{"id":1364,"date":"2010-05-05T09:30:00","date_gmt":"2010-05-05T09:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1364"},"modified":"2010-05-05T09:30:00","modified_gmt":"2010-05-05T09:30:00","slug":"e-muito-importante-que-os-sacerdotes-se-sintam-acompanhados-pelos-leigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/e-muito-importante-que-os-sacerdotes-se-sintam-acompanhados-pelos-leigos\/","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 muito importante que os sacerdotes se sintam acompanhados pelos leigos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Carlos Henrique do Carmo Silva \u00e9 professor de Filosofia na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, em Lisboa. Quer em livros, quer em revistas da especialidade, tem cerca de duas centenas de trabalhos publicados. Esteve na Moita, Anadia, onde o Correio do Vouga o entrevistou, a falar a padres e leigos sobre Jo\u00e3o Maria Vianney, o prior da par\u00f3quia de Ars, figura tutelar do Ano Sacerdotal. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Foi convidado para falar sobre o Cura d\u2019Ars. \u00c9 uma figura que o fascina?<\/p>\n<p>CARLOS HENRIQUE DO CARMO SILVA &#8211; Deixei-me apaixonar, n\u00e3o h\u00e1 muito tempo, pela figura dele, pela sua simplicidade e pelo encontro que proporcionava. Fez-me lembrar outros santos sacerdotes com quem tive o dom de me encontrar ao longo da vida. O P.e Victor Espadilha [p\u00e1roco da Moita e de Vila Nova de Monsarros] convidou-me porque j\u00e1 me conhecia de outros cursos de espiritualidade que tenho feito no norte do pa\u00eds, com os padres carmelitas, em Marco de Canavezes. Penso que gostou das minhas interven\u00e7\u00f5es e achou que teria algum interesse que eu viesse falar da espiritualidade de Jo\u00e3o Maria Vianney, que foi escolhido como modelo de sacerd\u00f3cio, neste Ano Sacerdotal, por Bento XVI.<\/p>\n<p>Quer partilhar alguns nomes desses padres que foram para si um dom?<\/p>\n<p>Preferia n\u00e3o falar dos meus casos pessoais. Mas encontrei ao longo da vida alguns sacerdotes de uma simplicidade imensa que deixavam transparecer a presen\u00e7a, a transpar\u00eancia, o olhar directo que como que nos coloca Deus no cora\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 que \u00e9 importante num sacerdote e n\u00e3o a sua cultura teol\u00f3gica. Melhor, a cultura teol\u00f3gica \u00e9 importante, mas sobre aquela base t\u00edpica do Cura d\u2019Ars. Na igreja, h\u00e1 lugar para muitos dons. Os franciscanos t\u00eam uns, os dominicanos outros, os jesu\u00edtas outros ainda. Durante muito tempo houve um preconceito: que a vida espiritual era mais desenvolvida pelos padres religiosos do que pelos diocesanos. Isso \u00e9 errado. O clero diocesano \u00e9 t\u00e3o convidado \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o como todos os outros. E at\u00e9 est\u00e1 exposto a desafios mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Que caracter\u00edsticas v\u00ea no Cura d\u2019Ars que sejam importantes para os padres de hoje?<\/p>\n<p>Eu real\u00e7aria principalmente tr\u00eas aspectos: o recolhimento, a vida de ora\u00e7\u00e3o intensa e a simplicidade. \u00c9 claro que os tempos em que hoje vivemos s\u00e3o mais complexos e exigem da parte do sacerdote uma prepara\u00e7\u00e3o mais intensa, tamb\u00e9m do ponto de vista cient\u00edfico e cultural. Quando se diz que h\u00e1 uma exemplaridade no Cura d\u2019Ars n\u00e3o significa que o exemplo deva ser imitado directamente. O que pode ser imitado \u00e9 o esp\u00edrito que anima esse exemplo e n\u00e3o as formas concretas. \u00c9 preciso ver que o Cura d\u2019Ars viveu na primeira metade do s\u00e9culo XIX e tem uma espiritualidade muito ligada ao mundo rural, uma catequese muito b\u00e1sica, baseada nos sacramentos e em f\u00f3rmulas simples de ora\u00e7\u00e3o. O exemplo de dedica\u00e7\u00e3o, fidelidade, simplicidade de vida, de vida de ora\u00e7\u00e3o e penit\u00eancia, de integralidade do seu testemunho continua a ser muito v\u00e1lido. Isto \u00e9 que \u00e9 perene.<\/p>\n<p>Ao real\u00e7ar essas qualidades, h\u00e1 um certa cr\u00edtica ao modo como o sacerd\u00f3cio ministerial \u00e9 desenvolvido actualmente. No fundo, qualquer padre gostaria de ser p\u00e1roco de aldeia, de ter tempo para acompanhar mais pessoalmente a sua comunidade, em vez de andar a correr para garantir m\u00faltiplos servi\u00e7os\u2026<\/p>\n<p>Com certeza que sim. Na realidade, h\u00e1 um activismo que n\u00e3o lhes deixa tempo para o que \u00e9 mais importante. S\u00e3o poucos, t\u00eam v\u00e1rias par\u00f3quias a seu cargo, t\u00eam de correr muito. Eu, como leigo, sinto o que muitos leigos sentem. \u00c0s vezes recorremos a um sacerdote e ele est\u00e1 muito ocupado, n\u00e3o tem tempo para as confiss\u00f5es, para nos atender\u2026 Penso que h\u00e1 necessidade de haver uma outra prepara\u00e7\u00e3o. Sobretudo, h\u00e1 que distinguir que o sacerdote n\u00e3o \u00e9 um assistente social, n\u00e3o \u00e9 apenas algu\u00e9m que tem de cumprir uma fun\u00e7\u00e3o para o exterior, mas \u00e9 algu\u00e9m que tem uma vida interior, espiritual, para n\u00e3o dizer m\u00edstica, a vida de ora\u00e7\u00e3o, de acompanhamento das almas, de direc\u00e7\u00e3o espiritual, algo que hoje faz tanta falta e para a qual h\u00e1 poucos sacerdotes qualificados.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso referir, no entanto, que o Cura d\u2019Ars tamb\u00e9m tinha muita actividade, inclusive de car\u00e1cter assistencial. De corpo franzino, diz-se que tinha um andar nervoso. H\u00e1 livros seus que t\u00eam marcas do pequeno-almo\u00e7o. Comia enquanto estava a fazer outras coisas. Mas alternava a imensa actividade exterior com longas horas no confession\u00e1rio e na ora\u00e7\u00e3o \u00edntima.<\/p>\n<p>Na sua palestra aos padres e leigos, referiu, no entanto, que falta aos padres actuais uma forma\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter cient\u00edfico\u2026<\/p>\n<p>Noto isso no ensino que dou aos seminaristas, na Universidade Cat\u00f3lica, em Lisboa \u2013 alguns dos meus alunos s\u00e3o seminaristas dos semin\u00e1rios diocesanos e dos institutos. Noto que t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, ligada \u00e0s Humanidades. Faz falta uma prepara\u00e7\u00e3o na Cosmologia, na F\u00edsica, na Biologia \u2013 mundos que p\u00f5em quest\u00f5es \u00e9ticas s\u00e9rias. Faz falta uma forma\u00e7\u00e3o na Psicologia \u2013 para discernir casos que t\u00eam de acompanhar, que tanto podem ser casos espirituais como psiqui\u00e1tricos. E, sobretudo, a cultura cient\u00edfica \u00e9 importante para o di\u00e1logo com a cultura complexa de hoje, que n\u00e3o \u00e9, certamente, t\u00e3o simples e t\u00e3o r\u00fastica como era a do tempo do Cura d\u2019Ars, no s\u00e9c. XIX.<\/p>\n<p>Sendo professor de candidatos ao sacerd\u00f3cio, nota alguma mudan\u00e7a no perfil dos candidatos?<\/p>\n<p>Noto uma maior exig\u00eancia, e julgo que maior maturidade. Houve anos em que se notava uma certa ligeireza na forma\u00e7\u00e3o. Penso que agora est\u00e1-se a sentir mais exig\u00eancia. \u00c9 uma percep\u00e7\u00e3o minha e pode ser subjectiva, mas parece-me que h\u00e1 maior exig\u00eancia da parte das casas religiosas e dos semin\u00e1rios em que os alunos est\u00e3o. Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o tenhamos de exigir muito mais, sobretudo porque houve um abaixamento de n\u00edvel cient\u00edfico e cultural por v\u00e1rios motivos. Por um lado, houve um abaixamento geral na exig\u00eancia do ensino secund\u00e1rio e superior, por outro lado, havendo menos voca\u00e7\u00f5es talvez se tenha ca\u00eddo na preocupa\u00e7\u00e3o pelo n\u00famero em vez de se cuidar da qualidade.<\/p>\n<p>O Ano Sacerdotal foi proclamado por Bento XVI para p\u00f4r os padres e o sacerd\u00f3cio ministerial no centro da reflex\u00e3o eclesial, para que se recentre o sacerd\u00f3cio no essencial. Isto tem alguma coisa a ver com os leigos?<\/p>\n<p>Tem tudo a ver com os leigos. Os leigos s\u00e3o os destinat\u00e1rios da miss\u00e3o dos padres. Temos, enquanto leigos, uma palavra muito importante na exig\u00eancia que pomos aos nossos sacerdotes. Por outro lado, em sentido alargado, n\u00f3s tamb\u00e9m somos sacerdotes, somos um povo sacerdotal. \u00c9 muito importante os sacerdotes sentirem-se acompanhados pelos leigos. \u00c0s vezes est\u00e3o muito desacompanhados. Sentem-se sozinhos. Os leigos s\u00f3 lhes pedem coisas, sacramentos, isto e aquilo. Mas \u00e9 preciso uma partilha de espiritualidade e de vida no sentido mais profundo.<\/p>\n<p>Bons leigos fazem bons padres e vice-versa?<\/p>\n<p>Creio que sim. Sem d\u00favida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Henrique do Carmo Silva \u00e9 professor de Filosofia na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, em Lisboa. Quer em livros, quer em revistas da especialidade, tem cerca de duas centenas de trabalhos publicados. 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