{"id":12802,"date":"2008-07-24T11:48:00","date_gmt":"2008-07-24T11:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12802"},"modified":"2008-07-24T11:48:00","modified_gmt":"2008-07-24T11:48:00","slug":"a-visao-de-paulo-tem-uma-actualidade-tremenda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-visao-de-paulo-tem-uma-actualidade-tremenda\/","title":{"rendered":"&#8220;A vis\u00e3o de Paulo tem uma actualidade tremenda&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>LU\u00cdS FILIPE SANTOS<\/p>\n<p>Bento XVI proclamou um \u201cAno Paulino\u201d (AP), para celebrar os prov\u00e1veis 2000 anos do nascimento de S\u00e3o Paulo. O AP teve in\u00edcio na Solenidade dos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo, a 29 de Junho de 2008, e  termina um ano depois. O Correio do Vouga reproduz a entrevista da Ag\u00eancia Ecclesia a D. Anacleto Oliveira, Bispo Auxiliar de Lisboa e respons\u00e1vel pelo itiner\u00e1rio catequ\u00e9tico, proposto pela Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa.<\/p>\n<p>Tendo Paulo como guia, o itiner\u00e1rio proporciona um conhecimento mais profundo do Ap\u00f3stolo e faz percorrer, durante 52 semanas, as principais etapas do caminho crist\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdS FILIPE SANTOS &#8211; Com o Ano Paulino iniciado, conseguimos descrever quem foi o Ap\u00f3stolo Paulo?<\/p>\n<p>D. ANACLETO OLIVEIRA &#8211; Em duas palavras, \u00e9 muito dif\u00edcil definir quem foi este personagem. No entanto, podemos dizer que, de todos os ap\u00f3stolos, foi aquele que mais contribuiu para a funda\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o da Igreja e do cristianismo.<\/p>\n<p>Um ap\u00f3stolo fulcral que deixou uma Teologia dif\u00edcil e com alguma novidade?<\/p>\n<p>A maior novidade reside na atribui\u00e7\u00e3o \u2013 contribui\u00e7\u00e3o \u2013 para que a figura de Jesus Cristo ganhasse a dimens\u00e3o universal que j\u00e1 estava inerente \u00e0 sua pr\u00f3pria figura. Paulo deu um contributo fundamental para que o cristianismo \u2013 sem perder as suas ra\u00edzes judaicas \u2013 fosse espalhado a todos.<\/p>\n<p>Paulo foi o ap\u00f3stolo do querigma (an\u00fancio) ou do aprofundamento da mensagem?<\/p>\n<p>Das duas coisas&#8230; \u00e9 impens\u00e1vel uma sem a outra. O querigma era comum a todos, mas o que \u00e9 caracter\u00edstico dele \u2013 situa-o logo na sua voca\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 o an\u00fancio do Evangelho aos pag\u00e3os. Vem expresso claramente na \u00abCarta aos G\u00e1latas\u00bb, quando escreve a sua voca\u00e7\u00e3o e diz que foi eleito para anunciar o Evangelho aos gentios.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou na estrada de Damasco&#8230; Um local simb\u00f3lico?<\/p>\n<p>Os \u00abActos dos Ap\u00f3stolos\u00bb exploram essa dimens\u00e3o. Este livro do Novo Testamento descreve o cristianismo como uma expans\u00e3o e usa muito o s\u00edmbolo do caminho. J\u00e1 o Evangelho de S. Lucas relata Jesus a caminho de Jerusal\u00e9m&#8230; E depois a expans\u00e3o do cristianismo \u00e0 sua dimens\u00e3o universal. A ida para Damasco caracteriza a caminhada de Paulo. Da\u00ed para a frente foi uma caminhada incans\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sendo o cristianismo um caminho, Paulo foi um principais desbravadores desse caminho.<\/p>\n<p>S. Paulo, mais do que dar um sentido a esse caminho (isso \u00e9 comum a outros escritos no Novo Testamento), realizou isso que estava inerente \u00e0 dimens\u00e3o de Cristo como caminho. O pr\u00f3prio Evangelho de S. Jo\u00e3o desenvolveu-se nessa perspectiva: o cristianismo de S. Jo\u00e3o come\u00e7a na Palestina e expande-se&#8230; Ali\u00e1s, pensa-se que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima entre as comunidades joaninas e as comu-nidades iniciais (os \u00abActos dos Ap\u00f3stolos\u00bb chamam-lhe de helenistas). <\/p>\n<p>No entanto, Paulo foi um ap\u00f3stolo diferente porque n\u00e3o caminhou com o Mestre.<\/p>\n<p>O grande momento da sua vida n\u00e3o foi o acompanhar Jesus durante a sua vida p\u00fablica, mas a apari\u00e7\u00e3o de Cristo Ressuscitado. Neste aspecto h\u00e1 uma base comum entre os outros ap\u00f3stolos e S. Paulo. Ele teve adver-s\u00e1rios durante toda a sua vida e al-guns quiseram negar-lhe a sua con-di\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. Ele defende-a com base na apari\u00e7\u00e3o de Cristo Ressusci-tado. E diz com frequ\u00eancia que n\u00e3o fica nada atr\u00e1s dos outros. Com uma certa ironia, chega a dizer que trabalhou mais que os outros.<\/p>\n<p>Como biblista, acha que ele trabalhou mais que os outros?<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil porque n\u00e3o temos dados hist\u00f3ricos sobre os outros. O Novo Testamento, neste aspecto, deixa-nos um vazio. N\u00e3o se pode comparar&#8230; Mas, no Novo Testa-mento, ele aparece a fazer mais do que os outros. Historicamente, n\u00e3o o podemos afirmar.<\/p>\n<p>\u00c9 o ap\u00f3stolo da luz?<\/p>\n<p>Ele utiliza muito a simbologia da luz. S. Lucas explora isso muito na descri\u00e7\u00e3o que faz da apari\u00e7\u00e3o de Cristo Ressuscitado. O pr\u00f3prio S. Paulo \u2013 concretamente na II Carta aos Cor\u00edntios \u2013 apresenta a sua convers\u00e3o e voca\u00e7\u00e3o com a imagem da luz.<\/p>\n<p>Sem esquecer o lado guerreiro. Na iconografia aparece muitas vezes com uma espada\u2026<\/p>\n<p>Isso s\u00e3o aspectos iconogr\u00e1ficos, mas ele foi um homem de combate. Durante toda a sua vida, ele combateu contra tudo e contra todos. At\u00e9 combateu contra os crist\u00e3os. O resto da sua vida apost\u00f3lica foi um combate cont\u00ednuo contra as contrariedades (sobretudo dos judeus e pag\u00e3os). Mesmo dentro do cristianismo teve muitos advers\u00e1rios, inclusivamente figuras de proa. S. Tiago foi declaradamente uma figura advers\u00e1ria de S. Paulo. Desse conflito entre eles fez-se luz&#8230; S. Pedro tamb\u00e9m teve problemas com S. Paulo e chegaram a cortar rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o existia coincid\u00eancia, mais no modo de agir do que, propriamente, no modo de pensar. S. Paulo passou a vida inteira a combater. E acabou por ser v\u00edtima desse combate, morreu por causa disso.<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o secundarizou a figura de Paulo?<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria do cristianismo, de certo modo sim. Depois da morte dos ap\u00f3stolos houve, de facto, um movimento dentro da igreja no sentido de unir as duas figuras. No final do s\u00e9culo I aparecem as duas figuras juntas. S. Clemente Romano faz uma refer\u00eancia clara aos dois juntos, aos dois no pr\u00f3prio mart\u00edrio. Foram duas figuras fundamentais na base do cristianismo. No entanto, inicialmente, o leque era mais alargado. Pensa-se que havia pelo menos quatro correntes na vis\u00e3o do cristianismo. De certo modo, Pedro e Paulo encabe\u00e7avam as duas correntes centrais. Estas impuseram-se e as correntes mais laterais acabaram por desaparecer. Com o desenvolvimento do cristianismo, muitas delas deram em heresia.<\/p>\n<p>Nos tempos que correm \u00e9 f\u00e1cil ou dif\u00edcil dialogar com a Teologia Paulina?<\/p>\n<p>Estou convencido que \u00e9 f\u00e1cil. Pelo menos, no livro, procuro facilitar os cont\u00e9udos de Paulo. As cartas de S. Paulo s\u00e3o extremamente densas e s\u00e3o dif\u00edceis de compreender. <\/p>\n<p>Nota-se que o pensamento de Paulo sofreu uma evolu\u00e7\u00e3o o que torna a compreens\u00e3o mais dif\u00edcil. Ali\u00e1s, a pr\u00f3pria II Carta de S. Pedro \u2013 pensa-se que foi o \u00faltimo escrito do Novo Testamento \u2013 diz que as Cartas de S. Paulo s\u00e3o dif\u00edceis de entender. Na altura, j\u00e1 davam azo a interpreta\u00e7\u00f5es diversas e, nalguns casos, opostas. <\/p>\n<p>\u201cEstudei S\u00e3o Paulo para compensar uma lacuna na minha forma\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>O autor deste livro \u00e9 um apaixonado pela Teologia Paulina?<\/p>\n<p>Muito. Tudo come\u00e7ou por causa de uma falha na minha Forma\u00e7\u00e3o Teol\u00f3gica, em Portugal. N\u00e3o tive esta cadeira. Senti a necessidade de compensar esta lacuna e, em Roma, tive oportunidade de aprofundar a Teologia Paulina. Quando fiz a tese de doutoramento \u2013 entre os diversos temas sugeridos \u2013 apareciam dois ou tr\u00eas de S. Paulo. N\u00e3o tive d\u00favidas e agarrei um deles. Foram dez anos de estudo sobre S. Paulo. Sei que estou marcado por ele. Felizmente.<\/p>\n<p>Que fase da vida de S. Paulo o marcou mais?<\/p>\n<p>Foram todas. N\u00e3o podemos estudar uma fase isolada. A minha tese de doutoramento foi ao \u00e2mago de S. Paulo. Tratou da no\u00e7\u00e3o de apostolado em S. Paulo sobre uma dupla nomenclatura: a diaconia da justi\u00e7a e noutro lado a diaconia da reconcilia\u00e7\u00e3o. A\u00ed, ele exp\u00f5e a sua convers\u00e3o e a sua voca\u00e7\u00e3o. Durante o meu estudo debrucei-me mais nas cartas Protopaulinas. Ap\u00f3s a conclus\u00e3o do doutoramento comecei a debru\u00e7ar-me mais nas Deuteropaulinas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 um bispo mais Paulino e menos Petrino?<\/p>\n<p>N\u00e3o. A figura de S. Pedro \u00e9 muito simp\u00e1tica. Quando havia desacordo entre eles, S. Paulo trata-o de forma violenta, quase ofensiva. No entanto, Paulo tamb\u00e9m apresenta Pedro como uma figura de refer\u00eancia. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LU\u00cdS FILIPE SANTOS Bento XVI proclamou um \u201cAno Paulino\u201d (AP), para celebrar os prov\u00e1veis 2000 anos do nascimento de S\u00e3o Paulo. O AP teve in\u00edcio na Solenidade dos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo, a 29 de Junho de 2008, e termina um ano depois. O Correio do Vouga reproduz a entrevista da Ag\u00eancia Ecclesia a D. 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