{"id":13137,"date":"2008-09-17T16:11:00","date_gmt":"2008-09-17T16:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13137"},"modified":"2008-09-17T16:11:00","modified_gmt":"2008-09-17T16:11:00","slug":"a-religiao-que-era-dos-brancos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-religiao-que-era-dos-brancos\/","title":{"rendered":"A religi\u00e3o que era dos brancos"},"content":{"rendered":"<p>Foi numa manh\u00e3 quente, como o s\u00e3o as do Inverno austral. N\u00e3o se levava muita \u00e1gua pois n\u00e3o sab\u00edamos ao que \u00edamos.<\/p>\n<p>Era uma aldeia distante, para l\u00e1 do cemit\u00e9rio do Savimbi, onde ele tem a l\u00e1pide mas n\u00e3o tem o corpo. Foi levado para Luanda, dizem, porque os do partido do governo, o outro lado da guerrilha, tinham medo que ele ressuscitasse de novo, pela sexta ou s\u00e9tima vez, e voltasse a dar trabalho. N\u00e3o \u00e9 que ele fosse pior ou melhor que o outro&#8230; Eram iguais. Um deles ainda \u00e9. S\u00f3 que as sortes dividiram-se pelo que continua vivo.<\/p>\n<p>Depois do cemit\u00e9rio, anda-se mais um peda\u00e7o. H\u00e1 uma cortada para uma picada de terra batida e \u00e0 frente, mesmo antes do rio, h\u00e1 um enorme campo minado. De um lado as placas, do outro os campos extensos de milho, j\u00e1 seco. Ao fundo, um rio que acompanhamos sempre at\u00e9 a picada terminar.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, cerca de sete quil\u00f3metros a p\u00e9, depois de passar um pequeno campo, anormalmente aplanado, que mais n\u00e3o era que uma pequena pista para as avionetas norueguesas dos diamantes aterrarem, carregarem de \u00e1gua e outras pedras que matam mais que as dos rins e que se passeiam por a\u00ed nos pesco\u00e7os ou nos dedos com a inoc\u00eancia e o brilho de quem n\u00e3o sabe o mal que faz.<\/p>\n<p>Depois dos sete quil\u00f3metros de calor, sem \u00e1gua, at\u00e9 em rio infestado de jacar\u00e9s se vai beber, sempre com os p\u00e9s prontos para arrancar, caso haja algum movimento suspeito na \u00e1gua. A sede \u00e9 tanta que desafia o risco. \u00c9 um pouco assim a f\u00e9 dos Homens. T\u00eam sede, arriscam-se.<\/p>\n<p>Chega-se \u00e0 aldeia, longe de tudo. Come\u00e7a-se a reuni\u00e3o com os mais velhos, enquanto os pequenos v\u00e3o para as brincadeiras e os doentes aguardam vez para o curativo.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o \u00e9 solene, pese embora alguns risos. Os rostos s\u00e3o pesados, enrugados pelo tempo, pela mal\u00e1ria, pela guerra. S\u00e3o vozes tamb\u00e9m assim, enrugadas pela vida. Falam das necessidades: um professor para a escola. A escola ainda n\u00e3o existe, mas a UNICEF s\u00f3 a constr\u00f3i depois de haver um professor e o que havia o governo transferiu-o. \u00c9 preciso um m\u00e9dico ou um enfermeiro, um posto de sa\u00fade que n\u00e3o os fa\u00e7a ir ao feiticeiro. \u00c9 preciso f\u00e9, religa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Religi\u00e3o significa isso, religar, voltar a ligar o que antes estava ligado, depois desligou-se e \u00e9 preciso ligar de novo. Deus e o Homem, \u00e9 preciso relig\u00e1-los.<\/p>\n<p>Vai-se falando em Chokw\u00e9, em Portugu\u00eas, traduzindo, falando. Dizem que a f\u00e9 \u00e9 dos brancos e quando eles se forem embora, a f\u00e9 deles tamb\u00e9m se vai embora. Riem&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e3o a brincar comigo porque sou branco. Mas fazem-me pensar na velha hist\u00f3ria da f\u00e9 \u00e0 for\u00e7a, mal pintada na Hist\u00f3ria. Ent\u00e3o era verdade o que laicistas mais ressa-biados com as frustra\u00e7\u00f5es da sua vida dizem! Fomos para l\u00e1 impor-nos?!<\/p>\n<p>Pergunto-lhes do que \u00e9 que mais tinham medo. \u201cDa morte\u201d \u2013 respondem \u00e0 primeira. Digo-lhes que h\u00e1 brancos que n\u00e3o acreditam em Deus.<\/p>\n<p>A cara que fiz antes incr\u00e9dula estava agora nos rostos mais velhos da aldeia, que me observavam admirados. H\u00e1 brancos que n\u00e3o acreditam, mas como pode ser isso?!<\/p>\n<p>Digo-lhes que Cristo venceu esse maior medo, e se estamos com Ele, j\u00e1 n\u00e3o temos de ter esse medo. Claro que foi muito inteligente e n\u00e3o deixou maneira de algu\u00e9m conseguir provar o que eu estava a dizer Dele, inequivocamente.<\/p>\n<p>Portanto, ou se acreditava, ou n\u00e3o se acreditava. Era tudo uma quest\u00e3o de Amor e liberdade e op\u00e7\u00e3o. Todos \u00e9ramos convidados, ningu\u00e9m for\u00e7ado.<\/p>\n<p>De facto assim foi, naquele dia. Testemunhei a op\u00e7\u00e3o da liberdade libertadora de Cristo e da for\u00e7a dos que nele acreditam. Gente ali de uma aldeia long\u00ednqua, perto do nada, longe de tudo o que conhecemos, at\u00e9 do portugu\u00eas oficial da rep\u00fablica onde se estava.<\/p>\n<p>Aconteceu Religi\u00e3o, aconteceu a celebra\u00e7\u00e3o do Amor. Ali e em todos os s\u00edtios onde algu\u00e9m ou alguma coisa se religou, aconteceu religi\u00e3o, mesmo que os s\u00edtios ou as ocasi\u00f5es n\u00e3o fossem oficiais. Aconteceu que Deus estendeu a m\u00e3o ao Homem. E o homem, ao celebrar a comunh\u00e3o com os outros, seja uma comunidade inteira ou duas pessoas que se gostam e caminham juntas, estendeu-a a Deus.<\/p>\n<p>Em qualquer destas situa\u00e7\u00f5es, acontece Igreja, acontece religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi um dia grande, aquele 16 de Agosto, um dia em que o sol brilhou intenso na minha cabe\u00e7a ao longo dos sete quil\u00f3metros de regresso, por caminhos de carga de diamantes.<\/p>\n<p>Naquele dia foram outras coisas a brilhar&#8230; a certeza de comunidades e fam\u00edlias que em Deus v\u00eam um Amor que \u00e9 eternidade religada, como sempre devia ter estado!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi numa manh\u00e3 quente, como o s\u00e3o as do Inverno austral. N\u00e3o se levava muita \u00e1gua pois n\u00e3o sab\u00edamos ao que \u00edamos. Era uma aldeia distante, para l\u00e1 do cemit\u00e9rio do Savimbi, onde ele tem a l\u00e1pide mas n\u00e3o tem o corpo. 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