{"id":14118,"date":"2009-01-29T11:45:00","date_gmt":"2009-01-29T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14118"},"modified":"2009-01-29T11:45:00","modified_gmt":"2009-01-29T11:45:00","slug":"ainda-e-actual-o-ii-concilio-do-vaticano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ainda-e-actual-o-ii-concilio-do-vaticano\/","title":{"rendered":"Ainda \u00e9 actual o II Conc\u00edlio do Vaticano?"},"content":{"rendered":"<p>Decorridos 50 anos, coloca-se a pergunta: \u00e9 ainda actual o II Conc\u00edlio do Vaticano? A esta interroga\u00e7\u00e3o procura dar resposta o presente artigo apresentando alguns pontos pertinentes. Texto de Georgino Rocha<\/p>\n<p>A intui\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII de que haviam chegado \u201cnovos tempos\u201d e de que a Igreja precisava de se renovar acentua-se e alarga-se ao longo deste per\u00edodo e n\u00e3o faltam sinais a confirm\u00e1-lo, apesar do caminho percorrido. Por isso, se pode colocar a quest\u00e3o na perspectiva da sua actualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>1. O tempo n\u00e3o \u00e9 apenas novo pelos factos ocorridos ou pelas situa\u00e7\u00f5es criadas, mas pela descoberta assumida de que \u00e9 portador da salva\u00e7\u00e3o que Deus oferece a todos na hist\u00f3ria, revelador do sentido entranhado nos acontecimentos, configurador das oportunidades da realiza\u00e7\u00e3o humana, penhor das realidades futuras, mem\u00f3ria e profecia. <\/p>\n<p>A consci\u00eancia do valor do tempo e do ritmo vertiginoso da sucess\u00e3o das \u201ccoisas\u201d \u00e9 t\u00e3o significativa que pode designar-se n\u00e3o apenas por \u00e9poca de mudan\u00e7as, mas por mudan\u00e7a de \u00e9poca. A provisoriedade imp\u00f4s-se como caracter\u00edstica fundamental do modo de vida actual, real\u00e7ando a import\u00e2ncia do \u201choje\u201d sempre novo e da atitude humana empenhada, sempre aberta e confiante.<\/p>\n<p>A mobilidade demogr\u00e1fica, a comunica\u00e7\u00e3o de massas e de pequenos grupos, a rede interactiva de informatiza\u00e7\u00e3o contribuem enormemente para um modo novo de estar e pensar, de conviver e de ser, de definir prioridades e de estabelecer escalas de valores que marcam estilos de vida e definem crit\u00e9rios de conviv\u00eancia social.<\/p>\n<p>A intensidade com que \u00e9 vivido cada momento tende a privilegiar o subjectivo, a absolutizar o relativo em vez das op\u00e7\u00f5es duradoiras, definitivas e consistentes. Um horizonte amplo se abre \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o \u201creitora\u201d dos comportamentos humanos, privados e p\u00fablicos. Uma redobrada e nova aten\u00e7\u00e3o pastoral \u00e9 exigida.<\/p>\n<p>2. Situada no tempo e sentindo o seu impacto, a Igreja aprofunda a consci\u00eancia do seu ser mist\u00e9rio de comunh\u00e3o em ordem a configurar de forma mais adequada o seu ser sacramento de salva\u00e7\u00e3o. A fidelidade a Jesus Cristo impele-a a estar atenta \u00e0 cultura, aos contextos, \u00e0s linguagens e a procurar inserir-se para melhor servir.<\/p>\n<p>Sendo una e \u00fanica, realiza-se numa pluralidade de comunidades dispersas, mas em comunh\u00e3o org\u00e2nica e din\u00e2mica; sendo santa e apost\u00f3lica, traz consigo as limita\u00e7\u00f5es e defici\u00eancias humanas acumuladas ao longo da hist\u00f3ria; sendo cat\u00f3lica est\u00e1 aberta ao universal e condensa num local os meios indispens\u00e1veis \u00e0 salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta auto-compreens\u00e3o eclesial manifestou-se de forma significativa em iniciativas emblem\u00e1ticas como os S\u00ednodos e a cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os reconhecidos de participa\u00e7\u00e3o: assembleias e conselhos, designadamente. Mas expressa-se igualmente em gestos e atitudes eloquentes, embora discretas, como a solidariedade espiritual, a partilha de bens, o apostolado de vizinhan\u00e7a, o voluntariado social e mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia desta realidade contrasta com a lentid\u00e3o de processos de renova\u00e7\u00e3o global, com a raridade de projectos comunit\u00e1rios, com a debilidade da rede de comunica\u00e7\u00f5es no interior das comunidades e destas com a sociedade envolvente e distante.<\/p>\n<p>3. Vivendo no tempo e no espa\u00e7o, a Igreja convive com outras realidades que tendem a realizar servi\u00e7os que tradicionalmente lhe competem. A sociedade comporta uma pluralidade de institui\u00e7\u00f5es que realizam as mais diversas fun\u00e7\u00f5es Tanto no campo religioso como social e educativo. Em formas est\u00e1veis de presen\u00e7a e interven\u00e7\u00e3o ou espor\u00e1dicas e ocasionais. <\/p>\n<p>Situar-se nos novos contextos s\u00f3cio-culturais, fomentar a autonomia do secular num quadro de valores evang\u00e9licos, manter a pr\u00f3pria identidade e entrar em rela\u00e7\u00e3o com \u201cas m\u00faltiplas vozes do nosso tempo\u201d constitui um repto deveras interpelante e urgente. <\/p>\n<p>Por exig\u00eancias de fidelidade crescente \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o, a Igreja est\u00e1 chamada a intensificar o di\u00e1logo com as culturas, as religi\u00f5es e as confiss\u00f5es religiosas num contexto tendencialmente laicista e hostil, a traduzir em formas concretas a sua op\u00e7\u00e3o pelo servi\u00e7o \u00e0 pessoa, pelo ecumenismo, pela defesa e promo\u00e7\u00e3o das grandes causas da humanidade como a luta contra a pobreza imposta, a paz, a justi\u00e7a, a vida, designadamente humana em tudo o que a pode dignificar. Traduzir e intervir, agindo \u201cnas primeiras linhas\u201d.<\/p>\n<p>4. Salvaguardando sempre a dignidade humana, surge a liberdade religiosa como sua express\u00e3o qualificada, como direito fundamental numa compreens\u00e3o antropol\u00f3gica tipicamente crist\u00e3. Sendo imagem e semelhan\u00e7a do Criador no ser e no agir, toda a pessoa reencontra em Jesus Cristo a plenitude que comporta germinalmente e est\u00e1 chamada a atingir. <\/p>\n<p>Esta \u00e9 outra \u00e1rea em que \u201cmergulha\u201d o texto conciliar, assumindo a rela\u00e7\u00e3o da verdade e da liberdade como distintivo da consci\u00eancia pessoal e da mensagem crist\u00e3. O caminho percorrido tem-se deparado com obst\u00e1culos que se convertem em oportunidades de aprofundamento de conte\u00fados e de pedagogias de implementa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Surgem tamb\u00e9m riscos que \u201cfazem ver\u201d outras faces daquela rela\u00e7\u00e3o. O encontro com o fundamentalismo e as suas m\u00faltiplas express\u00f5es provoca atitudes de maior pondera\u00e7\u00e3o e retrac\u00e7\u00e3o. O alastrar do \u201ctolerantismo\u201d como mentalidade perfilhada por muitos gera perplexidades e confus\u00f5es. O an\u00fancio da verdade torna-se mais exigente e o respeito pela liberdade mais qualificado. O reconhecimento do outro exige a preserva\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade. \u00c9 este um campo onde, como narra a par\u00e1bola do Evangelho, se escondem j\u00f3ias de grande quilate que \u00e9 urgente descobrir, apreciar e integrar na harmonia da unidade plural.<\/p>\n<p>5. A compreens\u00e3o da Igreja como \u00edcone da Trindade &#8211; povo de Deus, corpo de Cristo e templo do Esp\u00edrito \u2013 introduz um novo dinamismo \u00e0 institui\u00e7\u00e3o e dota os seus membros de energias peculiares que expressam a sua dignidade e os capacitam para a miss\u00e3o. Enquanto povo torna-se o rosto humano mais reconhec\u00edvel do mist\u00e9rio. Enquanto corpo credencia a sua organiza\u00e7\u00e3o funcional ao servi\u00e7o da vida a comunicar. Enquanto templo sente-se \u201chabitada\u201d pelo Esp\u00edrito que a enriquece com os seus dons e credencia os seus membros. A dignidade de todos sup\u00f5e e exige fun\u00e7\u00f5es especiais de alguns, como \u00e9 o caso do minist\u00e9rio ordenado e da vida consagrada.<\/p>\n<p>A renova\u00e7\u00e3o conciliar expressa e amplia este dado fundamental em passos significativos e coerentes. A comunh\u00e3o converte-se em p\u00f3lo de atrac\u00e7\u00e3o e de irradia\u00e7\u00e3o. A participa\u00e7\u00e3o em via de credita\u00e7\u00e3o e identidade. A forma\u00e7\u00e3o em exig\u00eancia vitalizadora da consci\u00eancia de perten\u00e7a e de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, a multiforme riqueza dos dons do Esp\u00edrito, a mem\u00f3ria-profecia da vida e ac\u00e7\u00e3o das primeiras comunidades crist\u00e3s, a pluralidade das necessidades do nosso tempo indiciam claramente a urg\u00eancia de prosseguir esta renova\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de comunidades eclesiais a atender e de \u00e1reas culturais a evangelizar que no sil\u00eancio fazem ouvir o clamor da sua necessidade. <\/p>\n<p>6. O Vaticano II constitui o maior evento eclesial do s\u00e9culo XX. Pelas intui\u00e7\u00f5es que teve e documentos que elaborou. Pelas sensibilidades que reuniu e correntes que congregou. Pela anima\u00e7\u00e3o renovadora que suscitou nos crist\u00e3os e pela esperan\u00e7a que fez germinar em tantas pessoas de boa vontade. <\/p>\n<p>Mas sobretudo por ser a epifania do Esp\u00edrito que decididamente marca um novo ritmo \u00e0 Igreja para acertar o passo com a marcha da hist\u00f3ria e expressar de forma mais eficaz a sua solidariedade com toda a humanidade, sobretudo a empobrecida, fragilizada e indefesa.<\/p>\n<p>Os padres conciliares descobriram \u201co que o Esp\u00edrito tinha para dizer \u00e0 Igreja\u201d por meio da ora\u00e7\u00e3o insistente, da paci\u00eancia hist\u00f3rica, do di\u00e1logo persistente, da organiza\u00e7\u00e3o funcional, da caminhada em conjunto, do apoio colaborante de muitos crist\u00e3os e seus movimentos ou comunidades. Realizaram assim uma experi\u00eancia modelo que actualiza o epis\u00f3dio do cen\u00e1culo Pentecostal e aponta uma via a percorrer pelos disc\u00edpulos de Jesus chamados a serem ap\u00f3stolos: a sinodalidade eclesial. <\/p>\n<p>A via sinodal testemunha o estilo da mensagem crist\u00e3 no presente e abre caminhos de futuro. O magist\u00e9rio, sobretudo com Paulo VI, assume-o de forma clara e persuasiva. O mesmo fazem muitos bispos e superiores de institutos de vida consagrada. Tamb\u00e9m alguns p\u00e1rocos e respons\u00e1veis de associa\u00e7\u00f5es laicais, procurando tirar partido da organiza\u00e7\u00e3o participativa e do esp\u00edrito de corresponsabilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 certamente uma das express\u00f5es mais qualificadas da actualidade do Vaticano II e da sua actualiza\u00e7\u00e3o sempre indispens\u00e1vel e, quando chegar a hora, da realiza\u00e7\u00e3o de um novo conc\u00edlio ecum\u00e9nico.<\/p>\n<p>Factos, pessoas e n\u00fameros do Vaticano II<\/p>\n<p>* O Conc\u00edlio foi convocado por Jo\u00e3o XXIII no dia 25 de Janeiro de 1959, na Bas\u00edlica de S\u00e3o Paulo Extramuros. Jo\u00e3o XXIII morreria no dia 3 de Junho de 1963. Eleito no dia 21 de Junho desse ano, Paulo VI, na primeira mensagem, assume a continua\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio.<\/p>\n<p>* O Conc\u00edlio, o segundo realizado na cidade do Vaticano e 21.\u00ba ecum\u00e9nico (ou seja, para todo o catolicismo), come\u00e7ou no dia 11 de Outubro de 1962 e terminou no dia 8 de Dezembro de 1965.<\/p>\n<p>* Pio XII \u00e9 o autor mais citado nos documentos do Conc\u00edlio Vaticano II. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender o Conc\u00edlio Vaticano II sem levar em conta o magist\u00e9rio de Pio XII\u201d, escreveu Bento XVI.<\/p>\n<p>* Do conc\u00edlio sa\u00edram 16 documentos: quatro constitui\u00e7\u00f5es, Dei Verbum (sobre a Revela\u00e7\u00e3o), Lumen Gentium (sobre a Igreja), Sacrosanctum Concilium (sobre a Liturgia), Gaudium et Spes (sobre a ac\u00e7\u00e3o da Igreja no mundo); nove decretos, Ad Gentes (sobre a actividade mission\u00e1ria), Presbyterorum Ordinis (sobre os sacerdotes), Apostolicam Actuositatem (sobre os leigos), Optatam Totius (sobre a forma\u00e7\u00e3o para padre), Perfectae Caritatis (sobre a vida religiosa), Christus Dominus (sobre os bispos), Unitatis Redintegratio (sobre o di\u00e1logo com as outras confiss\u00f5es crist\u00e3s), Orientalium Ecclesiarum (sobre as igrejas orientais), Inter Mirifica (sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o social); e tr\u00eas declara\u00e7\u00f5es, Gravissimum Educationis (sobre a educa\u00e7\u00e3o); Nostra Aetate (sobre as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s), Dignitatis Humanae (sobre a liberdade religiosa). Os documentos s\u00e3o conhecidos pelas suas primeiras palavras em latim.<\/p>\n<p>* Participaram, no total, 2540 bispos. Sete eram oriundos da Diocese de Aveiro, entre os quais estava D. Manuel de Almeida Trindade (dos que participaram em todas as sess\u00f5es foi dos \u00faltimos a falecer, no dia 5 de Agosto de 2008) e D. J\u00falio Tavares Rebimbas, que participou como bispo eleito nas \u00faltimas sess\u00f5es (seria ordenado bispo no dia 26 de Dezembro de 1965). O bispo em\u00e9rito do Porto, natural do Bunheiro, disse h\u00e1 dias ao Di\u00e1rio de Not\u00edcias que v\u00e1rias vezes teve dificuldade em entrar nos locais das reuni\u00f5es por parecer demasiado novo aos olhos dos seguran\u00e7as\u2026<\/p>\n<p>* O conc\u00edlio teve quatro etapas. Na primeira, de 11 de Outubro a 8 de Dezembro de 1962, n\u00e3o se aprovou nenhum documento. Na segunda, de 29 de Setembro a 4 de Dezembro de 1963, foram aprovados os documentos sobre a liturgia e os meios de comunica\u00e7\u00e3o social, tidos como os mais incipientes. Na terceira, de 14 de Setembro a 21 de Novembro de 1964, foram aprovados a constitui\u00e7\u00e3o sobre a Igreja (LG) e os decretos sobre o ecumenismo (UR) e as igrejas orientais (OE). Na quarta etapa, de 14 de Setembro a 8 de Dezembro de 1965, foram aprovados os restantes documentos. O \u00faltimo a ser votado e o que provocou mais discuss\u00e3o foi a constitui\u00e7\u00e3o Gaudium et Spes (GS), sobre a Igreja no mundo actual.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decorridos 50 anos, coloca-se a pergunta: \u00e9 ainda actual o II Conc\u00edlio do Vaticano? A esta interroga\u00e7\u00e3o procura dar resposta o presente artigo apresentando alguns pontos pertinentes. 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