{"id":12980,"date":"2008-11-06T17:13:00","date_gmt":"2008-11-06T17:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=12980"},"modified":"2008-11-06T17:13:00","modified_gmt":"2008-11-06T17:13:00","slug":"democracia-projecto-parado-ou-lentidao-interessada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/democracia-projecto-parado-ou-lentidao-interessada\/","title":{"rendered":"Democracia, projecto parado ou lentid\u00e3o interessada?"},"content":{"rendered":"<p>Um passo democr\u00e1tico positivo dado nos \u00faltimos dias foi, sem d\u00favida, o alargamento da representa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria na assembleia regional dos A\u00e7ores, com a alegria de se votar livremente. Sempre que haja mais vozes a ouvir-se, desde que o bem do povo a\u00e7oriano seja o interesse de quem fala, a democracia aparece como benef\u00edcio de todos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 bela sem sen\u00e3o\u201d e mais de 50% de absten\u00e7\u00f5es, em dia de sol, \u00e9 de mais. Amanh\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o se falar\u00e1 disso, mas o facto provoca interroga\u00e7\u00f5es \u00e0 espera de resposta. Nenhum partido pode cantar vit\u00f3ria, e muito menos o que governa com maioria, quando cresce o desinteresse do povo por um acto central do regime democr\u00e1tico. Assim nos A\u00e7ores, no continente, em qualquer autarquia. <\/p>\n<p>L\u00e1 e c\u00e1, o povo que, no seu conjunto, festejou a liberdade do voto e o acesso alargado \u00e0s urnas, quando se omite, n\u00e3o age sem raz\u00f5es. H\u00e1 que tentar perceb\u00ea-las. Muitas se devem, por certo, ao modo como se vive a pol\u00edtica partid\u00e1ria e como actuam os seus profissionais neste jogo habitualmente, mais ainda por altura de elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode deitar a culpa s\u00f3 para o comodismo e da irresponsabilidade c\u00edvica dos faltosos, embora tamb\u00e9m estes existam em muitos casos. O facto, por\u00e9m, tem mais a ver com o comportamento dos pol\u00edticos da ribalta e dos que lhes fazem corte, pelo modo como se relacionam uns com os outros, pelos objectivos porque se batem, pela escandalosa contradi\u00e7\u00e3o nas suas palavras, atitudes e ju\u00edzos, consoante se est\u00e1 no governo ou na oposi\u00e7\u00e3o. Tem a ver com a argumenta\u00e7\u00e3o usada para se defenderem e acusarem mutuamente, e com a mem\u00f3ria parada no tempo, que apenas se gasta a vasculhar o que se disse h\u00e1 anos ou se fez h\u00e1 d\u00e9cadas, para disso fazer arma de arremesso com o g\u00e1udio das suas claques. Tem a ver com o malabarismo de uma linguagem com sorrisos, que responde sobre alhos quando se falou de bugalhos. Tem a ver com a mentira com a apar\u00eancia de verdade, que tanto se cultiva no jogo da pol\u00edtica partid\u00e1ria, de modo a j\u00e1 se dizer que n\u00e3o \u00e9 bom pol\u00edtico quem n\u00e3o sabe mentir. <\/p>\n<p>Gostava de ver profissionais competentes, psic\u00f3logos, psiquiatras, soci\u00f3logos e gente de bom senso e sensibilidade agu\u00e7ada, a estudarem, a s\u00e9rio, os comportamentos p\u00fablicos dos pol\u00edticos e dos seus fan\u00e1ticos partid\u00e1rios, que aguardam vez e lugar remunerado no palco de um regime de favores.<\/p>\n<p>O povo n\u00e3o \u00e9 est\u00fapido, nem desinteressado do que lhe diz respeito. Apenas vai deixando de acreditar e, pelo alheamento das elei\u00e7\u00f5es, mostra o cart\u00e3o vermelho ao tr\u00e2nsito mal encaminhado e empurrado para um beco escuro e sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>A democracia exige uma educa\u00e7\u00e3o adequada para a sua pr\u00e1tica e para a sua viv\u00eancia social, coisa que n\u00e3o se vem fazendo. Ao contr\u00e1rio, criam-se ou permitem-se condi\u00e7\u00f5es para que n\u00e3o se chegue l\u00e1 ou se chegue, por empurr\u00e3o, daqui a um s\u00e9culo. O povo perde, mas h\u00e1 sempre algu\u00e9m que ganha, por um tempo, tamb\u00e9m ele passageiro. <\/p>\n<p>A absten\u00e7\u00e3o \u00e0s urnas pode ser corrigida com leis objectivas e sensatas, mas s\u00f3 ser\u00e1 vencida com uma pr\u00e1tica democr\u00e1tica digna dos respons\u00e1veis partid\u00e1rios. O caminho da democracia n\u00e3o se faz a aliciar o povo e a prometer-lhe o que n\u00e3o se pode dar, nem a dizer o que lhe agrada e a calar-lhe a verdade. Faz-se a esclarecer, a informar correctamente, a ajudar a crescer no sentido cr\u00edtico e no uso correcto da liberdade, a criar condi\u00e7\u00f5es e a dar testemunho de respeito pela diferen\u00e7a, a n\u00e3o fazer dos contr\u00e1rios inimigos a abater, mas cidad\u00e3os a acolher pelo contributo que podem e devem dar \u00e0 causa p\u00fablica. Prestigiar a ac\u00e7\u00e3o politica \u00e9 caminho certo para construir a democracia. <\/p>\n<p>As maiorias traduzem-se por responsabilidade mais acrescida, nunca por orgulho que menospreza os vencidos. Numa democracia todos fazem falta e todos t\u00eam lugar. O povo n\u00e3o se abst\u00e9m sem raz\u00e3o, nem desiste de ser ele quem mais ordena. Alguns pol\u00edticos j\u00e1 assim entenderam. Para outros, a li\u00e7\u00e3o n\u00e3o cola e preferem o papel de vendedor de feira. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um passo democr\u00e1tico positivo dado nos \u00faltimos dias foi, sem d\u00favida, o alargamento da representa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria na assembleia regional dos A\u00e7ores, com a alegria de se votar livremente. Sempre que haja mais vozes a ouvir-se, desde que o bem do povo a\u00e7oriano seja o interesse de quem fala, a democracia aparece como benef\u00edcio de todos. 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