{"id":14204,"date":"2009-02-05T15:41:00","date_gmt":"2009-02-05T15:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14204"},"modified":"2009-02-05T15:41:00","modified_gmt":"2009-02-05T15:41:00","slug":"muculmanos-dialogo-ou-monologo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/muculmanos-dialogo-ou-monologo\/","title":{"rendered":"Mu\u00e7ulmanos &#8211; di\u00e1logo ou mon\u00f3logo?"},"content":{"rendered":"<p>Nas semanas passadas, a prop\u00f3sito das palavras de D. Jos\u00e9 Policarpo, muito se ouviu falar sobre \u00abconvers\u00e3o\u00bb. Igualmente no \u00faltimo Domingo de Janeiro se celebrou a convers\u00e3o de S. Paulo, num ano lit\u00fargico em que se comemora os 2000 anos do seu nascimento. E em ambos os casos este termo \u00e9 empregue ligado a um momento temporal, em que um indiv\u00edduo, por qualquer motivo, muda de credo religioso. Vimos testemunhos de portuguesas que negavam a posi\u00e7\u00e3o do nosso Patriarca, dizendo, entre outras coisas, que n\u00e3o tinham sido obrigadas a converterem-se \u00e0 religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, embora seja de ressalvar que a maior parte dos testemunhos positivos fossem com cidad\u00e3o de Marrocos, onde o islamismo \u00e9 \u00absoft\u00bb. N\u00e3o foi apresentado nenhum caso de casamentos com homens da Ar\u00e1bia Saudita, do I\u00e9men ou do L\u00edbano. <\/p>\n<p>Nesta aparente dial\u00e9ctica entre as duas principais religi\u00f5es monote\u00edstas, os coment\u00e1rios foram a maior parte das vezes induzidos pelo momento actual, que est\u00e1 ainda muito influenciado pelo acto terrorista ocorrido em 2001 em Nova York. Mas conv\u00e9m relembrar que ao longo da nossa hist\u00f3ria as posi\u00e7\u00f5es j\u00e1 estiveram invertidas. O cristianismo, no passado, teve uma motiva\u00e7\u00e3o de convers\u00e3o muito forte, nomeadamente no per\u00edodo das cruzadas, da reconquista da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e da descoberta da Am\u00e9rica Central e do Sul, tendo sido convertidos ao cristianismo (\u00e0 for\u00e7a?) todos os povos encontrados na Am\u00e9rica dita hoje Latina. Isto para n\u00e3o mencionar outros aspectos ainda menos positivos da hist\u00f3ria do cristianismo, como seja a convers\u00e3o imposta aos judeus \u2013 os chamados \u201ccrist\u00e3os novos\u201d. <\/p>\n<p>J\u00e1 os mu\u00e7ulmanos, hoje muito radicais e fundamentalistas na imposi\u00e7\u00e3o da sua religi\u00e3o em outras culturas, com correntes radicais a exigirem uma \u00abguerra santa\u00bb aos costumes ditos \u00abcorruptos\u00bb da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, tiveram no passado uma vis\u00e3o muito mais moderada, pois muitos se esquecem que h\u00e1 mil anos dominavam praticamente em toda a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica (em Lisboa dominaram por mais de 400 anos!) e n\u00e3o impuseram a sua religi\u00e3o. Os povos que encontraram (cat\u00f3licos e judeus) gozavam de liberdade de culto e tinham leis pr\u00f3prias, mas a troco dessas vantagens eram obrigados ao pagamento de dois tributos. Toledo, em Espanha \u2013 a cidade das tr\u00eas culturas &#8211; foi neste aspecto um modelo no que respeita \u00e0 toler\u00e2ncia religiosa praticada, nessa altura, pelos \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Os cat\u00f3licos geralmente justificam o seu comportamento pela exorta\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo: \u00abIde por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura\u00bb (Marcos 16,15). Pergunto: Como \u00e9 que nos tempos de hoje um crist\u00e3o poder\u00e1 agir de acordo com esta sua miss\u00e3o de converter um n\u00e3o crist\u00e3o? Onde p\u00e1ra o esp\u00edrito mission\u00e1rio? Ou ser\u00e1 que por detr\u00e1s do agora t\u00e3o falado \u00abdi\u00e1logo inter-religioso\u00bb est\u00e1 latente uma desist\u00eancia de querermos anunciar a boa-nova de Cristo a todos os povos? <\/p>\n<p>O problema actual deste di\u00e1logo de surdos entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos est\u00e1 no facto de que a Igreja ter tido uma evolu\u00e7\u00e3o positiva de toler\u00e2ncia, hoje a maior parte dos estados onde a religi\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 predominante s\u00e3o laicos, respeitam os direitos universais do homem, enquanto os mu\u00e7ulmanos, depois do seu apogeu no \u00abEl Andaluz\u00bb se tornaram cada vez mais intolerantes, mais aguerridos e fechados e em muitos pa\u00edses o Alcor\u00e3o (ou a interpreta\u00e7\u00e3o que fazem das suas palavras) \u00e9 lei. Podem ter tido as suas raz\u00f5es, mas os fins n\u00e3o justificam os meios e sobretudo entristece-me a dicotomia entre a nossa passividade quando um \u00edman mu\u00e7ulmano diz o pior poss\u00edvel da nossa cultura e a nossa preocupa\u00e7\u00e3o quando um qualquer respons\u00e1vel religioso cat\u00f3lico deixa escapar um coment\u00e1rio mais \u00abinconveniente\u00bb sobre os mu\u00e7ulmanos. <\/p>\n<p>E esta contradi\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ser preocupante quando nos apercebemos das dificuldades que os crist\u00e3os sofrem nos pa\u00edses isl\u00e2micos e, depois, vemos o n\u00famero de \u00e1rabes a crescer nos pa\u00edses europeus, reivindicando espa\u00e7os para o seu culto. Sab\u00edam que em Espanha est\u00e3o a comprar espa\u00e7os no antigo bairro de Albarrac\u00edn, em Granada e que em C\u00f3rdova j\u00e1 reivindicaram para o seu culto a Grande Mesquita \u00e1rabe, com a consequente retirada da igreja constru\u00edda no seu seio que o imperador Carlos V autorizou?<\/p>\n<p>Os primeiros ap\u00f3stolos n\u00e3o tiveram receio de pregar o Evangelho em sociedades hostis. E n\u00f3s, com os mu\u00e7ulmanos, ser\u00e1 que temos medo?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Manuel Querido<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas semanas passadas, a prop\u00f3sito das palavras de D. Jos\u00e9 Policarpo, muito se ouviu falar sobre \u00abconvers\u00e3o\u00bb. Igualmente no \u00faltimo Domingo de Janeiro se celebrou a convers\u00e3o de S. Paulo, num ano lit\u00fargico em que se comemora os 2000 anos do seu nascimento. 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