{"id":13699,"date":"2008-11-19T16:57:00","date_gmt":"2008-11-19T16:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=13699"},"modified":"2008-11-19T16:57:00","modified_gmt":"2008-11-19T16:57:00","slug":"do-olhar-de-deus-ao-olho-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/do-olhar-de-deus-ao-olho-de-deus\/","title":{"rendered":"Do olhar de Deus ao olho de deus"},"content":{"rendered":"<p>Sbre a videovigil\u00e2ncia nas escolas <!--more--> Uma ap\u00f3s outra, as escolas b\u00e1sicas e secund\u00e1rias do pa\u00eds v\u00e3o instalando sistemas de videovigil\u00e2ncia, sob o pretexto da necessidade de evitar o roubo dos bens de alunos e funcion\u00e1rios. <\/p>\n<p>Atendendo a que o nosso intuito, ao abordar esta mat\u00e9ria, n\u00e3o \u00e9 problematizar quest\u00f5es de ordem laboral, n\u00e3o enveredaremos pela discuss\u00e3o sobre os custos no n\u00famero de locais de trabalho que uma tal decis\u00e3o comportar\u00e1, dado que um s\u00f3 funcion\u00e1rio passar\u00e1 a vigiar o espa\u00e7o que, anteriormente, era supervisionado por m\u00faltiplos auxiliares de ac\u00e7\u00e3o educativa (vulgo, \u2018cont\u00ednuo\u2019). Prendem-nos, agora, mat\u00e9rias de outra monta.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de instalar estes sistemas de vigil\u00e2ncia deveria, em nosso entender, suscitar uma viva discuss\u00e3o. Repare-se que se est\u00e1 a impor a uma significativa parte da popula\u00e7\u00e3o um controlo permanente, em espa\u00e7o onde, simultaneamente, obrigamos a que esteja presente. Dito de outro modo: considero que a abordagem a fazer sobre a videovigil\u00e2ncia nas escolas tem contornos muito distintos da que dever\u00e1 ser feita em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 videovigil\u00e2ncia nos demais espa\u00e7os da sociedade. <\/p>\n<p>Em primeiro lugar, porque os alunos s\u00e3o obrigados (o ensino \u00e9 obrigat\u00f3rio) a estar nos precisos locais onde a vigil\u00e2ncia \u00e9 absoluta. Constitucionalmente, tal parece-me revelar debilidades que ainda n\u00e3o vi serem trazidas \u00e0 tona da \u00e1gua. <\/p>\n<p>Em segundo lugar, porque, se \u00e9 certo que os sinais de rendi\u00e7\u00e3o na luta contra uma sociedade violenta se v\u00e3o multiplicando, optando-se, em derradeira inst\u00e2ncia, por este recurso nos espa\u00e7os p\u00fablicos de frequ\u00eancia facultativa, a mesma op\u00e7\u00e3o parece-me ser um sinal de sentido errado quando incide sobre o \u00faltimo reduto da esperan\u00e7a de um mundo diferente: a escola. Se, aqui, onde o objectivo e finalidade \u00e9 educar, os sinais que se d\u00e3o, face ao agravar da viol\u00eancia, confirmam a convic\u00e7\u00e3o de que nada h\u00e1 a fazer, podemos interrogar-nos sobre para que serve a escola.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, vale a pena perguntar sobre qual \u00e9 o tipo de cultura do respeito que se procura promover com a instala\u00e7\u00e3o de tais recursos no espa\u00e7o educativo: assente no medo ou na convic\u00e7\u00e3o do bem? Expliquemo-nos.<\/p>\n<p>Imposi\u00e7\u00e3o ou convic\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 conhecido dos estudiosos da \u00e9tica e da moral que o ser humano que procura o bem pode faz\u00ea-lo por duas ordens de motiva\u00e7\u00e3o: movido pela convic\u00e7\u00e3o interiorizada de que o bem deve ser sempre procurado (moral aut\u00f3noma, interiorizada) ou movido por raz\u00f5es que lhe adv\u00eam do exterior (moral heter\u00f3noma) \u2013 medo de ser apanhado a prevaricar, receio da puni\u00e7\u00e3o, medo da contesta\u00e7\u00e3o social, etc. Ora, ser\u00e1 f\u00e1cil, diante de uma tal s\u00edntese, verificar que, ao optar-se por sistemas de controlo dos alunos que n\u00e3o assentam no di\u00e1logo e na persuas\u00e3o, mas no controlo vigiador, se est\u00e1 a promover uma cultura \u00e9tica assente na heteronomia, na imposi\u00e7\u00e3o exterior, no medo de ser descoberto, movimento que gera cidad\u00e3os, pessoas, n\u00e3o aut\u00f3nomos, que cumprir\u00e3o, apenas, enquanto estiverem sob vigil\u00e2ncia pois, mal ela se relaxe, rapidamente prevaricar\u00e3o. Assim ser\u00e1 no momento de serem leais nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, no cumprimento dos deveres para com o Estado ou em qualquer outra inst\u00e2ncia. S\u00f3 ser\u00e3o leais, s\u00f3 cumprir\u00e3o os deveres para com o Estado se n\u00e3o lhes restar outra hip\u00f3tese sen\u00e3o faz\u00ea-lo. N\u00e3o ser\u00e1 por convic\u00e7\u00e3o que o far\u00e3o, mas por raz\u00f5es de imposi\u00e7\u00e3o exterior.<\/p>\n<p>Uma tal op\u00e7\u00e3o faz evocar modelos pouco evang\u00e9licos de conceber a rela\u00e7\u00e3o com Deus, n\u00e3o assente na certeza do olhar divino amoroso, mas no temor do olho de deus, sempre controlador e amarfanhador do homem. Uma vis\u00e3o que, felizmente, a hist\u00f3ria do Cristianismo soube superar, recuperando as ra\u00edzes evang\u00e9licas que sempre falavam de um Pai de Miseric\u00f3rdia, mas que os novos deuses omnipresentes, omniscientes e omnipotentes querem restaurar, j\u00e1 sem a justi\u00e7a e a caridade de ent\u00e3o que, apesar de tudo, sempre atenuavam a for\u00e7a de uma tal vis\u00e3o penetrante e nada libertadora.<\/p>\n<p>A pior decis\u00e3o \u00e9 a que insiste em convencer-nos de que o mal \u00e9 o verdadeiro bem, provando-nos que o bem \u00e9, afinal, a raiz do mal. O que perdemos justificar\u00e1 os eventuais ganhos? A verdadeira vigil\u00e2ncia \u00e9 a que perscruta o futuro, n\u00e3o a que se satisfaz na invas\u00e3o desumanizadora do presente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sbre a videovigil\u00e2ncia nas escolas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-13699","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13699"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13699\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}