{"id":14136,"date":"2009-02-05T12:19:00","date_gmt":"2009-02-05T12:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14136"},"modified":"2009-02-05T12:19:00","modified_gmt":"2009-02-05T12:19:00","slug":"morreu-ao-frio-em-aveiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/morreu-ao-frio-em-aveiro\/","title":{"rendered":"Morreu ao frio em Aveiro"},"content":{"rendered":"<p>No passado dia 26 de Janeiro, um homem com cinquenta e poucos anos, sem abrigo, n\u00e3o resistiu ao frio que se fez sentir na madrugada de Domingo para segunda-feira.<\/p>\n<p>Foi mesmo no cora\u00e7\u00e3o da nossa cidade de Aveiro que este triste e vergonhoso acontecimento se deu. Pela manh\u00e3 desse dia foi visto pela primeira pessoa que por ali passou. Ao deparar com aquele cen\u00e1rio n\u00e3o resistiu em se aproximar e pouco mais havia a fazer. \u201cDeve estar morto\u201d era a frase que mais se ouvia daqueles que se iam juntando. Chegaram os Bombeiros, logo de imediato, e confirmaram o que j\u00e1 se suspeitava: \u201cEst\u00e1 morto, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer\u201d. \u201cCoitadinho, se calhar morreu ao frio\u201d. Dizia uma senhora que o tinha visto a pedir na sua rua h\u00e1 dias, num dia de muita chuva, todo molhado. \u201cQuem \u00e9 ele?\u201d Algu\u00e9m interrogou. Ningu\u00e9m o conhecia. Somente um homem quarent\u00e3o e esguio, pertencente \u00e0 classe social daqueles que existem mas que \u00e9 como se n\u00e3o existissem, e que \u201cvivem\u201d mas \u00e9 como se n\u00e3o vivessem, porque ningu\u00e9m os conhece, ningu\u00e9m se lembra deles. Excepto quando \u00e9 preciso apresentar n\u00fameros para ganhar elei\u00e7\u00f5es ou para receber fundos em seu nome para \u201cfins sociais\u201d ou ainda quando d\u00e1 um certo jeito falar deles. \u201cConhe\u00e7o\u201d, respondeu. \u201c\u00c9 o Z\u00e9 (nome fict\u00edcio). \u201cEra epil\u00e9ptico e tomava uns comprimidos. \u00c0s vezes tamb\u00e9m bebia uns copos. Costumava estar no Rossio, no parque de estacionamento de autom\u00f3veis a pedir\u201d.   <\/p>\n<p>Eu, que tamb\u00e9m fui um dos primeiros a l\u00e1 chegar fiquei perplexo, sem palavras e envergonhado. \u00c0 minha frente estava um homem desconhecido dos presentes, sem nome, sem identidade, sem fam\u00edlia presente, sem casa, sem vida, n\u00e3o obstante esses direitos estarem consagrados na Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa para todos. Deitado no ch\u00e3o de pedra, sem enxerga, coberto somente por um cobertor e a cabe\u00e7a sobre um saco de pl\u00e1stico vazio e sujo. Ali, e em tais condi\u00e7\u00f5es sub-humanas, tinha passado a sua \u00faltima noite, como exclu\u00eddo do reino dos homens.<\/p>\n<p>Como cidad\u00e3o fiquei revoltado, mas como crist\u00e3o fiquei triste e envergonhado. Fiquei revoltado pela (in)justi\u00e7a social que \u00e9 praticada no nosso pa\u00eds e pela cultura de morte que \u00e9 promovida na nossa sociedade, porque se permite matar e permite-se deixar morrer abandonado. Um bom sistema nacional de solidariedade social, n\u00e3o pode permitir que ningu\u00e9m durma e morra na rua em tais condi\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Fiquei triste e envergonhado. Triste, porque era um irm\u00e3o que estava ali. \u201cMas que irm\u00e3o fui eu\u201d?, pensava emudecido. Parecia que s\u00f3 ouvia a voz da minha consci\u00eancia a lembrar-me: \u201cSempre que deixaste de fazer isto a um dos Meus irm\u00e3os mais pequeninos, foi a Mim que deixaste de fazer. Por isso, afasta-te de Mim\u2026\u201d Senti-me c\u00famplice daquela morte. Revi-me naqueles que o ignoraram. <\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m me senti envergo-nhado. Afinal tudo tinha acontecido bem juntinho ao templo onde costumo celebrar a minha f\u00e9 e a poucos metros da minha resid\u00eancia. \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel, interrogava-me repetidas vezes em sil\u00eancio\u201d. O que direi\/diremos ao Senhor quando Ele me\/nos perguntar: \u00abO que fizeste ao teu irm\u00e3o \/\/ onde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u00bb\u201d<\/p>\n<p>Tudo falhou. Falharam o Governo e as autoridades locais. Falharam as institui\u00e7\u00f5es de ac\u00e7\u00e3o social. Falaram a sociedade, a fam\u00edlia, falhei eu e tu. Nada nem ningu\u00e9m evitou a morte do Z\u00e9!<\/p>\n<p>At\u00e9 quando vamos passar ao lado dos delinquentes, dos pobres e abandonados? Afinal eles tamb\u00e9m s\u00e3o pessoas, s\u00e3o cidad\u00e3os, s\u00e3o irm\u00e3os, se n\u00e3o forem da f\u00e9, ser\u00e3o pelos menos da P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Vamos denunciar casos an\u00e1logos. Vamos dizer n\u00e3o a estas e a outras injusti\u00e7as. Chamemos os respons\u00e1veis aut\u00e1rquicos, a PSP, a GNR, o Sr. Delegado de sa\u00fade, os Bombeiros, o 112 ou as associa\u00e7\u00f5es de solidariedade social. Enfim, n\u00e3o falta quem diga que ajuda, mas, no momento certo, quando \u00e9 efectivamente necess\u00e1rio intervir, come\u00e7a o jogo do ping-pong. <\/p>\n<p>Est\u00e1 na hora de considerarmos o outro, um igual a n\u00f3s ou um superior a mim. Ou seja, respeitar a sua alteridade e consider\u00e1-lo \u201co meu SENHOR\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Carlos A. Costa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No passado dia 26 de Janeiro, um homem com cinquenta e poucos anos, sem abrigo, n\u00e3o resistiu ao frio que se fez sentir na madrugada de Domingo para segunda-feira. Foi mesmo no cora\u00e7\u00e3o da nossa cidade de Aveiro que este triste e vergonhoso acontecimento se deu. 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