{"id":13115,"date":"2008-09-17T15:35:00","date_gmt":"2008-09-17T15:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13115"},"modified":"2008-09-17T15:35:00","modified_gmt":"2008-09-17T15:35:00","slug":"senhora-dos-navegantes-no-forte-da-barra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/senhora-dos-navegantes-no-forte-da-barra\/","title":{"rendered":"Senhora dos Navegantes no Forte da Barra"},"content":{"rendered":"<p>FESTA <!--more--> Devo\u00e7\u00f5es Marianas <\/p>\n<p>\u00c9 conhecida, de h\u00e1 muito, a devo\u00e7\u00e3o que as gentes das Gafanhas t\u00eam por Nossa Senhora, \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontece um pouco por todo o Pa\u00eds. A figura da M\u00e3e, tanto no plano natural como divino, levou os crentes a aceitarem a Virgem Maria como s\u00edmbolo da ternura, da disponibilidade, da protec\u00e7\u00e3o e do amor. <\/p>\n<p>Nessa linha, Maria nunca deixou de inspirar devo\u00e7\u00e3o a quem olha para Ela, sobretudo em momentos de afli\u00e7\u00e3o ou dificuldades. A M\u00e3e de Deus, e nossa M\u00e3e tamb\u00e9m, est\u00e1 permanentemente aberta ao povo sofredor. Nossa Senhora da Nazar\u00e9, da Encarna\u00e7\u00e3o, do Carmo, dos Aflitos, da Boa Hora, da Boa Viagem, da Sa\u00fade, dos Campos e, ainda, dos Navegantes. A mesma Nossa Senhora para cada situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de estranhar, pois, que a Senhora dos Navegantes tenha surgido em espa\u00e7o e tempo de fr\u00e1geis t\u00e9cnicas de marear, com perigos constantes, tanto \u00e0 boca da barra como no mar alto. Embora n\u00e3o se saiba de onde partiu a ideia de venerar no Forte da Barra a Senhora dos Navegantes, \u00e9 de presumir que a proposta, com toda a naturalidade, tenha nascido no cora\u00e7\u00e3o de quem vive sentindo as riquezas do oceano, mas tamb\u00e9m a sua bravura.<\/p>\n<p>Capela de Nossa Senhora<\/p>\n<p>dos Navegantes <\/p>\n<p>A capelinha de Nossa Senhora dos Navegantes \u00e9, sem d\u00favida, o mais antigo templo cat\u00f3lico das par\u00f3quias da pen\u00ednsula da Gafanha. Sobre ela, diz o Padre Jo\u00e3o Vieira Rezende, na sua \u201cMonografia da Gafanha\u201d:<\/p>\n<p>\u201cNo Forte, freguesia da Gafanha da Nazar\u00e9, come\u00e7ou a ser constru\u00edda em 3 de Dezembro de 1863 a capela de Nossa Senhora dos Navegantes, sob a direc\u00e7\u00e3o do ex\u00edmio engenheiro Silv\u00e9rio Pereira da Silva, a expensas dos Pilotos da Barra, sendo ent\u00e3o piloto-mor um tal senhor Sousa. Custou 400$000 r\u00e9is. Na parede est\u00e1 fixada uma l\u00e1pide que diz: \u00abPatrim\u00f3nio do Estado\u00bb. H\u00e1 de interessante e invulgar nesta capela as suas paredes ameadas e a ombreira da porta principal, de pedra de An\u00e7\u00e3, lavrada em espiral com arco em ogiva. Celebra-se a sua festa na \u00faltima segunda-feira de Setembro com enorme concorr\u00eancia de forasteiros das Gafanhas, de \u00cdlhavo, Aveiro e Bairrada. Nesse dia Aveiro \u00e9 um deserto por se terem deslocado para ali muitos dos seus habitantes. A prociss\u00e3o ao sair do templo segue por sobre o molhe da Barra e regressa pela estrada sul que vem do farol. A festa \u00e9 promovida pela Junta Aut\u00f3noma da Barra.\u201d<\/p>\n<p>Tanto quanto se sabe, o templo mant\u00e9m com rigor a tra\u00e7a original, apesar das obras de restauro e conserva\u00e7\u00e3o por que tem passado. Pequenina, a capela ali est\u00e1 inserida, e bem, no complexo portu\u00e1rio que entretanto foi nascendo e se desenvolveu, dando, presentemente, sinais de que vai crescer ainda mais. <\/p>\n<p>A Senhora dos Navegantes, que os nossos pescadores e mareantes tanto veneraram nos tempos dos nossos av\u00f3s, n\u00e3o deixar\u00e1, contudo, com a sua ternura de M\u00e3e, de velar por quantos sulcam as \u00e1guas do mar, n\u00e3o j\u00e1 na Faina Maior, que o bacalhau que comemos j\u00e1 \u00e9 mais importado do que pescado pelos portugueses, mas sobretudo nos transportes mar\u00edtimos e na pesca costeira. <\/p>\n<p>Do texto do Padre Rezende, registamos, como ponto de partida para uma an\u00e1lise mais profunda, o pormenor, significativo, da constru\u00e7\u00e3o da capela ter sido iniciativa dos Pilotos da Barra e a expensas suas, n\u00e3o se sabendo se houve, ou n\u00e3o, qualquer pedido ou sugest\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es, entidades eclesi\u00e1sticas, pol\u00edticas ou aut\u00e1rquicas. Seria curioso saber se o piloto-mor, o tal senhor Sousa, era pessoa da nossa regi\u00e3o e ligada \u00e0 Igreja. <\/p>\n<p>Por outro lado, seria bom descobrir-se como apareceu aqui a devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora dos Navegantes, como se escolheu a imagem e quem deu a ideia para a express\u00e3o do rosto. Teria sido tudo trabalho do piloto-mor?<\/p>\n<p>O facto de as paredes do templo serem ameadas prende-se, compreensivelmente, \u00e0 exist\u00eancia do Forte Novo ou Castelo da Gafanha, numa certa homenagem \u00e0 defesa da zona das investidas por via mar\u00edtima dos inimigos da P\u00e1tria. <\/p>\n<p>A festa da Senhora<\/p>\n<p>dos Navegantes<\/p>\n<p>Tanto quanto nos diz a mem\u00f3ria, a Festa da Senhora dos Navegantes, da nossa meninice, tinha a marc\u00e1-la, como pormenor mais t\u00edpico, a prociss\u00e3o at\u00e9 ao mar, para al\u00e9m do que era habitual em festas com um misto de religioso e profano. Acontecia na \u00faltima segunda-feira de Setembro, pois no domingo anterior havia a festa da Senhora da Sa\u00fade, na Costa Nova. A festa do Forte atra\u00eda mais os povos de Aveiro e Gafanha da Nazar\u00e9 e a da Senhora da Sa\u00fade era mais ao gosto das pessoas de \u00cdlhavo e Gafanha da Encarna\u00e7\u00e3o. A uma e a outra associavam-se os veraneantes a banhos nas praias da Barra e Costa Nova, respectivamente.<\/p>\n<p>No dia da festa, de manh\u00e3, tinha lugar uma prociss\u00e3o da igreja matriz da Gafanha da Nazar\u00e9 para o Forte, sendo transportada em andor a imagem antiga de Nossa Senhora da Nazar\u00e9, com os membros da Irmandade a prestarem-lhe as devidas honras, com as suas opas brancas, mur\u00e7as azuis e bast\u00e3o (pau a imitar uma vela de cera). Anos depois, chegaram a levar o andor com a imagem numa carrinha de caixa aberta, numa clara viola\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A prociss\u00e3o at\u00e9 ao mar come\u00e7ava obviamente na capela e seguia pelo molhe que d\u00e1 acesso \u00e0 Meia-Laranja. Presidia o prior da Gafanha da Nazar\u00e9, incorporavam-se as irmandades e os \u201canjinhos\u201d, e o povo acompanhava atr\u00e1s. N\u00e3o faltava a m\u00fasica, os foguetes ouviam-se ao longe e o colorido das opas e mur\u00e7as emprestava dignidade ao acto. Na Meia-Laranja havia a b\u00ean\u00e7\u00e3o do mar e de quantos dele viviam ou nas praias apanhavam banhos de sol, voltando a prociss\u00e3o agora pela rua que ligava a Barra ao Forte, atravessando pela segunda vez a ponte de madeira, que s\u00f3 os mais velhos podem recordar.<\/p>\n<p>Na Meia-Laranja, os veraneantes associavam-se com devo\u00e7\u00e3o \u00e0 b\u00ean\u00e7\u00e3o do mar e dos fi\u00e9is, recordando, talvez, os que foram tragados pelas \u00e1guas revoltas do mar embravecido. Os povos ribeirinhos sempre tiveram muito respeito pelo mar, ou n\u00e3o fosse ele o amigo que d\u00e1 sustento ou o inimigo que destr\u00f3i vidas indefesas. Por isso, a ades\u00e3o das pessoas da beira-mar aos festejos em honra de Nossa Senhora dos Navegantes era grande.<\/p>\n<p>A festa teve, durante muitos anos, como organizadores, a Administra\u00e7\u00e3o e os trabalhadores da Junta Aut\u00f3noma da Ria e Barra de Aveiro, depois Junta Aut\u00f3noma do Porto de Aveiro, antecessoras, de certo modo, da actual APA (Administra\u00e7\u00e3o do Porto de Aveiro). Alguns trabalhadores, uns domingos antes dos festejos, percorriam as Gafanhas, Aveiro e \u00cdlhavo, de saco ao ombro e de saca na m\u00e3o, recolhendo donativos para as muitas despesas. <\/p>\n<p>A prociss\u00e3o pela Ria<\/p>\n<p>A prociss\u00e3o pela Ria de Aveiro foi uma cria\u00e7\u00e3o do Padre Miguel Lencastre, p\u00e1roco da Gafanha da Nazar\u00e9, entre 1973 e 1982. Antes de p\u00e1roco foi coadjutor do Padre Domingos Rebelo, cerca de dois anos. <\/p>\n<p>Desde que chegou \u00e0 Gafanha, nunca deixou de se mostrar um enamorado pela Ria, como diversas vezes nos sublinhou. Quando se sentia cansado das tarefas paroquiais ou necessitasse de meditar sobre novos desafios, gostava de reflectir olhando a laguna, esperando dela inspira\u00e7\u00e3o motivadora. Por isso, logo se relacionou com homens do mar, assumindo as dificuldades e os \u00eaxitos de todos como seus.<\/p>\n<p>Numa viagem ao Brasil, em tempo sab\u00e1tico, apreciou, em Porto Alegre, uma prociss\u00e3o mar\u00edtima, em honra da Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade, que acontece em 2 de Fevereiro. Ao contemplar t\u00e3o belo espect\u00e1culo e tanta devo\u00e7\u00e3o, os seus pensamentos voaram at\u00e9 ao Forte da Barra com sua Senhora dos Navegantes, lembrou-nos h\u00e1 dias.<\/p>\n<p>O Padre Miguel Lencastre andava, desde o 25 de Abril de 1974, com a preocupa\u00e7\u00e3o de dinamizar o Stella Maris. Ocorreu-lhe, ent\u00e3o, a ideia de ligar este clube, vocacionado para o apoio aos homens do mar e suas fam\u00edlias, \u00e0 Senhora dos Navegantes e \u00e0 Ria, patrim\u00f3nio natural que muito admirava e que precisava de ser valorizado. Uma grande festa seria projecto interessante. A prociss\u00e3o, com todo o colorido e alegria, seria ouro sobre azul. E assim foi.<\/p>\n<p>Bem relacionado com oficiais da Base de S\u00e3o Jacinto, com o Capit\u00e3o do Porto de Aveiro e com homens do mar, n\u00e3o lhe foi dif\u00edcil concretizar o sonho que acalentava. Os barcos n\u00e3o faltaram, um helic\u00f3ptero deu uma preciosa ajuda, os propriet\u00e1rios das embarca\u00e7\u00f5es aderiram, as irmandades aceitaram o desafio, o povo marcou presen\u00e7a com entusiasmo, a comunidade paroquial aplaudiu. <\/p>\n<p>A festa, entretanto, esmoreceu e a prociss\u00e3o caiu no esquecimento. Mais tarde, depois da Expo\u201998, levado pelas experi\u00eancias e viv\u00eancias doutras terras ligadas ao mar, o Grupo Etnogr\u00e1fico da Gafanha da Nazar\u00e9, em colabora\u00e7\u00e3o com a par\u00f3quia e com o Stella Maris, retomou a tradi\u00e7\u00e3o criada pelo Padre Miguel Lencastre.<\/p>\n<p>Tradi\u00e7\u00e3o a manter-se <\/p>\n<p>Sou dos que pensam e defendem que as boas tradi\u00e7\u00f5es devem ser mantidas e cultivadas, no sentido de que tudo quanto faz parte da nossa identidade precisa de estar na base do futuro. Futuro sem ra\u00edzes na hist\u00f3ria pode estar condenado a ser absorvido por h\u00e1bitos que nada nos dizem. Da\u00ed a import\u00e2ncia de continuarmos a apostar nas festas religiosas, de tradi\u00e7\u00e3o popular, embora imbu\u00eddas de projectos mais ambiciosos, isto \u00e9, que possam enriquecer as pessoas, levando-as a viver a fraternidade e o sentido do bem e do belo mais aberto aos outros.<\/p>\n<p>Antigamente, a Festa da Senhora dos Navegantes unia as pessoas da regi\u00e3o, de tal forma que Aveiro e Gafanhas suspendiam os trabalhos para se juntarem em torno da sua capelinha. Participavam na missa, incorporavam-se na prociss\u00e3o, pagavam as suas promessas, conviviam umas com as outras, saboreavam as merendas no Jardim Oudinot, ou-viam m\u00fasica, cantavam e dan\u00e7avam. E ainda consta que, na festa, muitos jovens se conheceram, muitos namoricos se iniciaram e alguns casamentos se combinaram. Tudo \u00e0 sombra de Nossa Senhora dos Navegantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FESTA<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-13115","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13115"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13115\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}