{"id":1347,"date":"2010-06-16T09:40:00","date_gmt":"2010-06-16T09:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1347"},"modified":"2010-06-16T09:40:00","modified_gmt":"2010-06-16T09:40:00","slug":"ha-uma-bopa-dose-de-analfabetismo-musical-nas-nossas-comunidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ha-uma-bopa-dose-de-analfabetismo-musical-nas-nossas-comunidades\/","title":{"rendered":"&#8220;H\u00e1 uma bopa dose de analfabetismo musical nas nossas comunidades&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O P.e Paulo Cruz, p\u00e1roco da Costa Nova e da Barra, e o doutor Domingos Peixoto, professor de M\u00fasica do Conservat\u00f3rio e na Universidade de Aveiro, dirigem a EDMUSA &#8211; Escola Diocesana de M\u00fasica Sacra de Aveiro. Com eles integram a direc\u00e7\u00e3o Celina Martins (comunica\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o das turmas), Tiago Matias (coordena\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o juvenil) e Margarida Pina (tesoureira). Funcionando h\u00e1 cinco anos, a EDMUSA est\u00e1 a lan\u00e7ar novas iniciativas de forma\u00e7\u00e3o, nomeadamente um curso sistem\u00e1tico e a forma\u00e7\u00e3o juvenil, esperando em breve ser constitu\u00edda como entidade jur\u00eddica. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 Que ba-lan\u00e7o fazem destes cinco anos de trabalho da Escola Diocesana de M\u00fasica Sacra &#8211; EDMUSA?<\/p>\n<p>P.E PAULO CRUZ (PC) \u2013 A EDMUSA come\u00e7ou em 2005, mas j\u00e1 havia uma experi\u00eancia anterior de 10 anos (1994-2004), ligada ao ISCRA, que de certa forma acabou em fracasso, pois estava muito fechada e os alunos foram diminuindo. Descobrimos depois esta modalidade itinerante que possibilitou uma divulga\u00e7\u00e3o maior, mais leve e mais alargada. Um primeiro objectivo da itiner\u00e2ncia foi descobrir gente nova que pudesse dar corpo ao novo projecto de forma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica.<\/p>\n<p>DOMINGOS PEIXOTO (DP) \u2013 A Escola de M\u00fasica Sacra come\u00e7ou em 1994 com um modelo tradicional: aulas todas as semanas, plano de estudos organizado, etc. Depois, chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o de que o modelo dificilmente subsistiria. Era preciso fazer um trabalho de base, ir ao encontro de pessoas que est\u00e3o no terreno, coralistas, sal-mistas, directores de coro e organistas, e dar a forma\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, compat\u00edvel com compromissos familiares e profissionais. Este trabalho permitiu que se retomasse o mo-delo primitivo do curso sistem\u00e1tico, de 1994, com maior exig\u00eancia, para, em simult\u00e2neo, funcionar o curso livre (itinerante), que \u00e9 a base de sustenta\u00e7\u00e3o e de divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em cinco anos, quantas pessoas receberam forma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>PC \u2013 Chegamos a ter 100 inscri\u00e7\u00f5es por ano. No ano passado tivemos cerca de 60 nesta forma\u00e7\u00e3o a que chamamos curso livre. \u00c9 uma forma\u00e7\u00e3o muito leve: uma tarde semanal, ao s\u00e1bado, e forma\u00e7\u00e3o musical nas salas do CUFC.<\/p>\n<p>Neste modelo de forma\u00e7\u00e3o itinerante, por quantas par\u00f3quias passaram as aulas?<\/p>\n<p>PC \u2013 O primeiro crit\u00e9rio para a itine-r\u00e2ncia \u00e9 o da qualidade. Privilegi\u00e1mos par\u00f3quias que tenham o instrumento-rei da m\u00fasica lit\u00fargica, o \u00f3rg\u00e3o de tubos. Come\u00e7amos e acabamos o ano nas par\u00f3quias da Barra e Costa Nova. Por serem par\u00f3quias de praia, t\u00eam um ambiente mais prop\u00edcio para o in\u00edcio e final de ano. Mas h\u00e1 outras adequadas como Calv\u00e3o, Vagos, Albergaria, Santa Joana, Murtosa\u2026<\/p>\n<p>DP \u2013 H\u00e1 dois anos quisemos percorrer todos os arciprestados. Mas ir a uma par\u00f3quia de que n\u00e3o temos inscritos torna dif\u00edcil a organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses momentos nas par\u00f3quias tamb\u00e9m s\u00e3o importantes para as comunidades?<\/p>\n<p>PC \u2013 Quando vamos a uma par\u00f3quia, entramos no ritmo normal. A participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia vespertina \u00e9 o momento alto do encontro. Por vezes o p\u00e1roco pode n\u00e3o dar o devido realce. O trabalho dos s\u00e1bados, nas par\u00f3quias, tem momentos com os coros paroquiais, mas estes nem sempre est\u00e3o presentes.<\/p>\n<p>DP \u2013 N\u00f3s temos um objectivo ideal e um grau de concretiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chega l\u00e1. Queremos que a ida a essa par\u00f3quia seja para celebrar e partilhar, mas nem sempre conseguimos.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo ano, a EDMUSA vai avan\u00e7ar com forma\u00e7\u00e3o para jovens. Como?<\/p>\n<p>DP \u2013 Temo-nos dedicado ao coro tradicional e n\u00e3o temos ido ao encontro dos grupos de jovens, que tamb\u00e9m animam as cele-bra\u00e7\u00f5es paroquiais. Ora, queremos abrir a forma\u00e7\u00e3o a esses grupos, criando um grupo vocal e instrumental que possa assumir a itiner\u00e2ncia, \u00e0 semelhan\u00e7a do que fizemos nos \u00faltimos cinco anos com o coro tradicional.<\/p>\n<p>Como conciliar a qualidade lit\u00fargica com o gosto dos jovens? N\u00e3o ser\u00e1, \u00e0 partida, uma tarefa dif\u00edcil?<\/p>\n<p>DP \u2013 Pretendemos que os grupos de jovens tenham uma forma\u00e7\u00e3o que os ajude a fazer bem aquilo que j\u00e1 fazem. N\u00e3o vamos intervir directamente nos c\u00e2nticos que escolhem. Vamos dar forma\u00e7\u00e3o para que fa\u00e7am melhor e de maneira mais digna o que j\u00e1 fazem. Ser\u00e1 uma forma\u00e7\u00e3o leve \u2013 sess\u00f5es mensais de interc\u00e2mbio e forma\u00e7\u00e3o \u2013, percorrendo par\u00f3quias da Diocese e com uma ligeira revis\u00e3o do plano de estudos em cinco anos que permita a inclus\u00e3o dos jovens. Como h\u00e1 um instrumento que \u00e9 imprescind\u00edvel, foi inclu\u00edda a disciplina de Guitarra.<\/p>\n<p>PC \u2013 Estamos conscientes de que no terreno podemos encontrar barreiras. A escola tem de dar as ferramentas e os crit\u00e9rios para se fazer bem. Na quest\u00e3o da escolha dos c\u00e2nticos, a escola vai propondo coisas novas. \u00c9 imposs\u00edvel chegar e dizer: \u201cIsto n\u00e3o se canta, aquilo n\u00e3o tem qualidade\u201d. E depois? Se n\u00e3o t\u00eam mais nada para cantar? \u00c9 importante ir propondo coisas novas para o report\u00f3rio se alargar\u2026<\/p>\n<p>Esperam se fa\u00e7a uma esp\u00e9cie de selec\u00e7\u00e3o natural nos c\u00e2nticos juvenis\u2026<\/p>\n<p>PC \u2013 Sim. \u00c0 medida que se vai experimentando e falando com o coro e com os jovens, v\u00e3o-se afinando crit\u00e9rios. Vamos analisar os textos e pensar se, de facto, a mensagem que estamos cantar \u00e9 rica ou pobre, se est\u00e1 bem escrita, bem traduzida, se tem uma verdade plena. Por vezes usam-se m\u00fasicas intimistas que n\u00e3o se enquadram no momento. Mesmo um c\u00e2ntico lit\u00fargico n\u00e3o cabe em qualquer momento. Um c\u00e2ntico de quaresma n\u00e3o \u00e9 para o tempo Pascal. O termo \u201clit\u00fargico\u201d pode ser uma palavra intimidat\u00f3ria, mas no fundo acaba por ser um despertar para que, diante de crit\u00e9rios, os jovens encontrem o melhor poss\u00edvel. A escola tem essa miss\u00e3o; ajudar a encontrar crit\u00e9rios e alternativas.<\/p>\n<p>DP \u2013 A Escola n\u00e3o tem uma fun\u00e7\u00e3o normativa. A escola n\u00e3o d\u00e1 leis, d\u00e1 forma\u00e7\u00e3o. A forma\u00e7\u00e3o, por si, ir\u00e1 criar crit\u00e9rios de selec\u00e7\u00e3o e de exig\u00eancia que far\u00e1 vir ao de cima a qualidade em qualquer g\u00e9nero de m\u00fasica. Mas s\u00e3o os jovens que v\u00e3o pensar nisso. E uma coisa \u00e9 certa: fa\u00e7a o que fizerem, com forma\u00e7\u00e3o, far\u00e3o melhor.<\/p>\n<p>De um modo geral, a forma\u00e7\u00e3o musical dos portugueses \u00e9 muito baixa. A EDMUSA sente esta dificuldade?<\/p>\n<p>DP \u2013 Esse \u00e9 o problema comum, o baixo n\u00edvel da cultura musical dos portugueses. H\u00e1 lacunas tremendas em Portugal, que n\u00e3o se verificam na generalidade dos pa\u00edses Europeus. N\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o coerente nem incoerente. H\u00e1 umas brincadeiras no primeiro ciclo, a fazer de conta que \u00e9 m\u00fasica; h\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o musical no segundo ciclo e acabou. Depois, s\u00f3 como op\u00e7\u00e3o, se a escola estiver disposta a oferecer. Esta car\u00eancia reflecte-se em tudo e tamb\u00e9m na Igreja. H\u00e1 uma boa dose de analfabetismo musical nas nossas comunidades. Por isso, o m\u00fasico \u00e9 uma figura inc\u00f3moda. Toda a gente reage se ouvir uma leitura mal feita. A alfabetiza\u00e7\u00e3o permite reagir a esse tipo de erro. Com a m\u00fasica, infelizmente, passam \u201ccobras e lagartos\u201d: textos mal cantados, desafina\u00e7\u00f5es, entoa\u00e7\u00f5es mal feitas, maus acompanhamentos no \u00f3rg\u00e3o. Os m\u00fasicos reagem a esses erros. A EDMUSA tenta contrariar o analfabetismo musical e criar uma sensibilidade para corrigir esses erros e que alerte para que os erros n\u00e3o existam na celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A escola tem tido apoio dos restantes organismos pastorais?<\/p>\n<p>PC \u2013 O ideal \u00e9 que haja colabora\u00e7\u00e3o de todos os servi\u00e7os diocesanos para que esta forma\u00e7\u00e3o seja desejada. Queremos a colabora\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o da Pastoral Juvenil na sensibiliza\u00e7\u00e3o dos grupos e da Pastoral Lit\u00fargica. Estamos dispon\u00edveis para, por exemplo, num encontro de leitores, ensinar a cantar o in\u00edcio e a conclus\u00e3o da leitura.<\/p>\n<p>DP \u2013 Tenho que dizer que o maior apoio que a EDMUSA tem \u00e9 o do Sr. Bispo. Apoio incondicional. Um est\u00edmulo que nos faz andar de mangas arrega\u00e7adas. \u00c9 um entusiasta da forma\u00e7\u00e3o musical. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 muitos p\u00e1rocos que apoiam os seus m\u00fasicos.<\/p>\n<p>Antes do Conc\u00edlio, os semin\u00e1rios estavam cheios e eram aut\u00eanticos conservat\u00f3rios. Tinham uma forma\u00e7\u00e3o musical muito aprofundada. As dificuldades que temos em desenvolver o trabalho da EDMUSA ressente-se da falta de forma\u00e7\u00e3o musical do clero. Se os sacerdotes n\u00e3o t\u00eam sensibilidade, n\u00e3o se apercebem de que n\u00e3o estamos a falar de luxo mas de gram\u00e1tica. N\u00e3o se apercebem de erros que n\u00e3o s\u00e3o dignos da casa de Deus.<\/p>\n<p>PC \u2013 \u00c9 importante referir que os alunos s\u00e3o agentes da par\u00f3quia, trabalham na par\u00f3quia gratuitamente. A par\u00f3quia tem de estar sens\u00edvel para a forma\u00e7\u00e3o. Tem de ser a grande motivadora, impulsionadora e primeira interessada na forma\u00e7\u00e3o. Por isso, sugerimos que as par\u00f3quias suportem metade dos custos de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>DP \u2013 O boletim de inscri\u00e7\u00e3o tem a assinatura dos p\u00e1rocos. Normalmente n\u00e3o se aceitam formandos que n\u00e3o estejam ligados a par\u00f3quias, da\u00ed que seja l\u00f3gico o apoio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando custa a forma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>DP \u2013 Estamos a pedir 20 euros por m\u00eas (2,5 euros para coralistas no curso livre), que n\u00e3o cobrem de modo nenhum o custo da forma\u00e7\u00e3o, principalmente com formadores. No fim, temos que bater \u00e0s portas da Diocese. Mas estamos a pensar em estrat\u00e9gias de angaria\u00e7\u00e3o de fundos. O que os alunos pagam d\u00e1 para 50 por cento das despesas.<\/p>\n<p>PC \u2013 \u00c9 uma forma\u00e7\u00e3o barata.<\/p>\n<p>DP \u2013 Se um professor cobrar 20 euros por hora, n\u00e3o cobra muito. N\u00e3o \u00e9 isso sequer que a escola paga. Mas h\u00e1 quem cobre duas ou tr\u00eas vezes mais. Pedimos 20 euros por m\u00eas, mas o formando tem aulas de Coro, Forma\u00e7\u00e3o Vocal, Forma\u00e7\u00e3o Musical, Instrumento de Tecla&#8230; No fundo, \u00e9 quase uma propina simb\u00f3lica para incentivar a forma\u00e7\u00e3o. Temos de conseguir mais dinheiro por outras vias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O P.e Paulo Cruz, p\u00e1roco da Costa Nova e da Barra, e o doutor Domingos Peixoto, professor de M\u00fasica do Conservat\u00f3rio e na Universidade de Aveiro, dirigem a EDMUSA &#8211; Escola Diocesana de M\u00fasica Sacra de Aveiro. 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