{"id":14333,"date":"2009-05-28T10:53:00","date_gmt":"2009-05-28T10:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14333"},"modified":"2009-05-28T10:53:00","modified_gmt":"2009-05-28T10:53:00","slug":"santa-joana-nao-precisa-de-defesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/santa-joana-nao-precisa-de-defesa\/","title":{"rendered":"Santa Joana n\u00e3o precisa de defesa"},"content":{"rendered":"<p>Ocorreu h\u00e1 dias mais um anivers\u00e1rio do falecimento de Santa Joana. A efem\u00e9ride d\u00e1-me oportunidade de a evocar na realidade hist\u00f3rica, at\u00e9 porque tive conhecimento de certas opini\u00f5es explanadas publicamente sobre um determinado texto do cronista Rui de Pina e sobre um outro extra\u00eddo do manuscrito seiscentista \u201cGenealogias de Portugal\u201d, arquivado na Academia das Ci\u00eancias de Lisboa. N\u00e3o me vou basear no \u201cMemorial\u201d redigido pela sua contempor\u00e2nea e aia (?), Margarida Pinheiro ou pela prima desta, Catarina Pinheiro, guardado no Museu de Aveiro; apenas tomo a liberdade de transcrever o pedido da autora no par\u00e1grafo final: &#8211; \u00abPor seu amor pe\u00e7o e de sua parte requeiro a quem ler e ouvir o que em este livro \u00e9 escrito n\u00e3o julgue nem pense ser dito, ou crescentado falsamente, nem composto com afei\u00e7\u00e3o e lisonjaria; mas certifico e afirmo, ante o Senhor Deus e ante toda pessoa que o ler e ouvir, todo ser verdadeira verdade, e escrito per quem viu a maior parte, e ouviu \u00e0 boca de pessoas de muita virtude, verdade e autoridade, que assim mesmo o viram e praticaram\u00bb.<\/p>\n<p>Em finais de Setembro de 1471, no regresso das vit\u00f3rias no norte de \u00c1frica, el-rei D. Afonso V viu-se confrontado com o pedido da filha D. Joana, solicitando-lhe licen\u00e7a de se recolher em algum mosteiro ou convento. O monarca, n\u00e3o querendo contrist\u00e1-la, anuiu \u00e0 sua pretens\u00e3o. Ali\u00e1s, o \u201cAfricano\u201d n\u00e3o teria o direito de se lamentar do desejo da Princesa, pois em 1462 havia declarado em Aveiro, ante a admira\u00e7\u00e3o dos circunstantes, \u00abque poderia ser que ainda neste Mosteiro [de Jesus] teria e se meteria coisa sua\u00bb; e, em 1466, ele pr\u00f3prio a entusiasmara para a vida claustral, ao querer faz\u00ea-la assistir a uma profiss\u00e3o religiosa no mesmo Mosteiro. Ent\u00e3o \u2013 como refere um manuscrito quinhentista denominado \u201cCadastro dos Bens do Mosteiro de Jesus de Aveiro\u201d, hoje conservado no Museu \u2013 o monarca \u00abprovocou sua virtuosa filha, que muito amava, entrar nesta casa pela devo\u00e7\u00e3o que nela tinha\u00bb. <\/p>\n<p>D. Joana n\u00e3o demorou a realiza\u00e7\u00e3o do seu sonho; em Dezembro retirou-se para o Mosteiro de Odivelas. Apesar das reclama\u00e7\u00f5es dos procuradores do Reino, tanto junto do el-rei como \u00e0 roda do cen\u00f3bio &#8211; conforme se v\u00ea no documento notarial arquivado na Torre do Tombo (\u201cCortes\u201d) &#8211; ela continuou no seu prop\u00f3sito, mudando-se mesmo para Aveiro em Julho do ano seguinte, a fim de viver e morrer no Mosteiro de Jesus.<\/p>\n<p>Conforme referem os cronistas Rui de Pina e Dami\u00e3o de G\u00f3is, por morte da jovem rainha D. Isabel, ocorrida em Dezembro de 1455, el-rei mandou expressamente que nada se mudasse no Pa\u00e7o da Rainha. Por isso, a\u00ed permanecendo D. Joana e, nos seus postos de trabalho, as donas, as donzelas, os oficiais e os restantes empregados, inevitavelmente continuariam a fazer-se grandes despesas com a administra\u00e7\u00e3o da Casa&#8230; e n\u00e3o por culpa de D. Joana &#8211; como parece transparecer da cr\u00f3nica de Rui de Pina. Todavia, porque o Er\u00e1rio P\u00fablico tinha de suportar as guerras em Marrocos e a manuten\u00e7\u00e3o das respectivas Pra\u00e7as, tornaram-se urgentes alguns cortes or\u00e7amentais, decidindo-se ent\u00e3o o encerramento do dito Pa\u00e7o. Por coincid\u00eancia providencial, seria este o momento prop\u00edcio para a Princesa concretizar o seu t\u00e3o suspirado projecto de vida religiosa.<\/p>\n<p>Rui de Pina, cuja \u201cCr\u00f3nica de D. Afonso V\u201d \u00e9 de 1504 (?), escreveu que fora o pr\u00f3prio pai quem tivera a iniciativa do enclausuramento da filha em Odivelas, n\u00e3o s\u00f3 para a conten\u00e7\u00e3o de gastos mas tamb\u00e9m \u00abpor se evitarem alguns esc\u00e2ndalos e preju\u00edzos que em sua Casa, por n\u00e3o ser casada, se podiam seguir\u00bb. Em face destas palavras, mesmo se fossem ver\u00eddicas, ningu\u00e9m pode apoditicamente asseverar que elas se refiram a Santa Joana; \u00e9 que \u2013 como se viu \u2013 com ela viviam dezenas de pessoas de ambos os sexos. Al\u00e9m do mais, o texto, manifestando o anseio de D. Afonso V em ver a filha liberta de toda e qualquer difama\u00e7\u00e3o, apenas cont\u00e9m uma hip\u00f3tese futura e preventiva e n\u00e3o a certeza de deslizes morais, passados ou presentes. Qual \u00e9 o documento hist\u00f3rico coevo que comprove que D. Joana recebia homens em sua casa \u2013 como agora levianamente se escreveu? \u00c9 f\u00e1cil romantizar, at\u00e9 para se justificarem certos comportamentos.<\/p>\n<p>Contudo, recorde-se que o cronista, remunerado ao servi\u00e7o do monarca, obviamente preocupava-se mais em amontoar motivos para engrandecer a pessoa de el-rei, do que numa linha imparcial de fidelidade nos diversos pormenores. N\u00e3o admira, por isso, que aqui e ali a verdade possa sair minimizada ou maltratada pela sua pena; ele pr\u00f3prio, no pr\u00f3logo da \u201cCr\u00f3nica de D. Duarte\u201d, atreveu-se a definir a hist\u00f3ria como \u00abmui liberal princesa de todo bem\u00bb, obedecendo sobretudo a um servi\u00e7o de exalta\u00e7\u00e3o e revelando-se como comp\u00eandio de \u00e9tica. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, Rui de Pina erra frequentemente na cronologia, na data\u00e7\u00e3o de eventos, no apuramento de factos, na seria\u00e7\u00e3o de acontecimentos, na correla\u00e7\u00e3o destes com a hist\u00f3ria geral. Como em 1945 e em 1963 afirmou o historiador dr. Domingos Maur\u00edcio Gomes dos Santos ao reportar-se ao cronista, \u00abo velho guarda-mor da Torre do Tombo nem foi, sequer, um med\u00edocre conhecedor da hist\u00f3ria geral do seu s\u00e9culo, nem se documentou suficientemente das fontes hist\u00f3ricas nacionais, que tinha possibilidade e obriga\u00e7\u00e3o de manusear, nem, o que \u00e9 mais grave, se serviu delas com probidade cient\u00edfica, aproveitando-as, por vezes, em detrimento de figuras cujo semblante e responsabilidades propositada ou inconscientemente deforma\u00bb. Tamb\u00e9m o dr. Manuel Lopes de Almeida, que foi presidente da Academia Portuguesa da Hist\u00f3ria, escreveu em 1977: \u00abAcusado e impugnado num largo processo hist\u00f3rico-liter\u00e1rio, pesa no seu nome a amarga imputa\u00e7\u00e3o de pouco escrupuloso, a desvalia da exactid\u00e3o hist\u00f3rica, o m\u00e9rito bastantemente relativo do estilista\u00bb. Em 1536, o aveirense (n\u00e3o eixense!) Fern\u00e3o de Oliveira no cap\u00edtulo terceiro da sua \u201cGram\u00e1tica\u201d, referindo-se a D. Afonso Henriques, diz que ele \u00abpor autoridade apost\u00f3lica foi feito rei, n\u00e3o devendo nada a algu\u00e9m, como com muita verdade afirma Rui de Pina\u00bb. Conv\u00e9m dizer que esta opini\u00e3o do gram\u00e1tico significa o seu ju\u00edzo de valor limitado a um caso concreto, e n\u00e3o abrangendo toda a obra do cronista.<\/p>\n<p>O autor an\u00f3nimo das \u201cGenealogias de Portugal\u201d escreveu que um certo Duarte de Sousa foi mandado degolar por D. Afonso V, \u00abpor entrar no Pa\u00e7o de noite e lhe acharem um sapato que foi conhecido por seu\u00bb. Numa brev\u00edssima an\u00e1lise de um texto t\u00e3o impreciso, surgem algumas interroga\u00e7\u00f5es: &#8211; Trata-se Pa\u00e7o do Rei ou do Pa\u00e7o da Rainha? Qual a inten\u00e7\u00e3o do fidalgo ao entrar no Pa\u00e7o? E, ainda que se trate do Pa\u00e7o da Rainha e de um fim amoroso, quem garante que a pessoa atingida fosse D. Joana, uma vez que, com ela, viviam mais de trinta donzelas e damas? Sobre isto nada diz o linhagista e, assim sendo, n\u00e3o se podem tirar conclus\u00f5es desse texto. Por outro lado, que grau de cr\u00e9dito pode merecer o mesmo autor, pois que, logo a seguir, escreve ter tido D. Afonso V dois filhos bastardos? Ali\u00e1s, Rui de Pina elogiou o mesmo rei, garantindo que ele foi \u00absobretudo de mui louvada contin\u00eancia\u00bb e \u00abacerca de mulheres mui abstinente\u00bb; em conson\u00e2ncia testemunha a autora do \u201cMemorial\u201d que depois da morte da rainha D. Isabel, manteve o \u00abprop\u00f3sito de nunca mais casar e [\u2026] n\u00e3o ter mais filhos que esta senhora e seu irm\u00e3o, o pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Ainda bem que Rui Pina terminaria por dizer, embora sendo inexacto na indica\u00e7\u00e3o da idade, que em Aveiro D. Joana, \u00absem casar, com nome de honesta e mui virtuosa, acabou sua vida\u00bb. Ali\u00e1s, outrossim Garcia de Resende, escrevendo em 1545, conta que, quando ela faleceu, D. Jo\u00e3o II experimentou forte abalo, porque \u00abqueria-lhe muito grande bem, e estimava muito por ser singular Princesa, de muitas virtudes, bondades e perfei\u00e7\u00f5es, muito cat\u00f3lica, devota e amiga de Deus, e mui obediente a el-rei, seu irm\u00e3o\u00bb. Algum tempo depois, em 1567, Dami\u00e3o de G\u00f3is anotou que, tendo-a Deus chamado desta vida para a sempiterna, ela deixou \u00abde si singular exemplo de virtudes, com nome de verdadeira e cat\u00f3lica crist\u00e3\u00bb.<\/p>\n<p>Aveiro jamais iria esquecer a filha de D. Afonso V, como eu sempre disse. Logo ap\u00f3s a morte, come\u00e7ou a ser venerada, mesmo liturgicamente; de 1509 \u00e9 a primeira pintura entre as quatro anteriores \u00e0 sua beatifica\u00e7\u00e3o, existentes no antigo Mosteiro de Jesus; de 1585 data a primeira biografia, escrita e publicada por Frei Nicolau Dias, prior do Convento de S. Domingos de Aveiro; em 1626 \u00e9 iniciado o primeiro processo para a sua beatifica\u00e7\u00e3o; e, finalmente, em 1808 foi considerada oficialmente como protectora de Aveiro, seguindo-se ao padroado de Santa Ana, m\u00e3e da Virgem Maria (e n\u00e3o da m\u00e1rtir Santa Luzia, como h\u00e1 dias algu\u00e9m escreveu). <\/p>\n<p>Nestas breves palavras, como em tantas outras, nunca esteve no meu horizonte ser \u201cardiloso\u201d, mas um homem fiel \u00e0 verdade. Nunca pretendendo ser um mero contador de est\u00f3rias, tenho por dever imperioso investigar arquivos, confrontar documentos, examinar escritos, interpretar manuscritos e mesmo ajuizar sobre quem os produziu\u2026 se testemunhas, se transmissores, se comentadores, se romancistas\u2026<\/p>\n<p>Termino, reproduzindo algumas palavras laudat\u00f3rias da protectora de Aveiro, escritas em 1852 por Francisco Joaquim Bingre \u2013 o \u201cCisne do Vouga\u201d: \u00abJoana santa, virginal Princesa\u2026 \/ Ela fugiu \u00e0s pompas da realeza, \/ desprezando o real, t\u00e9rreo himeneu; \/ e entre a nossa humildade se escondeu, \/ sacrificando a Deus sua pureza\u00bb.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gaspar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocorreu h\u00e1 dias mais um anivers\u00e1rio do falecimento de Santa Joana. 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