{"id":14288,"date":"2009-03-05T15:14:00","date_gmt":"2009-03-05T15:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14288"},"modified":"2009-03-05T15:14:00","modified_gmt":"2009-03-05T15:14:00","slug":"o-tempo-que-passa-e-a-memoria-que-perdura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-tempo-que-passa-e-a-memoria-que-perdura\/","title":{"rendered":"O tempo que passa e a mem\u00f3ria que perdura"},"content":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m, j\u00e1 nem sei quem, escreveu que \u201cuma pessoa s\u00f3 morre depois de morrerem todos aqueles que a conheceram\u201d. \u00c9 este um dizer de sabedoria normal, que faz com que perdure, para al\u00e9m do tempo e capaz de o vencer, a mem\u00f3ria do cora\u00e7\u00e3o. Aquela que sempre guarda, envolvidos em amor, os que fazem parte da mesma vida ou que partilharam os mesmos ideais. <\/p>\n<p>Como se fala hoje muito das doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o e das suas consequ\u00eancias, vamos encontrando raz\u00f5es para perceber que tamb\u00e9m ele vai perdendo a mem\u00f3ria e, deste modo, deixa morrer muita gente antes de ela se ter despedido de vez. \u00c9 o mundo incont\u00e1vel dos n\u00e3o-amados, dos idosos a reclamar cuidados e a exigir despesas sem lucros, das v\u00edtimas, como tantas crian\u00e7as, depressa esquecidas por decis\u00f5es loucas. S\u00e3o ainda todos os que vivem do outro lado da barricada, se evitam na vida e a quem se p\u00f4s um r\u00f3tulo definitivo de cariz pol\u00edtico, religioso ou qualquer outro, marcado pela desafei\u00e7\u00e3o, e de quem de diz, com normalidade, que \u00e9 como tivessem j\u00e1 morrido\u2026.<\/p>\n<p>No tempo actual tudo parece ter refer\u00eancia obrigat\u00f3ria ao econ\u00f3mico e ao poder. Quem perdeu cota\u00e7\u00e3o nestes campos, p\u00f5e-se simplesmente de lado ou j\u00e1 morreu. A menos que teime em contrariar, permanecendo vivo, para g\u00e1udio de uns e inc\u00f3modo de outros.<\/p>\n<p>Ser inc\u00f3modo, a qualquer t\u00edtulo, hoje \u00e9 um perigo. Os afectos, as emo\u00e7\u00f5es, a liberdade sem peias passaram a ser o mais poderoso fundamento das leis e das rela\u00e7\u00f5es sociais. Estas v\u00e3o-se encarregando de aliviar o terreno, para que nem os gerados n\u00e3o nascidos, porque \u201cainda n\u00e3o s\u00e3o gente\u201d, nem os que j\u00e1 n\u00e3o merecem ser vivos, porque oneram o tesouro e roubam tempo aos apressados, incomodem cada vez manos quem quer ser livre de responsabilidades e, mais ainda, do pesado \u00f3nus de ter de amar e de respeitar.<\/p>\n<p>O amor, essa d\u00edvida nunca paga por quem dele beneficiou! Aqui, entra a mem\u00f3ria do cora\u00e7\u00e3o, grande teimoso que n\u00e3o deixa morrer nem quem j\u00e1 partiu. Entra o espa\u00e7o necess\u00e1rio da gratid\u00e3o, o reduto sempre aberto do respeito e do apre\u00e7o, o sentimento maravilhoso de quem diz \u201cnunca morrer\u00e1s porque eu te amo\u201d. Entra a vida.<\/p>\n<p>S\u00f3 os vivos fazem parte da hist\u00f3ria e dela continuam eternamente protagonistas. Aos que apenas se olham a si pr\u00f3prios e aos seus interesses, o tempo os leva consigo na onda do esquecimento. Aos que fazem do cuidado e do bem dos outros o seu caminho di\u00e1rio, a vida n\u00e3o os deixa morrer, nem esquecer. Redimem os tempos povoados de ego\u00edsmo, servem de est\u00edmulo aos que optaram por ser solid\u00e1rios e dar lugar aos outros, com gestos feitos de amor fraterno e de reconhecimento da sua dignidade.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria apaga-se facilmente, por inc\u00f3moda e desnecess\u00e1ria, se n\u00e3o \u00e9 guardada por um cora\u00e7\u00e3o que sente e persiste em ser l\u00facido e agradecido. H\u00e1 pessoas que, da sua mem\u00f3ria, resta a placa na rua. P\u00f5e-se-lhes, por debaixo, a indica\u00e7\u00e3o de quem foram, porque j\u00e1 ningu\u00e9m os conheceu. Quase sempre homens da pol\u00edtica, promovidos por correligion\u00e1rios. Poucas ruas com nome de mulheres. Outras pessoas, que podem nem ter nome nas ruas, serem at\u00e9 de terras, povos e l\u00ednguas diferentes, os que viveram ontem e vivem hoje bem os conhecem. \u00c9 o que se passa com quem viveu fazendo o bem, por ele soube dar sentido \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0 sua vida em sociedade. S\u00e3o esses os que nunca morrem. Sempre conhecidos de quem lhes est\u00e1 grato por uma vida que gerou vida, por um testemunho que anima a fazer igual caminho. O tempo apaga tudo, menos a mem\u00f3ria do bem, a que o amor deu sentido. Com gestos de bem-fazer, \u00e9 preciso dar mem\u00f3ria ao cora\u00e7\u00e3o, dar lugar aos que ningu\u00e9m lho deu. <\/p>\n<p>Assim, vale a pena viver, se abre caminho ao alcance de todos, se d\u00e1 sentido ao tempo. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m, j\u00e1 nem sei quem, escreveu que \u201cuma pessoa s\u00f3 morre depois de morrerem todos aqueles que a conheceram\u201d. \u00c9 este um dizer de sabedoria normal, que faz com que perdure, para al\u00e9m do tempo e capaz de o vencer, a mem\u00f3ria do cora\u00e7\u00e3o. Aquela que sempre guarda, envolvidos em amor, os que fazem parte [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-14288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14288\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}