{"id":12975,"date":"2008-11-06T17:05:00","date_gmt":"2008-11-06T17:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12975"},"modified":"2008-11-06T17:05:00","modified_gmt":"2008-11-06T17:05:00","slug":"a-doutrina-social-da-igreja-e-a-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-doutrina-social-da-igreja-e-a-crise\/","title":{"rendered":"A Doutrina Social da Igreja e a crise"},"content":{"rendered":"<p>1. Nestes tempos de crise vale a pena revisitar a Doutrina Social da Igreja (DSI) e reler impor-tantes enc\u00edclicas desde a Rerum Novarum, de Le\u00e3o XIII, sobre a quest\u00e3o oper\u00e1ria, \u00e0 Populorum Progressio, de Paulo VI, sobre os novos desafios do desenvolvimento ou \u00e0 Laborem Exeercens, de Jo\u00e3o Paulo II, sobre as rela\u00e7\u00f5es no mundo do trabalho.<\/p>\n<p>A DSI n\u00e3o \u00e9 uma ideologia, n\u00e3o prop\u00f5e programas pol\u00edticos e econ\u00f3micos, nem manifesta prefer\u00eancias partid\u00e1rias. Nem sequer constitui uma formula\u00e7\u00e3o ou teoria econ\u00f3mica ou uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo. Antes procura oferecer \u00e0 sociedade universal, \u00e0 sociedade das pessoas de boa vontade, princ\u00edpios de reflex\u00e3o e de ac\u00e7\u00e3o tendo a pessoa humana como centro e sujeito.<\/p>\n<p>No plano da vida econ\u00f3mica e social, o princ\u00edpio fundamental \u00e9 o princ\u00edpio da centralidade e dignidade da pessoa humana, princ\u00edpio, fim e sujeito de todas as institui\u00e7\u00f5es. Associado a estes princ\u00edpios est\u00e1 o direito \u00e0 propriedade privada mediante o trabalho, mas que n\u00e3o sendo absoluto e intoc\u00e1vel est\u00e1 subordinado ao direito ao uso comum. Logo, a proprie-dade privada \u00e9 um meio, n\u00e3o um fim. Desempenhando uma insubstitu\u00edvel fun\u00e7\u00e3o social, da\u00ed decorre que sobre ela impenda o que na DSI se chama uma verdadeira e justificada \u201chipoteca social\u201d. Claro est\u00e1 que nos tempos de hoje h\u00e1 que reler este princ\u00edpio \u00e0 luz das novas formas de propriedade do conhecimento, de novos recur-sos t\u00e9cnicos e da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>2. Para al\u00e9m de todas as raz\u00f5es de natureza econ\u00f3mica, empresa-rial e pol\u00edtico-institucional que possam explicar t\u00e3o grave crise, \u00e9 manifesto que acima dessas raz\u00f5es instrumentais est\u00e1 uma grave eros\u00e3o \u00e9tica, de valores, que assola as sociedades e o mundo dos neg\u00f3cios e contribui para esta desordem. <\/p>\n<p>O relativismo e o minimalismo \u00e9ticos em que as sociedades mergulharam acabam por diluir a distin\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal, por amolecer as consci\u00eancias, por fazer germinar e propagar a indiferen\u00e7a. \u00c9 tamb\u00e9m o relativismo que faz tanta gente consumir-se no consumismo e na obsess\u00e3o da troca, que corrompe almas por troca com uma qualquer mordomia. \u00c9 ainda o relativismo que promove a estat\u00edstica \u00e0 categoria de m\u00e3e de todas as an\u00e1lises frias e racionais, que igualiza, moralmente, fins e meios. Um relativismo, por fim, que idolatra e transforma em \u00edcones a copiar, os \u201cvencedores\u201d seja nos neg\u00f3cios, no desporto, na pol\u00edtica, na comunica\u00e7\u00e3o social, mas que ignora os \u201cperde-dores\u201d entre os quais est\u00e3o os pobres, os velhos, os s\u00f3s, os que n\u00e3o t\u00eam voz, os que n\u00e3o consomem.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, nas empresas \u00e9 premiado o arrivismo, o mediatismo inconsequente, a vis\u00e3o de curto-prazo. Como na pol\u00edtica onde em geral se governa a olhar para umas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es e n\u00e3o para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, na vida das empresas o gestor passou a olhar t\u00e3o-somente para o seu curto mandato com a preocupa\u00e7\u00e3o de maximizar resultados, arrecadar pr\u00e9mios de gest\u00e3o, ter boa imagem medi\u00e1tica, mesmo que toda essa vis\u00e3o imediata e t\u00e1ctica prejudique a perspectiva de mais longo prazo e estrat\u00e9gica da vida da empresa. <\/p>\n<p>3. Para se ver a actualidade da DSI, transcrevo, a t\u00edtulo de exemplo perante t\u00e3o vasto legado, pequenos excertos de v\u00e1rios textos e Enc\u00edclicas que parecem escritas para os dias por que passamos.<\/p>\n<p>Da Enc\u00edclica Centesimus Annus, de Jo\u00e3o Paulo II (1991):<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o se podem negar as vantagens do mercado, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se podem ignorar as suas limita\u00e7\u00f5es, e muito menos cair numa \u201cidolatria\u201d do mercado.\u00bb<\/p>\n<p>Do Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz (2004):<\/p>\n<p>\u00abA mobilidade tamb\u00e9m aumentou o risco de crises financeiras. Se as transac\u00e7\u00f5es financeiras superam largamente, em volume, as transac\u00e7\u00f5es reais, corre-se o risco de seguir uma l\u00f3gica voltada para si mesma, sem conex\u00e3o com a base real da economia. Uma economia financeira cujo fim \u00e9 ela pr\u00f3pria est\u00e1 destinada a contradizer os seus fins.\u00bb<\/p>\n<p>Da Enc\u00edclica Quadragesimo Anno, de Pio XI (1931) escrita no rescaldo da Grande Depress\u00e3o:<\/p>\n<p>\u00abA vida econ\u00f3mica \u00e9 juntamente social e moral (\u2026) \u00c9 coisa manifesta que nos nossos tempos n\u00e3o s\u00f3 se amontoam riquezas, se acumula um poder imenso e um verdadeiro despotismo econ\u00f3mico nas m\u00e3os de poucos que as mais das vezes s\u00e3o simples deposit\u00e1rios e administradores de capitais alheios, com que negoceiam a seu talante. Este despotismo torna-se intoler\u00e1vel naqueles que, tendo nas m\u00e3os o dinheiro, s\u00e3o tamb\u00e9m senhores absolutos do cr\u00e9dito e por isso disp\u00f5em do sangue e que vive toda a economia (\u2026).\u00bb<\/p>\n<p>Este acumular de poderio e recursos, nota caracter\u00edstica da economia actual, \u00e9 consequ\u00eancia l\u00f3gica da concorr\u00eancia desenfreada, \u00e0 qual s\u00f3 podem sobreviver os mais fortes, isto \u00e9 os mais violentos competidores e que menos sofrem de escr\u00fapulos de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Mudam os tempos e os meios, mas permanecem as grandes quest\u00f5es.<\/p>\n<p>A DSI &#8211; embora \u00e0s vezes esquecida e at\u00e9 ignorada no seio da Igreja e dos crist\u00e3os &#8211; responde profunda e actualizadamente aos problemas e desafios de hoje e de amanh\u00e3. Por que esperam os crist\u00e3os para com o seu exemplo fundado neste patrim\u00f3nio universal que \u00e9 a DSI fazer esta revolu\u00e7\u00e3o que \u00e9 antes de mais espiritual e \u00e9tica? <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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