{"id":13402,"date":"2008-10-09T09:37:00","date_gmt":"2008-10-09T09:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13402"},"modified":"2008-10-09T09:37:00","modified_gmt":"2008-10-09T09:37:00","slug":"o-latifundio-no-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-latifundio-no-nordeste\/","title":{"rendered":"O latif\u00fandio no Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Dos velhos fazendeiros com nome \u00e0s novas fazendas sem rosto<\/p>\n<p>Regressei ao Maranh\u00e3o (estado do Nordeste Brasileiro onde estive em actividade mission\u00e1ria por quase 5 anos), ao fim de 22 meses de aus\u00eancia. A par com a inexplic\u00e1vel, por\u00e9m prazerosa, sensa\u00e7\u00e3o do \u201cregresso a casa\u201d, fui confrontado com os novos desafios que o povo nordestino, em geral, e o maranhense, em particular, est\u00e1 a enfrentar. <\/p>\n<p>Desta vez, a estadia foi de poucas semanas, por\u00e9m dois importantes acontecimentos tiveram lugar em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, durante esse per\u00edodo, permitindo-me escutar claramente os gritos do povo.<\/p>\n<p>No fim-de-semana  da chegada, dava-se o encerramento do V Nordest\u00e3o das CEBs \u2013 o quinto encontro de representantes das Comunidades Eclesiais de Base nordestinas. Provenientes dos 9 estados que constituem a regi\u00e3o Nordeste do Brasil, os cerca de 350 participantes viveram v\u00e1rios dias de celebra\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es sobre o grande tema de fundo CEBs: Ecologia e Miss\u00e3o. Baseada no lema do encontro \u2013 \u201cDo ventre da terra amaz\u00f4nica, o grito que ecoa no Nordeste\u201d \u2013  foi redigida e publicada uma carta final que li, avidamente, logo que chegou \u00e0s minhas m\u00e3os. Era a constata\u00e7\u00e3o de que os antigos problemas do povo, se transformam, cada vez mais, em novos velhos problemas. <\/p>\n<p>Os representantes do povo de Deus, organizado l\u00e1 nas bases, levantam a voz contra as injusti\u00e7as cometidas sobre \u201cpovos ind\u00edgenas, quilombolas e afro-descendentes, trabalhadores sem-terra e sem tecto\u201d. Denunciam as in\u00fameras agress\u00f5es, comprovadas no dia-a-dia, \u201c\u00e0 nossa fauna, flora, nossos rios, lagos e len\u00e7ois fre\u00e1ticos\u201d. Apelam para a multiplica\u00e7\u00e3o de \u201ciniciativas concretas de solidariedade em defesa do equil\u00edbrio da cria\u00e7\u00e3o para neutralizar os impactos destruidores dos grandes projectos neoliberais\u201d. Resumindo, lida a carta, percebi o alerta do povo, perante a degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente: a urg\u00eancia de \u201cjuntar esfor\u00e7os (&#8230;) em defesa da vida e do equil\u00edbrio da cria\u00e7\u00e3o divina da qual somos parte integrante\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, alguns dias mais tarde, esperava-me a cidade de Chapadinha, onde os Mission\u00e1rios da Boa Nova me confirmaram a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, especialmente na regi\u00e3o do Baixo Parna\u00edba Maranhense, facto que constatei \u201cin loco\u201d.<\/p>\n<p>Antes do regresso a Portugal, gra\u00e7as \u00e0 Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e \u00e0 Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz de S. Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, surgiu a oportunidade de rever antigos companheiros de luta e \u201csentir o pulso\u201d das causas. <\/p>\n<p>Na V Confer\u00eancia Estadual de Direitos Humanos ouvi, em 1.\u00aa pes-soa, os relatos do povo, de chinelo no p\u00e9, chap\u00e9u de palha e pele gretada do sol. Relatos de quem, historicamente, foi oprimido pelas grandes fam\u00edlias de fazendeiros, dos quais todos sab\u00edamos os sobrenomes: os Lira, os Almeida, os Vieira, os Leite&#8230; Posteriormente, j\u00e1 nos anos 90, as terras mudaram de m\u00e3os e os sobrenomes dos fazendeiros passaram a ser de origem germ\u00e2nica ou italiana. Do Sul do Brasil, para o agro-neg\u00f3cio da soja, tinham vindo os \u201cga\u00fachos\u201d, na sua maioria de ascend\u00eancia europeia. Foi a \u00e9poca dos grandes \u201cdesmatamentos\u201d, toda a devasta\u00e7\u00e3o da mata nativa que marcou o in\u00edcio do s\u00e9c. XXI. Agora, por\u00e9m, o povo fala dos novos fazendeiros, sem rosto nem sobrenome. S\u00e3o os grandes projectos agr\u00edcolas, empresas internacionais que se instalam para a produ\u00e7\u00e3o de soja, de cana de a\u00e7\u00facar, que transformam as \u00e1rvores nativas em carv\u00e3o vegetal ou, ainda pior, as substituem pelo eucalipto! E foi a\u00ed que ouvi, at\u00e9, o nome de uma empresa com sede na nossa diocese de Aveiro sa\u00edda das margens do Vouga para engrossar os grandes projectos que, sob a \u201ccapa\u201d de contribuir responsavelmente para o desenvolvimento sustent\u00e1vel do Maranh\u00e3o, continuam a expulsar os camponeses das terras. S\u00e3o os humildes que se indignam e questionam essas empresas cujos lucros \u2013 que crescem na ordem dos 100% por ano \u2013 n\u00e3o servem \u201cpara distribuir riqueza \u00e0s popula\u00e7\u00f5es\u201d.   <\/p>\n<p>Volto \u00e0 carta final do Nordest\u00e3o das CEBs para refor\u00e7ar os apelos do povo: a urg\u00eancia de fazer \u201cmem\u00f3ria da Cria\u00e7\u00e3o de Deus que geme em dores de parto\u201d. \u00c9 o povo que o repete, mas \u00e9, ainda mais, o desafio que o pr\u00f3prio Cristo nos faz: \u201cQuem tem ouvidos, ou\u00e7a\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos velhos fazendeiros com nome \u00e0s novas fazendas sem rosto Regressei ao Maranh\u00e3o (estado do Nordeste Brasileiro onde estive em actividade mission\u00e1ria por quase 5 anos), ao fim de 22 meses de aus\u00eancia. A par com a inexplic\u00e1vel, por\u00e9m prazerosa, sensa\u00e7\u00e3o do \u201cregresso a casa\u201d, fui confrontado com os novos desafios que o povo nordestino, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-13402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13402"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13402\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}