{"id":1359,"date":"2010-04-15T16:31:00","date_gmt":"2010-04-15T16:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1359"},"modified":"2010-04-15T16:31:00","modified_gmt":"2010-04-15T16:31:00","slug":"uma-igreja-de-irmaos-nao-uma-sociedade-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-igreja-de-irmaos-nao-uma-sociedade-de-classes\/","title":{"rendered":"Uma igreja de irm\u00e3os, n\u00e3o uma sociedade de classes"},"content":{"rendered":"<p>A Igreja \u00e9, acima de tudo, manifesta\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio de Deus, sinal e instrumento do seu des\u00edgnio de salva\u00e7\u00e3o universal. Este des\u00edgnio concretiza-se e torna-se vis\u00edvel num Povo de irm\u00e3os, o Povo de Deus na sua realidade hist\u00f3rica. Passaram-se s\u00e9culos a ver a Igreja \u00e0 maneira das sociedades civis, bem organizada para os fins religiosos e n\u00e3o s\u00f3 para estes. Apesar de, desde h\u00e1 s\u00e9culos, se professar a f\u00e9 numa \u201cIgreja santa, cat\u00f3lica e apost\u00f3lica\u201d que, em tempos, se dizia tamb\u00e9m \u201cromana\u201d, poucos a viam Igreja Comunh\u00e3o com Deus e com os outros crist\u00e3os. As \u201cclasses\u201d apagaram a comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que n\u00e3o faltaram, ao longo dos s\u00e9culos, crist\u00e3os conscientes e corajosos, muitos deles santos, a denunciar, de modo prof\u00e9tico, este desvio para o profano que tocava o essencial da Igreja e da sua miss\u00e3o. Foram verdadeiros profetas e, por isso, n\u00e3o passaram sem as incompreens\u00f5es e at\u00e9 as persegui\u00e7\u00f5es, pr\u00f3prias de quem denuncia infidelidades e toca em interesses pessoais e de grupo, os mais diversos.<\/p>\n<p>A necessidade de voltar ao Evangelho crescia em muitos sectores. Ant\u00f3nio Rosmini, um padre italiano que morreu em meados do s\u00e9culo XIX, agora elevado aos altares, fala com \u201cuma arriscada ousadia\u201d das \u201cchagas da Igreja\u201d, a necessitar de cura. A ousadia saiu-lhe cara. Tempos depois se viu que s\u00f3 um concilio ecum\u00e9nico tinha autoridade para tomar medidas a n\u00edvel universal e marcar um novo rumo \u00e0 comunidade eclesial. <\/p>\n<p>No campo doutrin\u00e1rio o caminho do regresso \u00e0s origens foi de um enriquecimento extraordin\u00e1rio. A Igreja, reflectindo sobre si mesma, centrou a sua exist\u00eancia no Mist\u00e9rio de Deus, afirmou-se como Povo, no qual e partir do qual se operava a salva\u00e7\u00e3o de Deus, tomou consci\u00eancia da comunh\u00e3o a que \u00e9 chamada em cada dia, afirmou que a hierarquia, necess\u00e1ria ao crescimento da comunidade n\u00e3o se traduz por honras ou poder humano, mas por servi\u00e7o, deu lugar de merecido relevo aos leigos, em virtude da sua voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o, su-blinhou a voca\u00e7\u00e3o de todos os crist\u00e3os \u00e0 santidade, p\u00f4s em realce a vida dos consagrados e a import\u00e2ncia da pr\u00e1tica dos conselhos evang\u00e9licos, deixou claro o sentido peregrinante da Igreja, rumo \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o plena, mostrou, por fim, Maria, M\u00e3e de Deus, como modelo para todos os crist\u00e3os na sua viv\u00eancia di\u00e1ria. Noutro documento fundamental estabelece-se a rela\u00e7\u00e3o Igreja \u2013 Mundo, como uma rela\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria. <\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o espiritual e evang\u00e9lica marcava a vida da Igreja, como dom de Deus ao mundo e como luz de Cristo para todos os homens e obrigava a um reconhecimento cuidadoso do caminho a seguir, tendo em considera\u00e7\u00e3o consequente o que nela \u00e9 essencial e permanente, e o que \u00e9 acidental e, por isso, transit\u00f3rio e ef\u00e9mero.<\/p>\n<p>Os papas do Conc\u00edlio logo come\u00e7aram por expurgar o que podia ofuscar a imagem da Igreja, dando exemplo de situa\u00e7\u00f5es a ultrapassar e a remediar, frisando com factos, que esta opera\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria devia continuar sem demoras, nem desvios, por parte de todos. Paulo VI foi, desde o in\u00edcio, clarividente e corajoso nas reformas propostas, como as express\u00f5es da colegialidade, os s\u00ednodos dos bispos, os conselhos de correponsabilidade pastoral. Chamou ao governo da Igreja gente de diversos pa\u00edses, iniciando assim um processo denunciador do \u201ccarreirismo\u201d eclesi\u00e1stico, tipo italiano, deu valor \u00e0s confer\u00eancias episcopais, criou novos \u00f3rg\u00e3os de governo eclesial consent\u00e2neos com as exig\u00eancias do tempo, multiplicou os gestos pessoais de humildade e de di\u00e1logo. Como eu pr\u00f3prio o posso testemunhar, n\u00e3o perdia uma oportunidade para evidenciar a import\u00e2ncia do Conc\u00edlio. Outros padres conciliares, cardeais e bispos, em conson\u00e2ncia com o Papa, propu-gnaram a simplifica\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, dos t\u00edtulos e das vestes dos cl\u00e9rigos, a revis\u00e3o das estruturas eclesi\u00e1sticas, a descentraliza\u00e7\u00e3o de Roma\u2026 Reformar com seriedade \u00e9 uma atitude de convers\u00e3o. N\u00e3o seria f\u00e1cil e iria levar o seu tempo. N\u00e3o era, por\u00e9m, de supor que, passados quarenta e cinco anos, se mantenham \u00e0 revelia de orienta\u00e7\u00f5es conciliares, situa\u00e7\u00f5es sem que nada pastoralmente as justifique.<\/p>\n<p>Seria injusto dizer-se ou pensar-se que, em todos estes anos, nada se fez. Muitas coisas n\u00e3o teriam sido poss\u00edveis sem o Vaticano II, como j\u00e1 dois papas n\u00e3o italianos,  o despertar do laicado apost\u00f3lico, a preocupa\u00e7\u00e3o de muitos bispos e padres de andarem por caminhos conciliares, a descoberta da import\u00e2ncia da Palavra de Deus e da Liturgia, a organiza\u00e7\u00e3o da pastoral da caridade, o sentido de comunidade em par\u00f3quias e grupos, o dinamismo mission\u00e1rio, as exig\u00eancias de di\u00e1logo com a sociedade, a sensibilidade ecum\u00e9nica, a independ\u00eancia do poder civil\u2026 Mas persistem ainda muitas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o condizentes com a teologia conciliar, mormente do Povo de Deus, que entravam o caminho renovador e desvirtuam o rosto de uma Igreja, que se diz \u201cserva e pobre\u201d. Caminhos que esperam, quem sabe, por alguns m\u00e1rtires do Conc\u00edlio\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja \u00e9, acima de tudo, manifesta\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio de Deus, sinal e instrumento do seu des\u00edgnio de salva\u00e7\u00e3o universal. Este des\u00edgnio concretiza-se e torna-se vis\u00edvel num Povo de irm\u00e3os, o Povo de Deus na sua realidade hist\u00f3rica. Passaram-se s\u00e9culos a ver a Igreja \u00e0 maneira das sociedades civis, bem organizada para os fins religiosos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-1359","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1359","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1359"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1359\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}