{"id":12929,"date":"2008-09-12T15:44:00","date_gmt":"2008-09-12T15:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12929"},"modified":"2008-09-12T15:44:00","modified_gmt":"2008-09-12T15:44:00","slug":"a-enciclica-da-revolucao-industrial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-enciclica-da-revolucao-industrial\/","title":{"rendered":"A enc\u00edclica da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial"},"content":{"rendered":"<p>Grandes Documentos da Doutrina Social &#8211; Rerum Novarum (1) <!--more--> Ao longo das pr\u00f3ximas semanas, intercalando com a \u201cB\u00edblia em perguntas e respostas\u201d, apresentam-se nesta p\u00e1gina 16 artigos sobre as oito enc\u00edclicas sociais: Rerum Novarum (1891), Quadragesino Anno (1931), Mater et Magistra (1961), Pacem in Terris (1963), Populorum Progressio (1967), Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e Centesimus Annus (1991).<\/p>\n<p>Charles Dickens escreve em 1854 no romance \u201cTempos Dif\u00edceis\u201d: \u201cSeguramente, nunca houve porcelana mais fr\u00e1gil do que aquela de que eram feitos os industriais de Coketown&#8230; Ficavam arruinados se se lhes pedia para mandar as crian\u00e7as oper\u00e1rias \u00e0 escola, ficavam arruinados quando eram designados inspectores para visitarem as suas f\u00e1bricas, ficavam arruinados se estes mesmos inspectores consideravam duvidoso que tivessem direito a cortar as pessoas aos bocados com as suas m\u00e1quinas, ficavam completamente arruinados se se insinuava que talvez nem sempre precisassem de fazer tanto fumo\u201d.<\/p>\n<p>Coketown \u00e9 um nome fict\u00edcio. Trata-se da t\u00edpica cidade industrial inglesa do s\u00e9c. XIX. Provavelmente nenhum autor como Charles Dickens soube escrever t\u00e3o bem as consequ\u00eancias sociais da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial: condi\u00e7\u00f5es de vida miser\u00e1veis nas cidades, explora\u00e7\u00e3o do trabalhador, crian\u00e7as enviadas para orfanatos (quando ainda n\u00e3o podiam estar na f\u00e1brica), luxo e arrog\u00e2ncia para a alta burguesia. Os sal\u00e1rios eram baixos, havia trabalho infantil em grande escala (nas minas, as crian\u00e7as podiam passar por galerias mais pequenas), os hor\u00e1rios de trabalho podiam ser de 18 horas, abundavam os castigos f\u00edsicos, n\u00e3o havia direitos de f\u00e9rias, descanso semanal, aux\u00edlio no desemprego. A conquista dos direitos \u00e9 lenta e com muitos m\u00e1rtires.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (RI), iniciada na segunda metade do s\u00e9c. XVIII, na Inglaterra, com a mecaniza\u00e7\u00e3o dos t\u00eaxteis, a explora\u00e7\u00e3o mineira em grande escala e o caminho-de-ferro, alastra-se a outros pa\u00edses e transforma por completo a vida das pessoas (a Portugal s\u00f3 chegou no s\u00e9c. XX; e o processo repete-se hoje no Extremo Oriente). Algumas consequ\u00eancias: a casa deixa de ser o local de trabalho (como era desde a Idade M\u00e9dia) para ser a f\u00e1brica; as cidades crescem (Londres \u00e9 a primeira cidade moderna a ultrapassar um milh\u00e3o de habitantes porque \u00e9 poss\u00edvel l\u00e1 fazer chegar, por comboio, todos os dias, alimentos frescos); a fam\u00edlia deixa de ser alargada e passa a nuclear; a mulher, trabalhando, torna-se aut\u00f3noma; os bens s\u00e3o produzidos e consumidos em massa; o calend\u00e1rio passa a ser gerido em fun\u00e7\u00e3o do trabalho (as f\u00e9rias s\u00e3o um fruto da RI)\u2026 Hoje, os nossos costumes s\u00e3o, ainda, claramente fruto da RI, mais do que da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789.<\/p>\n<p>Se Dickens descreve a sociedade, outros autores, naquela \u00e9poca, avan\u00e7avam j\u00e1 para a interpreta\u00e7\u00e3o e solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Karl Marx e Friedrich Engels escrevem em 1848 o \u201cManifesto do Partido Comunista\u201d (MPC), que termina com o c\u00e9lebre apelo: \u201cTrabalhadores de todo o mundo, uni-vos!\u201d<\/p>\n<p>O MPC teve um efeito inebriante junto de muitos trabalhadores. Ainda hoje, mesmo sabendo dos efeitos catastr\u00f3ficos que a aplica\u00e7\u00e3o das teses marxistas viria a ter nos pa\u00edses de Leste (principalmente a ditadura do proletariado, a luta de classes, o materialista dial\u00e9ctico, a aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada\u2026 pela via leninista), que n\u00e3o estavam industrializados (da\u00ed a jun\u00e7\u00e3o da foice dos agricultores ao martelo dos prolet\u00e1rios), \u00e9 f\u00e1cil ceder \u00e0 explica\u00e7\u00e3o marxista da hist\u00f3ria, interpretada como uma luta entre exploradores e explorados, ente capital e trabalhadores.<\/p>\n<p>\u201cO oper\u00e1rio torna-se um mero acess\u00f3rio da m\u00e1quina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais mon\u00f3tono, mais f\u00e1cil de aprender. (\u2026) Massas de oper\u00e1rios, comprimidos na f\u00e1brica, s\u00e3o organizadas como soldados. S\u00e3o colocadas, como soldados rasos da ind\u00fastria, sob a vigil\u00e2ncia de uma hierarquia completa de oficiais subalternos e oficiais\u201d, escrevem Marx e Engels no MPC.<\/p>\n<p>A Igreja apercebe-se \u2013 com atraso, dizem alguns \u2013 que \u201cos acontecimentos ligados \u00e0 RI subverteram a secular organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, levantando graves problemas de justi\u00e7a e pondo a primeira grande quest\u00e3o social, a \u00abquest\u00e3o oper\u00e1ria\u00bb, suscitada pelo conflito entre capital e trabalho\u201d (Comp\u00eandio de Doutrina Social da Igreja, Ed. Princ\u00edpia, n. 88). Fala-se ent\u00e3o da \u201cres novae\u201d (realidade nova). \u00c9 necess\u00e1rio \u201cum renovado discernimento da situa\u00e7\u00f5es, apto a delinear solu\u00e7\u00f5es apropriadas para problemas ins\u00f3litos e inexplorados\u201d (CDSI, 88). <\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que surge a enc\u00edclica Rerum Novarum (\u201cDas coisas novas\u201d), de Le\u00e3o XIII, em 1891, que escreve logo na primeira p\u00e1gina: \u201cOs progressos incessantes da ind\u00fastria, os novos caminhos em que entraram as artes, a altera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre os oper\u00e1rios e os patr\u00f5es, a influ\u00eancia da riqueza nas m\u00e3os dum pequeno n\u00famero ao lado da indig\u00eancia da multid\u00e3o, a opini\u00e3o enfim mais avantajada que os oper\u00e1rios formam de si mesmos e a sua uni\u00e3o mais compacta, tudo isto, sem falar da corrup\u00e7\u00e3o dos costumes, deu em resultado final um tem\u00edvel conflito\u201d (RN, 1).<\/p>\n<p>E antes <\/p>\n<p>da Rerum Novarum?<\/p>\n<p>A Rerum Novarum \u00e9 um ponto de partida, mas n\u00e3o parte do zero. Padres, bispos, crist\u00e3os dedicam-se \u00e0 pastoral dos oper\u00e1rios. Em Fran\u00e7a, Albert de Mun (1841-1914) cria a Obra dos C\u00edrculos. Na Alemanha, Ketteler de Mog\u00fancia (1811-1877) interv\u00e9m no sentido de reformas como a limita\u00e7\u00e3o das horas de trabalho, o descanso dominical, a participa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios nos lucros e a d\u00e1diva de uma pens\u00e3o \u00e0s m\u00e3es que ficam em casa. Tamb\u00e9m neste pa\u00eds, o Padre Adolph Kolping (1813-1865) funda centros de conv\u00edvio de jovens oper\u00e1rios. Em Inglaterra, o cardeal Manning arbitra a greve dos estivadores de Londres (1889). Em Sydney, Austr\u00e1lia, o cardeal Moran (1830-1911) convida os cat\u00f3licos a aderirem aos sindicatos.<\/p>\n<p>Datas<\/p>\n<p>1764 \u2013 James Hargreaves inventa a roda de fiar que faz o trabalho de 24 trabalhadores<\/p>\n<p>1776 \u2013 Adam Smith (1723-1800) publica \u201cInqu\u00e9rito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Na\u00e7\u00f5es\u201d<\/p>\n<p>1779 \u2013 James Watts inventa a m\u00e1quina a vapor<\/p>\n<p>1789 \u2013 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa<\/p>\n<p>1807 \u2013 Barco a Vapor<\/p>\n<p>1822 \u2013 Locomotiva<\/p>\n<p>1830 \u2013 George Stephenson inicia o transporte ferrovi\u00e1rio entre Liverpool e Londres<\/p>\n<p>1848 \u2013 \u201cManifesto do Partido Comunista\u201d, por Karl Marx e Friedrich Engels<\/p>\n<p>1867 \u2013 Primeiro volume de \u201cO Capital\u201d, de Karl Marx<\/p>\n<p>1886 \u2013 (1 de Maio) \u2013 Milhares de trabalhadores saem \u00e0 rua em Chicago<\/p>\n<p>1889 \u2013 (1 de Maio) Come\u00e7a-se a comemorar o Dia Mundial do Trabalhador<\/p>\n<p>1891 \u2013 Le\u00e3o XIII publica a Rerum Novarum<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grandes Documentos da Doutrina Social &#8211; Rerum Novarum (1)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-12929","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12929"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12929\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}