{"id":14418,"date":"2009-02-18T18:25:00","date_gmt":"2009-02-18T18:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14418"},"modified":"2009-02-18T18:25:00","modified_gmt":"2009-02-18T18:25:00","slug":"superar-interesses-enfrentar-dificuldades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/superar-interesses-enfrentar-dificuldades\/","title":{"rendered":"Superar interesses, enfrentar dificuldades"},"content":{"rendered":"<p>Toda a gente fala da crise que assola o mundo e entrou em cheio no nosso pa\u00eds e nas nossas vidas. Uns falam dela cada vez mais, porque a sentem no seu dia-a-dia, de modo a provocar sangue, l\u00e1grimas, preocupa\u00e7\u00f5es sem conta; outros reduzem tudo ao campo econ\u00f3mico, como se o dinheiro e o poder fossem os \u00fanicos valores na vida; outros, ainda, fazem desta crise no contexto da globaliza\u00e7\u00e3o, objecto de grandes an\u00e1lises, normalmente pouco consequentes e nada sentidas por quem a sofre mais. Desvendam-se causas, aventam-se explica\u00e7\u00f5es, d\u00e3o-se desculpas, procuram-se bodes expiat\u00f3rios, propalam-se boatos, fala-se de consequ\u00eancias, mais graves que as j\u00e1 sentidas. <\/p>\n<p>N\u00e3o falta quem fa\u00e7a da crise motivo para criticar pol\u00edticos e pol\u00edticas, para falar de trag\u00e9dia, para alegar falta de esperan\u00e7a em tudo e em todos.  <\/p>\n<p>Como desceu \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica, a crise a ningu\u00e9m deixou indiferente. Entrou nos lares, fechou pequenas e m\u00e9dias empresas, provocou fal\u00eancias estrondosas, dividiu pessoas, p\u00f4s a descoberto os condenados e os privilegiados de sempre, mostrou ao povo trabalhador, lugares onde se produzem lucros para os j\u00e1 ricos e, por via disso, como se agravam os impostos para os pobres, que nunca aprenderam a fugir ao fisco. <\/p>\n<p>Embora a grave crise econ\u00f3mica seja, no momento, a mais sentida, porque se traduz em doloroso desemprego, fome e noite sem luz, ela n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o efeito gravoso e inevit\u00e1vel de outras crises mais profundas, provocadas ou esquecidas. No m\u00ednimo, mal analisadas por quem v\u00ea e navega apenas \u00e0 superf\u00edcie e para quem os mais fr\u00e1geis contam pouco.<\/p>\n<p>Se cada vez mais se faz t\u00e1bua rasa da dignidade de cada pessoa e da igualdade radical de todas, independentemente da sua ra\u00e7a, l\u00edngua, cor ou religi\u00e3o; se o bem comum deixou de ser norma orientadora das leis e das decis\u00f5es pol\u00edticas; se teimamos em falar mais de direitos que de deveres; se os valores morais e \u00e9ticos sofrem altera\u00e7\u00f5es \u00e0 revelia da objectividade; se tudo passa a ser classificado segundo interesses e ideologias inconsistentes; se o agradar passou a ter mais import\u00e2ncia que o servir e o trabalhar, ent\u00e3o ningu\u00e9m pode estranhar que o vazio social, que se foi implementando, atinja os deveres de justi\u00e7a, as rela\u00e7\u00f5es laborais, as regras da conviv\u00eancia, o apre\u00e7o exagerado pela riqueza, a cultura da solidariedade e da responsabilidade, a discrimina\u00e7\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>Bento XVI, falando recentemente aos sindicatos da It\u00e1lia, os quais reconhece como elementos indispens\u00e1veis da vida social nas modernas sociedades industrializadas, apelou \u00e0 urg\u00eancia de uma nova s\u00edntese entre o bem comum e o mercado competitivo, entre o capital e o trabalho. Fala do mundo do trabalho como chave essencial de toda a quest\u00e3o social, condiciona o desenvolvimento n\u00e3o s\u00f3 ao aspecto econ\u00f3mico mas, tamb\u00e9m, ao cultural e moral das pessoas, das fam\u00edlias, das comunidades e da humanidade inteira. <\/p>\n<p>Como a crise actual, nos seus efeitos mais gravosos, atinge fundamentalmente o mundo do trabalho, \u00e9 urgente, diz o Papa, superar interesses particulares ou de sector, para que todos, juntos e unidos, possam enfrentar as dificuldades. Est\u00e1 aqui expl\u00edcito o apelo \u00e0 justi\u00e7a social, \u00e0 solidariedade como cultura permanente, \u00e0 responsabilidade de cada  cidad\u00e3o, a que ningu\u00e9m honesto se pode furtar.<\/p>\n<p>A Doutrina Social da Igreja sempre considerou o trabalho como centro da quest\u00e3o social, e a pessoa humana como o maior valor. O trabalho humano assumiu, como est\u00e1 \u00e0 vista, uma dimens\u00e3o que vai al\u00e9m dos interesses imediatos da empresa e do pa\u00eds. O trabalho \u00e9 uma realidade eminentemente humana. Se o homem e a mulher forem desvalorizados, se a fam\u00edlia, est\u00e1vel e s\u00f3lida, n\u00e3o for reconhecida e protegida, se a macroeconomia decidir que ser pobre \u00e9 uma fatalidade incontorn\u00e1vel, se a regra aceite for \u201ccada um que se governe\u201d, nenhuma crise social ser\u00e1 resolvida, todos veremos que a nossa sociedade perdeu a alma e ent\u00e3o, sim, que a cat\u00e1strofe est\u00e1 a\u00ed. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda a gente fala da crise que assola o mundo e entrou em cheio no nosso pa\u00eds e nas nossas vidas. 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