{"id":12752,"date":"2008-07-17T15:19:00","date_gmt":"2008-07-17T15:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12752"},"modified":"2008-07-17T15:19:00","modified_gmt":"2008-07-17T15:19:00","slug":"foi-assim-ha-50-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/foi-assim-ha-50-anos\/","title":{"rendered":"Foi assim&#8230; h\u00e1 50 anos"},"content":{"rendered":"<p>MANUEL BIDARRA<\/p>\n<p>Comemora-se em 2008 meio s\u00e9culo de acontecimentos relevantes, que estiveram na base de altera\u00e7\u00f5es profundas na vida social, pol\u00edtica e religiosa do pa\u00eds, porventura das mais significativas na evolu\u00e7\u00e3o p\u00e1tria da segunda metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Referirei alguns desses eventos com total isen\u00e7\u00e3o, porque os vivi dando a cara por v\u00e1rios deles e com a consci\u00eancia do dever cumprido, mas sem esquecer tamb\u00e9m que outros movimentos de pendor totalit\u00e1rio e, portanto, com uma outra vis\u00e3o da democracia, tudo fizeram para se arrogarem de libertadores, de her\u00f3is e de \u201cdonos\u201d da evolu\u00e7\u00e3o que teve lugar a partir de 1974.<\/p>\n<p>Como se recordar\u00e3o, em 1958, houve elei\u00e7\u00f5es para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, tendo-se apresentado inicialmente tr\u00eas candidaturas: Humberto Delgado, Am\u00e9rico Tomaz e Arlindo Vicente. Foram extraordinariamente movimentadas e com tal ades\u00e3o popular, que s\u00f3 depois do 25 de Abril se voltou a verificar coisa id\u00eantica. Ora, os condicionalismos \u00e0 discuss\u00e3o e \u00e0 liberdade atingiram um t\u00e3o elevado grau e feriram de tal modo a consci\u00eancia social e pol\u00edtica dos portugueses, mesmo dos mais moderados, incluindo nesta \u201cclassifica\u00e7\u00e3o\u201d os cat\u00f3licos, que era chegado o momento de p\u00f4r as coisas em \u201cpratos limpos\u201d. Que sucedeu ent\u00e3o?<\/p>\n<p>A Carta de Maio de 1958<\/p>\n<p>Este documento foi dirigido \u00e0 direc\u00e7\u00e3o do di\u00e1rio Novidades, perten\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica, e assinado por 28 membros da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Portuguesa, alguns deles dirigentes nacionais, com o objectivo de protestar contra a parcialidade not\u00f3ria a favor do candidato do poder estabelecido, solicitando quer \u00e0 direc\u00e7\u00e3o do jornal quer ao pr\u00f3prio Episcopado portugu\u00eas uma total isen\u00e7\u00e3o, independ\u00eancia e sentido de justi\u00e7a no tratamento das mat\u00e9rias, at\u00e9 por serem deposit\u00e1rios da important\u00edssima miss\u00e3o de esclarecer a consci\u00eancia cat\u00f3lica nacional (&#8230;) acerca dos grandes problemas da vida portuguesa.<\/p>\n<p>Este documento, importa diz\u00ea-lo, foi o \u201cembri\u00e3o\u201d que levou as gera\u00e7\u00f5es mais novas da esfera cat\u00f3lica a admitir que havia mais crit\u00e9rios solid\u00e1rios e civilizacionais para al\u00e9m dos m\u00e9todos ditatoriais do \u201cestado novo\u201d e do \u201cvelho comunismo\u201d, seguindo-se, a partir de 1959 e pelos anos 60 fora, outras atitudes marcantes como se ver\u00e1.<\/p>\n<p>O documento a que nos vimos referindo foi assinado pelos seguintes cidad\u00e3os: Ad\u00e9rito Sedas Nunes (falecido); Ana Maria Toscano; Ant\u00f3nio Al\u00e7ada Baptista; Ant\u00f3nio Freitas Leal; Ant\u00f3nio Mardel Correia (falecido); Artur Vasco Garcia; Carlos Portas; Francisco Lino Neto (falecido); Helena Sacadura Cabral; Henrique Barrilaro Ruas (falecido); Jo\u00e3o B\u00e9nard da Costa; Jo\u00e3o Gomes; Jo\u00e3o Salgueiro; Jos\u00e9 Domingos Morais; Jos\u00e9 Jorge Escada (falecido); Jos\u00e9 Pinto Correia (falecido); Lu\u00eds Ant\u00f3nio Rebelo da Silva; Manuel Chaparro; Manuel de Lucena; Manuel Serra; Manuela Silva; Maria Joana B\u00e9nard da Costa; M\u00e1rio Murteira; Nuno Bragan\u00e7a (falecido); Nuno Portas; Nuno Teot\u00f3nio Pereira e Pedro Tamen.<\/p>\n<p>Considera\u00e7\u00f5es de um Cat\u00f3lico<\/p>\n<p>sobre o Per\u00edodo Eleitoral<\/p>\n<p>Francisco Lino Neto escreve, em Junho de 1958, sobre as elei\u00e7\u00f5es informando logo no in\u00edcio que o faz a t\u00edtulo meramente pessoal, representando embora um sector cat\u00f3lico importante. Nele distingue tr\u00eas fases importantes da posi\u00e7\u00e3o dos cat\u00f3licos perante o Estado Novo: apoio de in\u00edcio em grande parte por motivos n\u00e3o religiosos (&#8230;), porque tinham sido v\u00edtimas das tend\u00eancias anti-clericais do per\u00edodo anterior; posteriormente o poder passou para as m\u00e3os de cat\u00f3licos e, na terceira fase, o Estado Novo, estabelecida a pretendida ordem nas ruas e na Administra\u00e7\u00e3o, acentuou, cada vez mais, as suas tend\u00eancias totalit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Importa deixar claro que este humanista &#8211; o Eng\u00ba Lino Neto &#8211; um dos Quadros do Metropolitano de Lisboa, foi o grande agregador de vontades que porporcionaram atitudes colectivas impens\u00e1veis, ou nada poss\u00edveis, nas d\u00e9cadas anteriores.<\/p>\n<p>A Carta de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes a Salazar<\/p>\n<p>Este importante e decisivo documento, datado de 13 de Julho de 1958, consistia num elenco de mat\u00e9rias a tratar em entrevista ou conversa que esteve aprazada entre os dois. Por\u00e9m, um conjunto de circunst\u00e2ncias, talvez ainda hoje n\u00e3o clarificadas, levou a que tal entrevista nunca tenha sido concretizada. O certo \u00e9 que o documento circulou aos milhares pelo pa\u00eds inteiro, o mal estar instalou-se, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes ausentou-se em visita ao estrangeiro e, no regresso, por ordem de Salazar, \u00e9-lhe vedada a entrada em Portugal. E assim, D. Ant\u00f3nio esteve em ex\u00edlio for\u00e7ado desde 24 de Julho de 1959 at\u00e9 18 de Junho de 1969, j\u00e1 com Marcelo Caetano no poder. <\/p>\n<p>Enquanto esteve no ex\u00edlio, participou no Conc\u00edlio Vaticano II, era ent\u00e3o Papa Jo\u00e3o XXIII &#8211; o Bom Papa Jo\u00e3o &#8211; e durante toda a d\u00e9cada de 60 consolida-se a ac\u00e7\u00e3o dos cat\u00f3licos repartida por diversas sensibilidades pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O Documento dos 45<\/p>\n<p>Datado de 1 de Mar\u00e7o de 1959 e subscrito por quarenta e cinco cidad\u00e3os, entre os quais seis padres e oito leigos que j\u00e1 haviam assinado o documento acima referido de Maio de 1958, foi dirigido ao \u201cSenhor Professor Doutor Oliveira Salazar\u201d.<\/p>\n<p>Esta carta denunciava objectivamente diferentes demandas, mentiras, atropelos e abusos praticados contra cidad\u00e3os portugueses pela pol\u00edcia pol\u00edtica, citando casos concretos, datas, nomes, jornais e revistas, em que se narraram muitos de tais eventos. Dizia-se no final da Carta: \u201cOs signat\u00e1rios esperam de V. Ex\u00aa os referidos esclarecimentos e provid\u00eancias, para tranquilidade das suas consci\u00eancias de cidad\u00e3os e crist\u00e3os e satisfa\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>Esta carta n\u00e3o teve resposta directa mas n\u00e3o ficou no sil\u00eancio. Foi movido pela PIDE um processo judicial contra os subscritores com os consequentes interrogat\u00f3rios e a movimenta\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios advogados na defesa l\u00f3gica dos subscritores. Alguns destes, detendo cargos p\u00fablicos, foram arredados dos lugares que exerciam.<\/p>\n<p>Importa ainda dizer &#8211; e nunca se levou a mal a recusa obtida em ordem \u00e0 assinatura da Carta por outros convidados &#8211; que tamb\u00e9m naqueles tempos \u201co medo guardava a vinha\u201d. Isto para dizer que n\u00e3o foi tarefa f\u00e1cil obter as 45 assinaturas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MANUEL BIDARRA Comemora-se em 2008 meio s\u00e9culo de acontecimentos relevantes, que estiveram na base de altera\u00e7\u00f5es profundas na vida social, pol\u00edtica e religiosa do pa\u00eds, porventura das mais significativas na evolu\u00e7\u00e3o p\u00e1tria da segunda metade do s\u00e9culo XX. 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