{"id":13482,"date":"2008-10-30T11:41:00","date_gmt":"2008-10-30T11:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13482"},"modified":"2008-10-30T11:41:00","modified_gmt":"2008-10-30T11:41:00","slug":"a-sociedade-dificulta-o-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-sociedade-dificulta-o-luto\/","title":{"rendered":"A sociedade dificulta o luto"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quinze anos, Jos\u00e9 Eduardo Rebelo perdeu a mulher (que estava gr\u00e1vida) e as duas filhas num acidente rodovi\u00e1rio. O acontecimento doloroso transformou-se em oportunidade para reflectir sobre o luto e ajudar outras pessoas que o fazem. Professor de Biologia na Universidade de Aveiro, Jos\u00e9 Eduardo Rebelo mergulhou no estudo da Psicologia para melhor compreender o assunto, escreveu um livro (\u201cDesatar o N\u00f3 do Luto\u201d, Editorial Not\u00edcias) e fundou uma associa\u00e7\u00e3o para ajudar pessoas e fam\u00edlias que ficam desorientadas quando perdem entes queridos.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima sexta-feira, dia 31, \u00e0s 21h15, a pedido da par\u00f3quia da Gl\u00f3ria, d\u00e1 uma confer\u00eancia, em Aveiro, no Sal\u00e3o das Florinhas do Vouga.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; As pessoas perderam o sentido do luto?<\/p>\n<p>JOS\u00c9 EDUARDO REBELO &#8211; N\u00e3o. N\u00e3o perderam o sentido do luto, porque todas o fazem. O que acontece \u00e9 que \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil faz\u00ea-lo socialmente, publicamente. A sociedade, preocupada com quest\u00f5es de efic\u00e1cia, e a press\u00e3o social, que exige que tudo seja r\u00e1pido e imediato, \u00e9 que dificultam o luto.<\/p>\n<p>Que consequ\u00eancias adv\u00eam dessa press\u00e3o social para quem est\u00e1 de luto? \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo?<\/p>\n<p>As pessoas que perderam algu\u00e9m precisam de tempo para elaborar o luto e isso exige um apoio social. A pessoa precisa de manifestar os estados emocionais alterados: raiva, tristeza e outras manifesta\u00e7\u00f5es depressivas. E isto n\u00e3o \u00e9 socialmente aceite.<\/p>\n<p>A sociedade d\u00e1 oito dias para uma pessoa se recompor emocionalmente de tudo. Depois segue a vida como se nada tivesse acontecido. No ambiente citadino talvez isto ainda seja mais not\u00f3rio.<\/p>\n<p>Quer dizer que em ambientes mais tradicionais \u00e9 mais f\u00e1cil fazer o luto?<\/p>\n<p>Penso que hoje j\u00e1 n\u00e3o podemos separar ambientes rurais e urbanos, tradicionais e progressistas. A globaliza\u00e7\u00e3o tornou tudo mais fluido. Os mesmos valores entram no dia-a-dia em casa de todos pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O luto depende de v\u00e1rios factores e da disponibilidade das pessoas em aceitarem a pessoa em luto.<\/p>\n<p>A que factores se refere?<\/p>\n<p>S\u00e3o basicamente cinco os factores que influenciam o luto: 1. O grau de vincula\u00e7\u00e3o ou apego \u00e0 pessoa perdida; 2. O grau de gest\u00e3o emocional que a pessoa tem; a intelig\u00eancia emocional e a capacidade de gerir emo\u00e7\u00f5es; 3. O tipo de perda que essa pessoa sofreu. Se for um filho, a dor \u00e9 maior, porque \u00e9 a dor pela perda do futuro. O tipo de morte \u2013 suic\u00eddio, morte natural, morte repentina, morte esperada \u2013 tamb\u00e9m tem influ\u00eancia; 4. O apoio na esfera pr\u00f3xima; 5. O apoio social.<\/p>\n<p>O factor religioso n\u00e3o conta na elabora\u00e7\u00e3o do luto?<\/p>\n<p>Conta em termos de perspectiva face \u00e0 morte. As pessoas religiosas habitualmente experimentam menos medo relativamente \u00e0 morte. Mas quanto ao luto, os factores que apontei \u00e9 que s\u00e3o decisivos.<\/p>\n<p>Mas na perspectiva crist\u00e3, a morte \u00e9 uma separa\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima palavra\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 um processo do luto, que irei explicar no encontro da pr\u00f3xima de sexta-feira e h\u00e1 uma quest\u00e3o que \u00e9 colocada. A religi\u00e3o procura responder a essa quest\u00e3o central, que \u00e9: onde est\u00e1 a pessoa perdida? Ora, o luto \u00e9 uma quest\u00e3o anterior, \u00e9 a quest\u00e3o da despedida de uma pessoa que fazia falta. \u00c9 a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com uma pessoa que nos fazia sentir bem, que nos dava prazer. Por outro lado, a perspectiva religiosa nem sempre \u00e9 a melhor solu\u00e7\u00e3o. Dizer a uma crian\u00e7a que o pai e a m\u00e3e foram para o c\u00e9u pode lev\u00e1-la a pensar que \u201cforam e voltam mais logo\u201d. Como n\u00e3o voltam, a crian\u00e7a pode culpar os pais por n\u00e3o voltarem ou quem lhe disse isso\u2026<\/p>\n<p>Como \u00e9 o processo de luto? Tem etapas?<\/p>\n<p>O processo passa pela fase do choque (1.\u00aa), pela da nega\u00e7\u00e3o emocional (2.\u00aa), pelo reconhecimento da perda (3.\u00aa) e pela de aceita\u00e7\u00e3o (4.\u00aa).<\/p>\n<p>Este processo varia de pessoa para pessoa?<\/p>\n<p>Sim. As fases s\u00e3o as mesmas, mas prolongam-se no tempo de modo diferente e cada pessoa \u00e9 um caso. Se se perde um pai, de alguma forma \u00e9 menos doloroso, porque o pai faz parte do passado. \u00c9 expect\u00e1vel que sobrevivamos a ele. Embora haja pessoas que, com a perda de um mais velho, entrem num pranto muito desigual. J\u00e1 perder um filho \u00e9 algo muito mais complexo. O luto pode durar para o resto da vida, ainda que a pessoa esteja tranquila e calma.<\/p>\n<p>Criou a associa\u00e7\u00e3o Apelo. Quais s\u00e3o os objectivos e onde est\u00e1 presente?<\/p>\n<p>A Apelo tem quatro objectivos: apoio directo \u00e0s pessoas e fam\u00edlias em luto; divulgar o tema \u201cOs afectos: constru\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o e perda\u201d; pesquisar e ensinar sobre o tema do luto; provocar a coopera\u00e7\u00e3o com outras institui\u00e7\u00f5es. Estamos presentes em Aveiro e em mais dezena e meia de locais, entre os quais Braga, Viseu, Coimbra, Lisboa, Algarve, A\u00e7ores e Madeira.<\/p>\n<p>[Na Internet: www.apelo.pt]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quinze anos, Jos\u00e9 Eduardo Rebelo perdeu a mulher (que estava gr\u00e1vida) e as duas filhas num acidente rodovi\u00e1rio. O acontecimento doloroso transformou-se em oportunidade para reflectir sobre o luto e ajudar outras pessoas que o fazem. 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