{"id":13057,"date":"2008-09-12T16:28:00","date_gmt":"2008-09-12T16:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13057"},"modified":"2008-09-12T16:28:00","modified_gmt":"2008-09-12T16:28:00","slug":"ha-focos-de-desumanismo-na-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ha-focos-de-desumanismo-na-escola\/","title":{"rendered":"&#8220;H\u00e1 focos de desumanismo na escola&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u201cH\u00e1 muitos focos de desumanismo na escola\u201d, afirma Vasco Pinto de Magalh\u00e3es, padre jesu\u00edta, que considera que os professores crist\u00e3os podem propor uma contracultura que seja \u201calternativa a uma cultura individualista, pessimista, pragmatista, consumista\u201d. O Correio do Vouga falou com o padre jesu\u00edta que orientou um encontro com professores crist\u00e3os, em Aveiro, no final do ano lectivo passado. O in\u00edcio de um novo ano lectivo \u00e9 a melhor altura para divulgar esta entrevista.<\/p>\n<p>Autor de diversos livros de reflex\u00e3o crist\u00e3 e espiritualidade, Vasco Pinto de Magalh\u00e3es nasceu em 1941 e entrou na Companhia de Jesus em 1965, ap\u00f3s ter estudado no Instituto Superior T\u00e9cnico, onde se destacava como jogador de rugby. \u00c9 licenciado em Filosofia pela Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa (Braga) e em Teologia Espiritual pela Universidade Gregoriana (Roma). Presen\u00e7a ass\u00eddua na R\u00e1dio Renascen\u00e7a e com frequ\u00eancia convidado para a TV, Vasco Pinto de Magalh\u00e3es vive no Porto e dedica-se \u00e0 pastoral universit\u00e1ria, \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o da catequese e \u00e0 direc\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; A escola est\u00e1 desumanizada ?<\/p>\n<p>Vasco Pinto de Magalh\u00e3es \u2013 Est\u00e1. H\u00e1 muitos focos de desumanismo na escola: por que h\u00e1 pessimismo, h\u00e1 viol\u00eancia, h\u00e1 incompet\u00eancia. O desumanismo pode assumir muitas formas.<\/p>\n<p>Uma escola desumanizada \u00e9 exactamente o contr\u00e1rio daquilo que devia ser\u2026<\/p>\n<p>Claramente, porque a pedagogia, em si mesma, \u00e9 humaniza\u00e7\u00e3o. A verdadeira pedagogia j\u00e1 \u00e9 humaniza\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 desenvolver a pessoa, ajudar a torn\u00e1-la mais capaz de se responsabilizar por si pr\u00f3pria, pelos seus parceiros sociais e pelo futuro.<\/p>\n<p>Falar de humaniza\u00e7\u00e3o, no contexto escolar, n\u00e3o se trata de uma coisa para al\u00e9m da pedagogia.<\/p>\n<p>O panorama das escolas \u00e9 muito negativo?<\/p>\n<p>Certamente que n\u00e3o. Falei aos professores de uma escola massificada, feita supermercado, em que se vive muitas vezes sob o imp\u00e9rio do medo e em tens\u00e3o permanente. Mas dei alguns exemplos que contrariam isso. Em alguns s\u00edtios, os professores s\u00e3o capazes de dialogar e de promover coisas com consist\u00eancia e reflex\u00e3o cr\u00edtica. Posso dar como exemplo uma escola onde estive a fazer um trabalho sobre educa\u00e7\u00e3o da sexualidade promovido por professores que n\u00e3o eram da \u00e1rea da Moral. Atrav\u00e9s das suas v\u00e1rias disciplinas mobilizaram-se para fazer um debate que arrastou v\u00e1rios anos \u2013 10.\u00ba, 11.\u00ba e 12.\u00ba. Isto foi numa escola p\u00fablica, com resultados muito positivos.<\/p>\n<p>Disse neste encontro, a certa altura, que os professores deviam promover uma contracultura. O que se entende por isso?<\/p>\n<p>Contracultura n\u00e3o \u00e9 anticultura. N\u00e3o \u00e9 andar contra a corrente, mas \u00e9 apresentar alternativas a uma cultura que \u00e9 individualista, pessimista, pragmatista, consumista. Disse que a escola estava cheia desta cultura e que aos mi\u00fados apareciam na escola desde o princ\u00edpio com valores de uma pseudocultura, que se caracteriza pela procura da posse, do poder e do prazer. S\u00e3o os grandes elementos de felicidade que hoje se difundem e que est\u00e3o no subconsciente de toda a miudagem e tamb\u00e9m dos professores.<\/p>\n<p>A contracultura de que fala \u00e9, ent\u00e3o, uma alternativa \u00e0 cultura dominante\u2026<\/p>\n<p>A contracultura \u00e9 a capacidade de apresentar alternativas. Sugeri que, em cada escola, cada um encontrasse os tr\u00eas valores e ideais promotores de felicidade que pudessem corrigir esta pseudo felicidade que tem este trip\u00e9 individualista e desagregador (posse, poder, prazer). Sugeri tr\u00eas t\u00f3picos para pensarem: a realiza\u00e7\u00e3o pessoal, a autonomia e a paz.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que cada professor, no contacto que tem com os alunos, pode provocar a mudan\u00e7a? <\/p>\n<p>Cada professor tem de se interrogar: \u201cEm que medida \u00e9 que eu mesmo, na Matem\u00e1tica, no Ingl\u00eas, na Hist\u00f3ria, sou capaz de ser o promotor disto que \u00e9 o humanismo, um humanismo que n\u00e3o \u00e9 o da cultura actual que \u00e9 individualista e desagregante, p\u00f3s-moderna\u2026\u201d \u201cComo \u00e9 que passam atrav\u00e9s de cada disciplina, com algum fasc\u00ednio, os valores que humanizam: a minha realiza\u00e7\u00e3o pessoal n\u00e3o individualista, a minha autonomia e a minha capacidade de me responsabilizar por um mundo pac\u00edfico, justo, pela justi\u00e7a\u201d\u2026<\/p>\n<p>A certa altura deu como exemplo Jesus Cristo. Ele foi contra cultural?<\/p>\n<p>Claramente contraculutral. Teve que apresentar alternativas a um mundo que at\u00e9 parecia muito evolu\u00eddo, imposto pelo Imp\u00e9rio Romano, e de se desvincular de uma cultura judaica com uma marca farisaica. Ele n\u00e3o pretendeu negar e fugir daquela realidade, mas apresentar uma alternativa mais construtiva, mais capaz de humanizar. Quando falo de contracultura n\u00e3o falo de reaccionarismo, pelo contr\u00e1rio, falo de uma alternativa a esta cultura que \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 cultura nenhuma.<\/p>\n<p>Sugeriu, por outro lado, que os professores que constru\u00edssem redes\u2026<\/p>\n<p>A pior coisa que est\u00e1 a acontecer aos professores, em particular aos de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica, \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de isolamento, de incapacidade de comunica\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o terem lugar na escola, a sensa\u00e7\u00e3o de que o pr\u00f3prio sistema os marginaliza, desde os hor\u00e1rios at\u00e9 ao valor que a disciplina tem\u2026 Ora, os professores crist\u00e3os t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de aprender a funcionar em rede. N\u00e3o numa rede necessariamente institucional, mas de di\u00e1logo de valores, de partilha de interesses. Isto pode ser assumido na escola como maneira de estar, de di\u00e1logo comunicativo. N\u00e3o \u00e9 preciso que o di\u00e1logo e as redes estejam institucionalizadas. \u00c9 mais uma atitude. Se \u201cn\u00e3o estou l\u00e1\u201d, \u201cvou s\u00f3 l\u00e1 dar umas horitas\u201d, \u201cdou as minhas aulas e fujo, n\u00e3o falo com ningu\u00e9m, acho que ningu\u00e9m me compreende\u2026\u201d, n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>Nota-se, pelas suas palavras e pelas not\u00edcias, que h\u00e1 pessimismo na miss\u00e3o educativa dos professores.<\/p>\n<p>O que eu vim aqui fazer foi precisamente uma tentativa de corrigir algum pessimismo que o sistema hoje imp\u00f5e de uma maneira geral aos crist\u00e3os e muito claramente \u00e0 escola. Tudo o que que n\u00e3o seja na perspectiva dos ideais do tecnicismo pragm\u00e1tico \u00e9 afastado. Hoje temos uma escola que pretende que se saiba o ingl\u00eas e computadores e mais nada. Fala-se at\u00e9 em acabar com as humanidades, passar toda a gente desde que saiba computadores e ingl\u00eas\u2026 Esta escola pobr\u00edssima, que \u00e9 aquela que se est\u00e1 a montar para chegar \u201cao n\u00edvel da Europa\u201d \u2013 estas express\u00f5es s\u00e3o macabras, a meu ver, mas s\u00e3o aquelas que est\u00e3o a fazer escola \u2013, precisa de ter uma alternativa que contraponha um caminho saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Foi nesse sentido que falou na necessidade de \u201cdesenhar uma consci\u00eancia cr\u00edtica\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante o cultivo da autonomia e da consci\u00eancia cr\u00edtica carregada de esperan\u00e7a. Autonomia e consci\u00eancia cr\u00edtica \u00e9 quase a mesma coisa. \u00c0s vezes n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia cr\u00edtica porque n\u00e3o h\u00e1 autonomia, no sentido de ter liberdade de pensar e de agir por mim e perceber a import\u00e2ncia que isso tem na rela\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica. \u00c9 por a\u00ed que se corrige o pessimismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cH\u00e1 muitos focos de desumanismo na escola\u201d, afirma Vasco Pinto de Magalh\u00e3es, padre jesu\u00edta, que considera que os professores crist\u00e3os podem propor uma contracultura que seja \u201calternativa a uma cultura individualista, pessimista, pragmatista, consumista\u201d. 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