{"id":1354,"date":"2010-03-31T12:00:00","date_gmt":"2010-03-31T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1354"},"modified":"2010-03-31T12:00:00","modified_gmt":"2010-03-31T12:00:00","slug":"pode-viver-se-sem-vocacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pode-viver-se-sem-vocacao\/","title":{"rendered":"Pode viver-se sem voca\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>A pergunta pode parecer estranha\u2026 Pode soar a porta entreaberta para um discurso redondo, feito a pensar em destinat\u00e1rios bem definidos e s\u00f3 para esses. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. A pergunta tem mesmo um sentido universal. Poder\u00e1 o ser humano viver sem voca\u00e7\u00e3o? Poder\u00e1 algu\u00e9m sobreviver \u00e0 ang\u00fastia da pergunta sobre para onde vamos sem abrir a janela de possibilidade de que caminhamos para algum lado? <\/p>\n<p>\u00c9 exactamente aqui que a pergunta ganha um sentido universal: pode o homem viver o dia-a-dia, nas suas felicidades e tristezas, na sua miudeza e grandeza, sem rumar em direc\u00e7\u00e3o a Algu\u00e9m que chama, sem, pelo menos, levantar o v\u00e9u (num processo de desvelamento, de revela\u00e7\u00e3o, t\u00e3o presente no Cristianismo!) que permite perceber que a vida se encaminha para um determinado sentido, num determinado rumo? <\/p>\n<p>Parecendo ser uma pergunta sobre o que se deve ser, na vida, esta inquieta\u00e7\u00e3o que serve de t\u00edtulo a este texto \u00e9, muito mais, uma interroga\u00e7\u00e3o sobre o sentido da liberdade e do agir humano. Na verdade, num tempo como este, em que se preconiza como valor fundamental a liberdade, pode esmagar-se o significado de tal desejo se se ocultar o dinamismo vocacional da exist\u00eancia humana. \u00c9 que estamos diante de uma ideia que pode esgotar-se em si mesma e inclusive destruir-se se for entendida apenas como uma for\u00e7a que nos arranca da opress\u00e3o de algo: estaremos, neste quadro, a falar de liberdade de\u2026 Liberdade de fazer ou pensar ou agir\u2026 entendida como a autonomia perante toda a opress\u00e3o. Mas uma tal defini\u00e7\u00e3o, s\u00f3 por si, conduz ao isolamento de cada um em si mesmo, pois, em \u00faltima inst\u00e2ncia, se isto esgotar tudo o que deve entender-se por liberdade, at\u00e9 o outro, que vive a meu lado, pode ser factor de opress\u00e3o e, por isso, limite \u00e0 minha liberdade. A hist\u00f3ria provou e continua a provar, os limites s\u00e9rios desta vis\u00e3o da liberdade, que fecha o homem em si mesmo, que desfaz cada um num individualismo, em vez de o estruturar como pessoa. \u00c9 apenas quando a liberdade \u00e9 entendida como liberdade para, como liberdade que me encaminha para um determinado rumo, que me realiza, na medida em que respondo a uma voz que me chama, apenas nessa altura a liberdade passa a entender-se como condi\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o com os outros. E aqui cabe falar de voca\u00e7\u00e3o, se a entendermos como resposta a \u00abchamamento\u00bb (do Latim \u00abvocare\u00bb, \u00abchamar\u00bb, \u00abapelar\u00bb). Assim, serei livre se responder e corresponder. Assim, de facto, liberdade ser\u00e1 concomitante a responsabilidade (pois esta nasce da ideia latina de \u00abreponsa\u00bb &#8211; \u00abresposta\u00bb). Sou mais livre quanto mais corresponder, quanto mais me encaminhar no sentido da Voz que chama e que se faz eco, no interior de mim, na minha consci\u00eancia pessoal, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no encontro com os outros. Na realidade, todas as ci\u00eancias humanas, se dispostas a ouvir o homem, genuinamente, concluem que a consci\u00eancia de si s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no encontro com os outros e, radicalmente, com o Outro (Deus), que chama, constantemente. Como sublinham os grandes pensadores da nossa \u00e9poca, de entre os quais vale a pena destacar Paul Ricoeur ou E. Levinas, \u00abo outro \u00e9 justamente aquele que, pela sua alteridade (condi\u00e7\u00e3o de ser outro), me chama, me convoca, e, dessa forma, em faz sair do encerramento de mim mesmo.\u00bb. Podem parecer palavras apenas da filosofia, abstractas, apolog\u00e9ticas, mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 ser humano se n\u00e3o houver encontro, como o comprovam os casos das crian\u00e7as que s\u00e3o abandonadas na selva e amamentadas por animais selvagens: nunca, at\u00e9 encontrarem e serem educadas por seres humanos, tiveram consci\u00eancia de si mesmas. S\u00f3 no encontro e na resposta \u00e0 interpela\u00e7\u00e3o de outros iguais a si \u00e9 que foram capazes de tomar consci\u00eancia de si. \u00c9 que, com efeito, o ser humano est\u00e1 geneticamente marcado pelo dinamismo da voca\u00e7\u00e3o, da resposta a Algu\u00e9m que chama. E quando tal falha, o ser humano est\u00e1, realmente, em perigo. Uma sociedade que quer libertar-se, mas insiste em n\u00e3o se questionar sobre para onde ou se vai para algum lado, est\u00e1 a p\u00f4r em causa a sobreviv\u00eancia de si mesma e dos seus membros que, progressivamente, se v\u00e3o degradando, reduzindo-se de pessoas a meros indiv\u00edduos. <\/p>\n<p>Ser\u00e1 ainda sem sentido a pergunta inicial? E haver\u00e1 alguma d\u00favida sobre qual o sentido da resposta?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pergunta pode parecer estranha\u2026 Pode soar a porta entreaberta para um discurso redondo, feito a pensar em destinat\u00e1rios bem definidos e s\u00f3 para esses. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. A pergunta tem mesmo um sentido universal. Poder\u00e1 o ser humano viver sem voca\u00e7\u00e3o? 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