relaciona-o dinamicamente com a natureza e com o grupo a que pertence e que partilha com ele a celebra\u00e7\u00e3o. Re\u00fane num momento privilegiado da celebra\u00e7\u00e3o o passado e o futuro. Num presente que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 precisamente rico em motivos de alegria, a festa faz que, por uma op\u00e7\u00e3o optimista e uma contesta\u00e7\u00e3o impl\u00edcita ou expl\u00edcita contra o mal, a celebra\u00e7\u00e3o resulte em sinal prof\u00e9tico de esperan\u00e7a e prim\u00edcias de metas desejadas.<\/p>\n<p>A festa \u00e9 um ponto de refer\u00eancia e de condensa\u00e7\u00e3o recriativa de todos os melhores valores do homem e da colectividade, tanto os meramente profanos como os religiosos e crist\u00e3os. A festa ajuda a aprofundar o sentido da pr\u00f3pria vida para a relan\u00e7ar e projectar, valorizando mais o \u00abser\u00bb que o \u00abter\u00bb ou o \u00abproduzir\u00bb. A festa tem uma carga ineg\u00e1vel de liberta\u00e7\u00e3o: n\u00e3o tanto liberta \u00abde\u00bb (embora ajude a escapar ao ritmo opressivo do trabalho ou \u00e0 tens\u00e3o angustiosa da vida) mas \u00abpara\u00bb, porque introduz em comunh\u00e3o com os valores mais origin\u00e1rios de felicidade e de salva\u00e7\u00e3o. A festa regenera as energias para a tarefa de luta que sempre est\u00e1 \u00e0 espera do homem, a qualquer dos n\u00edveis e desejos que exprimem as suas v\u00e1rias metas. Toda a festa sup\u00f5es de algum modo uma vit\u00f3ria contra o que n\u00e3o queremos: \u00abo mal est\u00e1 vencido\u00bb, parece o grito de toda a festa, humana ou religiosa. Uma vit\u00f3ria sobre a morte e a escravid\u00e3o, em favor da vida e da liberdade. <\/p>\n<p>SDPL<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Notas Lit\u00fargicas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-127","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-diocese"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}