{"id":13524,"date":"2008-10-30T15:26:00","date_gmt":"2008-10-30T15:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13524"},"modified":"2008-10-30T15:26:00","modified_gmt":"2008-10-30T15:26:00","slug":"carlos-paiao-a-cancao-por-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/carlos-paiao-a-cancao-por-fazer\/","title":{"rendered":"Carlos Pai\u00e3o: A can\u00e7\u00e3o por fazer"},"content":{"rendered":"<p>NUNO GON\u00c7ALO DA PAULA<\/p>\n<p>Carlos Pai\u00e3o faria no pr\u00f3ximo dia 1 de Novembro 51 anos. O Correio do Vouga recorda esta figura da can\u00e7\u00e3o portuguesa quando se completam 20 anos da sua morte (26 de Agosto de 1988) e do lan\u00e7amento do \u00faltimo trabalho, o LP \u201cIntervalo\u201d, e 30 anos da vit\u00f3ria no festival da can\u00e7\u00e3o de \u00cdlhavo (15 de Dezembro de 1978).<\/p>\n<p>Existem pessoas que passam na vida do mundo e que deixam a sua marca, n\u00e3o pela longevidade da sua idade, mas por se destacarem dos demais, com uma esp\u00e9cie de marca de \u00e1gua, que se v\u00ea atrav\u00e9s da luz.<\/p>\n<p>Um desses nomes \u00e9 Carlos Pai\u00e3o que, embora nascido em Coimbra, foi um ilhavense de alma e cora\u00e7\u00e3o. A sua vida de trinta anos \u2013 de um rapaz aparentemente comum \u2013 foi uma estrela cadente que passou. Alguns tiveram o privil\u00e9gio de lhe tocar com as m\u00e3os, e muitos t\u00eam o gosto de a ver no c\u00e9u das suas vidas. Que h\u00e1 de anormal na vida de um rapaz que o destino levou quando a vida ganha verdadeiramente f\u00f4lego e se desenha em tra\u00e7os largos? Numa \u00e9poca em que qualquer pessoa canta, representa, e \u00e9 moda ser vedeta (seja por que motivo for), este rapaz simples deixou um legado que ainda hoje \u00e9 dif\u00edcil compreender e explicar na soma de trinta anos de vida.<\/p>\n<p>M\u00e9dico de forma\u00e7\u00e3o, autor de inspira\u00e7\u00e3o, cantor de talento, Carlos Pai\u00e3o cedo manifestou os seus dotes art\u00edsticos. Era com facilidade que jogava com as palavras, delas tirava o partido dos sons e dos seus duplos sentidos. As suas can\u00e7\u00f5es (algumas centenas) percorrem v\u00e1rios g\u00e9neros musicais, o que desde logo \u00e9 not\u00e1vel. Autores h\u00e1 que se se especializam numa determinada \u00e1rea da criatividade e por l\u00e1 ficam. Carlos Pai\u00e3o, porque desprendido de tudo o que \u00e9 formal, ora escrevia uma can\u00e7\u00e3o de humor (para Herman Jos\u00e9 ou Raul Solnado, por exemplo), ora sentimental (para C\u00e2ndida Branca Flor), ora can\u00e7\u00f5es alegres como o \u201cSenhor extraterrestre\u201d, de Am\u00e1lia, que esteve num livro de leitura da escola, ora temas tel\u00faricos de rara beleza, e lembre-se \u201cEles foram t\u00e3o longe\u201d ou \u201cL\u00e1 longe, Senhora\u201d.<\/p>\n<p>Recordado a obra deste homem, poder\u00e1 ver-se nas cantigas uma t\u00e9cnica de estranho nome: a do \u201cbolo de bolacha\u201d. As suas obras s\u00e3o para toda a gente: para o intelectual que l\u00ea nas entrelinhas a cr\u00edtica que o autor quer fazer, para os ouvidos comuns, que acham a letra muito bem feita e n\u00e3o raramente come\u00e7am a trautear a m\u00fasica, e at\u00e9 para as crian\u00e7as, que lhe acham muita gra\u00e7a. As crian\u00e7as foram sempre p\u00fablico fiel e encantado de Carlos Pai\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas vezes se fala na precocidade e genialidade do m\u00fasico. Nada de mais verdadeiro. Mas h\u00e1, possivelmente, naquilo que escreveu \u2013 frutos intemporais e de safra que aparecem de tempos a tempos \u2013, ra\u00edzes profundamente portuguesas. H\u00e1 nele um toque de Alberto Janes, outro tanto da m\u00fasica popular portuguesa, e ainda alguma coisa dos seus antepassados paternos e maternos que se apaixonaram tamb\u00e9m pela m\u00fasica, sendo o melhor exemplo o primo Manuel Pai\u00e3o. Este autor ilhavense, conjuntamente com Eduardo Damas assinou umas boas dezenas de sucessos, como \u201c\u00d3 tempo volta p\u2019ra tr\u00e1s\u201d. S\u00e3o estas ra\u00edzes que mais valorizam Carlos Pai\u00e3o. Muitas vezes os artistas, por for\u00e7a da sua inten\u00e7\u00e3o de se valorizarem, pretendem ser absolutamente originais. Mas&#8230; como tudo o que nasce sem raiz acaba por flutuar no ar e \u00e9 levado pelo vento. Pai\u00e3o enraizou-se bem naquilo que de melhor tem a m\u00fasica portuguesa e a l\u00edngua p\u00e1tria e depois, sim, fez o seu caminho, de afirma\u00e7\u00e3o art\u00edstica, com uma profunda originalidade, talento e generosidade. Ser\u00e1 dos tra\u00e7os mais belos do seu car\u00e1cter. Nunca guardou o melhor que tinha para si mesmo, ele que tamb\u00e9m foi int\u00e9rprete. Partilhou, ajudou e motivou muitos artistas portugueses, muitos deles ainda por a\u00ed, nos palcos. Tudo isto num rapaz cuja vida se suspendeu aos trinta anos. <\/p>\n<p>Avesso a vaidades, simples no trato e rigoroso em tudo quanto fazia, Carlos Pai\u00e3o passaria neste ano de 2008 os seus cinquenta e um anos de vida, trinta anos depois da vit\u00f3ria no Festival da Can\u00e7\u00e3o de \u00cdlhavo e vinte depois do seu LP \u201cIntervalo\u201d. Foi efectivamente um intervalo, o de Carlos Pai\u00e3o. Os intervalos s\u00e3o sempre para descanso do artista, porque a segunda parte \u00e9 sempre a melhor. E a de Carlos de Pai\u00e3o \u00e9 sem d\u00favida a melhor: \u00e9 a da paz, do reconhecimento em pequenos e grandes, mais novos ou menos novos, do seu trabalho como artista: fresco, leve, mas sempre com mensagem e sentimento, e tamb\u00e9m como homem. Disse um dia Fernando Pessoa que \u201cpartem cedo os que os deuses amam\u201d. Permitam-me que diga que Carlos Pai\u00e3o estar\u00e1 junto de Deus, no Seu Tempo, certamente ensinando a querubins e serafins novas melodias de louvar a Vida, ele que a viveu na verdade e generosidade e estar\u00e1 de sorriso nos l\u00e1bios, porque sempre amou a Vida, e contra ela nada nem ningu\u00e9m pode coisa alguma (nem a morte).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NUNO GON\u00c7ALO DA PAULA Carlos Pai\u00e3o faria no pr\u00f3ximo dia 1 de Novembro 51 anos. 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