{"id":13526,"date":"2008-10-30T15:30:00","date_gmt":"2008-10-30T15:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13526"},"modified":"2008-10-30T15:30:00","modified_gmt":"2008-10-30T15:30:00","slug":"sete-palmos-de-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/sete-palmos-de-terra\/","title":{"rendered":"Sete palmos de terra&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>A vida, a nossa vida vale pelos objectivos que cada um a si mesmo se prop\u00f5e, e n\u00e3o propriamente pelas metas atingidas. Significa esta frase que o valor da vida depende do empenhamento que cada um sabe aplicar em cada momento e em cada actividade, da alma que coloca naquilo que \u00e9 e naquilo que faz. Os objectivos tra\u00e7ados s\u00e3o b\u00fassola a nortear toda a orienta\u00e7\u00e3o dos nossos caminhos. Podemos, de facto, n\u00e3o atingir tudo quanto project\u00e1mos alcan\u00e7ar; por\u00e9m, n\u00e3o podendo embora atingir a plenitude, ningu\u00e9m est\u00e1 dispensado de atingir o poss\u00edvel. Mas tudo depende dos objectivos. Objectivos elevados conduzem necessariamente a vidas com n\u00edvel adequado; objectivos mesquinhos fazem mergulhar na inutilidade da ac\u00e7\u00e3o, na baixeza dos sentimentos e no ego\u00edsmo mais refinado.<\/p>\n<p>Nem toda a gente se orienta pelos mesmos princ\u00edpios, e, sobretudo, pela mesma escala de valores. Quem coloca os valores materiais em primeiro lugar, assume, inevitavelmente, atitudes diferentes daquele que coloca os valores culturais ou sociais l\u00e1 no cimo dos seus objectivos; quem pauta a sua vida pelos valores de moral tem uma outra forma de ver as coisas, de analisar as situa\u00e7\u00f5es e de tomar comportamentos compat\u00edveis. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de fins e de meios. Ser\u00e1 que todos os \u201cfins\u201d justificam os \u201cmeios\u201d? Depende da perspectiva.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que nada mais v\u00eaem do que bens materiais: por eles d\u00e3o tudo, o seu esfor\u00e7o, o seu trabalho, o seu descanso, a sua fam\u00edlia, os seus amigos. Se \u00e9 preciso conseguir mais isto ou mais aquilo, torna-se importante desviar da frente tudo quanto impede de o alcan\u00e7ar, sejam as pessoas, as institui\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 a pr\u00f3pria consci\u00eancia. Muda-se um marco, na escurid\u00e3o da noite, para se \u201capanhar\u201d mais um eucalipto ao vizinho, alteram-se os limites das propriedades lan\u00e7ando aterros de pequena monta, mas continuados, plantam-se \u00e1rvores nos limites para criar a confus\u00e3o, e, mais tarde, tirar proveito da situa\u00e7\u00e3o, apanha-se tudo o que se v\u00ea aparentemente perdido ou desarrumado para ir enchendo a pr\u00f3pria casa, encontra-se ou rouba-se uma carteira e devolvem-se amavelmente os documentos, recebendo uma eventual gorjeta depois de se ter roubado o dinheiro que a carteira transportava, corta-se milho, videiras, \u00e1rvores de fruto, mata-se galinhas e pombas aos vizinhos, lan\u00e7a-se os tais \u201cmaus-olhados\u201d, enche-se e reparte-se \u201ctoneladas\u201d de inveja por todo o lado. Numa palavra, rouba-se descaradamente e rouba-se \u00e0s escondidas, os inocentes e os incautos. H\u00e1 gente que faz carreira farta nestes neg\u00f3cios, querendo convencer-nos de que \u201co que \u00e9 preciso \u00e9 saber viver\u201d. Enchem as nossas ruas e passeiam-se com as suas m\u00e3os sempre metidas nos bolsos&#8230; dos outros.<\/p>\n<p>Volto agora atr\u00e1s, para perguntar se os fins justificam os meios. Regra geral, no fim da vida, a palavra mais usada \u00e9 \u201cdeixo\u201d. Deixo isto, deixo aquilo! N\u00e3o porque queira, mas por tem de ser. E deixa-se, para qu\u00ea? Criados e educados nestes \u201cprinc\u00edpios\u201d, sem princ\u00edpios, os filhos logo se pegam \u00e0 bulha por causa das partilhas. E l\u00e1 v\u00eam as zangas, os tribunais, as fam\u00edlias divididas, novas e velhas invejas agora juntas e mais requintadas.<\/p>\n<p>E a consci\u00eancia, para onde se ausentou? Talvez tenha ido de f\u00e9rias! E Deus? Bom, isso&#8230; \u00e9 melhor que n\u00e3o exista nada para al\u00e9m da morte! Conv\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? H\u00e1 muitos ateus por conveni\u00eancia, h\u00e1 gente que n\u00e3o acredita na vida para al\u00e9m da morte por conveni\u00eancia! Sem consci\u00eancia e sem Deus o homem dificilmente respeita o outro homem, antes com toda a facilidade o explora! \u00c9 a tal esperteza de alguns a sobrepor-se \u00e0 ingenuidade ou fragilidade de outros!<\/p>\n<p>A gan\u00e2ncia \u00e9 uma das grandes tenta\u00e7\u00f5es do nosso mundo, embebedado no Ter e esquecido do Ser; um mundo que marca posi\u00e7\u00e3o pelas contas banc\u00e1rias ou pelo elevado n\u00famero de propriedades adquiridas, um mundo que se afirma por uma filosofia: Que ningu\u00e9m me fa\u00e7a sombra, porque, se algu\u00e9m o fizer, eu tenho meios para chegar sempre mais alto, nem que, para tal, seja necess\u00e1rio p\u00f4r todos os outros abaixo.<\/p>\n<p>Li, algures, que o homem n\u00e3o pode ser como o porco, que, sempre com o focinho na terra, n\u00e3o \u00e9 capaz de \u201colhar o c\u00e9u\u201d! Se o ser humano n\u00e3o \u00e9 capaz de ver mais longe e mais alto, ent\u00e3o, poder\u00e1 acontecer aquilo que, h\u00e1 dias, me fez pensar nesta cr\u00f3nica: A um homem, excessivamente preocupado em meter todo o mundo dentro do per\u00edmetro dos seus bra\u00e7os, inquieto por n\u00e3o ter conseguido ainda mais uns palmos de terra a um vizinho, e apanhado em flagrante, este lhe disse: \u201cOlhe, amigo, com essa sua gan\u00e2ncia toda, temo que, depois de morto, ainda abra o caix\u00e3o, e, estendendo o bra\u00e7o para fora, possa roubar a terra ao seu vizinho do lado. <\/p>\n<p>Macabro?! Talvez pudesse ser argumento para um filme, por\u00e9m, n\u00e3o deixa de ser uma \u00f3ptima interpela\u00e7\u00e3o para o sentido da vida. E n\u00e3o esque\u00e7a: Sete palmos de terra chegam, e, ao fim de alguns anos, at\u00e9 podemos perder o direito a eles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida, a nossa vida vale pelos objectivos que cada um a si mesmo se prop\u00f5e, e n\u00e3o propriamente pelas metas atingidas. 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