{"id":13162,"date":"2008-09-24T16:30:00","date_gmt":"2008-09-24T16:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13162"},"modified":"2008-09-24T16:30:00","modified_gmt":"2008-09-24T16:30:00","slug":"inicio-do-sindicalismo-catolico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/inicio-do-sindicalismo-catolico\/","title":{"rendered":"In\u00edcio do sindicalismo cat\u00f3lico"},"content":{"rendered":"<p>Grandes Documentos da Doutrina Social &#8211; &#8220;Rerum Novarum&#8221; (2) <!--more--> A aplica\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina (\u201cr\u00e1pidas, regulares, precisas, incans\u00e1veis\u201d \u2013 a express\u00e3o \u00e9 de David Landes, na obra admir\u00e1vel \u201cA Riqueza e a Pobreza das Na\u00e7\u00f5es\u201d, Ed. Gradiva) ao trabalho gerou a revolu\u00e7\u00e3o industrial. N\u00e3o uma revolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, como s\u00e3o as pol\u00edticas, mas profunda, como s\u00e3o as econ\u00f3mico-sociais. Nada ficou como antes. E muitos ficaram pior do que antes, \u201cnuma situa\u00e7\u00e3o de infort\u00fanio e de mis\u00e9ria imerecida\u201d (RN 1), \u201ccomo instrumentos de lucros\u201d, apenas considerados \u201cem termos de quanto podem a sua fora e o seu vigor\u201d (RN 14), embrutecidos de esp\u00edrito e enfraquecidos de corpo (RN 31)&#8230;<\/p>\n<p>Onde havia massas de oper\u00e1rios (centro e norte de Europa), a Igreja percebeu que estava a perder a classe trabalhadora, atra\u00edda pelas ideologias socialistas (\u201cperdeu os intelectuais no s\u00e9c. XVIII, os trabalhadores no s\u00e9c. XIX e est\u00e1 a perder as mulheres nos s\u00e9c. XX\u201d, afirmou um padre te\u00f3logo espanhol, h\u00e1 d\u00e9cada e meia). Note-se que no \u201csocialismo\u201d desta \u00e9poca cabiam diversas ideologias de esquerda, todas elas muito distantes do actual socialismo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Le\u00e3o XII denota o afastamento dos trabalhadores da Igreja em diversos pontos da \u201cRerum Novarum\u201d. Tal acontece, diz o Papa, por dois motivos: por um lado, o pr\u00f3prio trabalho impede o descanso e a dedica\u00e7\u00e3o de um dia por semana a Deus (RN 31); por outro, h\u00e1 a influ\u00eancia de associa\u00e7\u00f5es \u201cde que a religi\u00e3o tem tudo a temer\u201d, \u201cgovernadas por chefes ocultos\u201d e obedecendo a uma \u201corienta\u00e7\u00e3o externa\u201d (RN 37). Estas associa\u00e7\u00f5es e partidos, nas suas correntes mais extremadas defendiam a supress\u00e3o da propriedade privada. Contra eles, escreve Le\u00e3o XIII, quase a abrir a enc\u00edclica: \u201cOs socialistas, para curar este mal [a imposi\u00e7\u00e3o por um pequeno n\u00famero de ricos e de opulentos de um jugo quase servil \u00e0 massa imensa do proletariado], instigam nos pobres o \u00f3dio contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares seja suprimida, que os bens de qualquer indiv\u00edduo sejam comuns a todos, e a sua administra\u00e7\u00e3o perten\u00e7a aos munic\u00edpios ou ao Estado\u201d (RN 2). N\u00e3o se pense, contudo, que a defesa contundente da propriedade privada \u00e9 a defesa do liberalismo econ\u00f3mico vigente na \u00e9poca. Pelo contr\u00e1rio, Le\u00e3o XIII defende a propriedade privada na \u00f3ptica do trabalhador, visto que \u201co fim imediato visado pelo trabalhador [ao trabalhar] \u00e9 conquistar um bem que possuir\u00e1 como seu\u201d (RN 3).<\/p>\n<p>Contra o \u201cerro capital\u201d de \u201ccrer que as duas classes [patr\u00f5es \/ trabalhadores, ricos \/ pobres] s\u00e3o inimigas natas uma da outra\u201d, o Papa parece embarcar numa vis\u00e3o fixista da sociedade ao invocar a imagem da complementaridade dos v\u00e1rios membros no corpo humano (RN 14), mas a seguir afirma principalmente as obriga\u00e7\u00f5es dos \u201cricos e patr\u00f5es\u201d. \u201cDevem respeitar no oper\u00e1rio a dignidade de homem (\u2026). Devem ter em conta os interesses espirituais dos oper\u00e1rios (\u2026). Que o trabalhador tenha tempo para cumprir os seus deveres religiosos (\u2026), n\u00e3o seja afastado da fam\u00edlia. (\u2026) N\u00e3o tenha um trabalho superior \u00e0s suas for\u00e7as ou que n\u00e3o seja adaptado \u00e0 sua idade ou sexo. (\u2026) Receba um sal\u00e1rio justo\u201d (RN 14).<\/p>\n<p>A \u201cRerum Novarum\u201d representou uma sistematiza\u00e7\u00e3o do pensamento social cat\u00f3lico e foi positivamente acolhida por trabalhadores crist\u00e3os. Sem d\u00favida que fez despertar uma esquerda cat\u00f3lica que veio mais tarde a constituir-se em socialismo crist\u00e3o (com ou sem esse nome) e na democracia crist\u00e3.<\/p>\n<p>Passados quarenta anos, Pio XI escrevia: \u201cDeve atribuir-se \u00e0 Enc\u00edclica Leonina o terem florescido tanto por toda a parte as associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias. Apesar de serem, infelizmente, ainda inferiores em n\u00famero \u00e0s dos socialistas e comunistas, agrupam not\u00e1vel multid\u00e3o de s\u00f3cios e podem defender energicamente os direitos e aspira\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas do operariado cat\u00f3lico e propugnar os salutares princ\u00edpios da sociedade crist\u00e3\u201d (QA 36).<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n<p>O Papa da mudan\u00e7a<\/p>\n<p>\u00abLe\u00e3o XIII lamentava o isolamento para o qual Pio XI empurrara a Igreja, com a sua hostilidade em rela\u00e7\u00e3o ao mundo contempor\u00e2neo. E decidiu tra\u00e7ar um novo caminho. Tomou como mestre [aquele que], mais do que ningu\u00e9m, conseguiu fazer uma s\u00edntese de f\u00e9 e raz\u00e3o, gra\u00e7a e naturalidade, cristianismo e humanismo: S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino. E, em 1891, fez chegar ao mundo inteiro uma carta, a \u201cRerum Novarum\u201d, o primeiro texto do pensamento papal moderno sobre a sociedade, a magna carta da vis\u00e3o cat\u00f3lica da \u201creconstru\u00e7\u00e3o da ordem social\u201d. E esse documento, embora n\u00e3o fosse perfeito, acabou por revelar-se prof\u00e9tico.\u00bb<\/p>\n<p>Michael Novak, A \u00c9tica Cat\u00f3lica e o Esp\u00edrito do Capitalismo, p\u00e1g. 60<\/p>\n<p>Grandes ideias da \u201cRerum Novarum\u201d<\/p>\n<p>Sem a pretens\u00e3o de apontar todas as grandes ideias do documento fundador da doutrina social da Igreja (40 p\u00e1ginas na edi\u00e7\u00e3o da Ed. Rei dos Livros, 80 mil caracteres), aqui ficam algumas que fizeram hist\u00f3ria:<\/p>\n<p>* Defesa da propriedade privada e do destino universal dos bens. A Terra foi dada a todos. \u201cApesar de dividida entre particulares, a terra n\u00e3o deixa de servir \u00e0 utilidade comum de todos\u201d (RN 6).<\/p>\n<p>* Princ\u00edpio da subsidiariedade. A fam\u00edlia est\u00e1 antes do Estado, pelo que os poderes p\u00fablicos devem vir em seu aux\u00edlio, mas sem ultrapassar limites. A fam\u00edlia n\u00e3o deve ser abolida nem absorvida pelo Estado (RN 10).<\/p>\n<p>* Dignidade do trabalho e do trabalhador. \u201cN\u00e3o se deve corar por ter de ganhar o p\u00e3o com o suor do rosto. \u00c9 o que Jesus Cristo nosso Senhor confirmou como seu exemplo\u201d (RN 17).<\/p>\n<p>* O Estado tem deveres: fazer leis justas; promover o Bem Comum; assegurar os direitos a todos os cidad\u00e3os, em especial \u201caos oper\u00e1rios, visto serem eles do n\u00famero da classe pobre\u201d (RN 27).<\/p>\n<p>* O trabalho, o sal\u00e1rio e o descanso devem ser regulados, justos, proporcionais (RN 30-32).<\/p>\n<p>* Direito de associa\u00e7\u00e3o: t\u00eam-no patr\u00f5es e oper\u00e1rios e muito pode contribuir para a solu\u00e7\u00e3o da \u201cquest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d. \u201cAos oper\u00e1rios crist\u00e3os apresentam-se dois caminhos: ou empenharem-se nas sociedades de que a religi\u00e3o tem tudo a temer [refer\u00eancia aos sindicatos de matriz comunista], ou organizarem-se eles pr\u00f3prios e unirem as suas for\u00e7as para poderem sacudir o jugo injusto e intoler\u00e1vel\u201d (RN 37). A enc\u00edclica termina com sugest\u00f5es para os estatutos e objectivos duma associa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica (RN 39-40).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grandes Documentos da Doutrina Social &#8211; &#8220;Rerum Novarum&#8221; (2)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-13162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13162"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13162\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}