{"id":14439,"date":"2009-02-19T09:54:00","date_gmt":"2009-02-19T09:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14439"},"modified":"2009-02-19T09:54:00","modified_gmt":"2009-02-19T09:54:00","slug":"jesus-apos-ter-jejuado-durante-40-dias-e-40-noites-por-fim-teve-fome-mt-4-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/jesus-apos-ter-jejuado-durante-40-dias-e-40-noites-por-fim-teve-fome-mt-4-2\/","title":{"rendered":"&#8220;Jesus, ap\u00f3s ter jejuado durante 40 dias e 40 noites, por fim, teve fome&#8221; (Mt 4, 2)"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2009 <!--more--> No in\u00edcio da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia prop\u00f5e-nos tr\u00eas pr\u00e1ticas penitenciais muito queridas \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e crist\u00e3 \u2013 a ora\u00e7\u00e3o, a esmola, o jejum \u2013 a fim de nos predispormos para celebrar melhor a P\u00e1scoa e deste modo fazer experi\u00eancia do poder de Deus que, como ouviremos na Vig\u00edlia pascal, \u00abderrota o mal, lava as culpas, restitui a inoc\u00eancia aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o \u00f3dio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a conc\u00f3rdia e a paz\u00bb (Hino pascal). Na habitual Mensagem quaresmal, gostaria de reflectir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De facto a Quaresma traz \u00e0 mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua miss\u00e3o p\u00fablica. Lemos no Evangelho: \u00abO Esp\u00edrito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo dem\u00f3nio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome\u00bb (Mt 4, 1-2). Como Mois\u00e9s antes de receber as T\u00e1buas da Lei (cf. \u00cax 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Oreb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua miss\u00e3o, cujo in\u00edcio foi um duro confronto com o tentador.<\/p>\n<p>Podemos perguntar que valor e que sentido tem para n\u00f3s, crist\u00e3os, privar-nos de algo que seria em si bom e \u00fatil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ensinam que o jejum \u00e9 de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 frequente o convite a jejuar. J\u00e1 nas primeiras p\u00e1ginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: \u00abPodes comer o fruto de todas as \u00e1rvores do jardim; mas n\u00e3o comas o da \u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrer\u00e1s\u00bb (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, S\u00e3o Bas\u00edlio observa que \u00abo jejum foi ordenado no Para\u00edso\u00bb, e \u00abo primeiro mandamento neste sentido foi dado a Ad\u00e3o\u00bb. Portanto, ele conclui: \u00abO \u201cn\u00e3o comas\u201d \u00e9, portanto, a lei do jejum e da abstin\u00eancia\u00bb (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos estamos estorpecidos pelo pecado e pelas suas consequ\u00eancias, o jejum \u00e9-nos oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do ex\u00edlio \u00e0 Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar \u00abpara nos humilhar \u2013 diz \u2013 diante do nosso Deus\u00bb (8, 21). O Omnipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua protec\u00e7\u00e3o. O mesmo fizeram os habitantes de N\u00ednive que, sens\u00edveis ao apelo de Jonas ao arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um jejum dizendo: \u00abQuem sabe se Deus n\u00e3o Se arrepender\u00e1, e acalmar\u00e1 o ardor da Sua ira, de modo que n\u00e3o pere\u00e7amos?\u00bb (3, 9). Tamb\u00e9m ent\u00e3o Deus viu as suas obras e os poupou.<\/p>\n<p>No Novo Testamento, Jesus ressalta a raz\u00e3o profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescri\u00e7\u00f5es impostas pela lei, mas o seu cora\u00e7\u00e3o estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete tamb\u00e9m noutras partes o Mestre divino, \u00e9 antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual \u00abv\u00ea no oculto, recompensar-te-\u00e1\u00bb (Mt 6, 18). Ele pr\u00f3prio d\u00e1 o exemplo respondendo a satan\u00e1s, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que \u00abnem s\u00f3 de p\u00e3o vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus\u00bb (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o \u00abverdadeiro alimento\u00bb, que \u00e9 fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Ad\u00e3o desobedeceu ao mandamento do Senhor \u00abde n\u00e3o comer o fruto da \u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal\u00bb, com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Encontramos a pr\u00e1tica do jejum muito presente na primeira comunidade crist\u00e3 (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Tamb\u00e9m os Padres da Igreja falam da for\u00e7a do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do \u00abvelho Ad\u00e3o\u00bb, e de abrir no cora\u00e7\u00e3o do crente o caminho para Deus. O jejum \u00e9 tamb\u00e9m uma pr\u00e1tica frequente e recomendada pelos santos de todas as \u00e9pocas. Escreve S\u00e3o Pedro Cris\u00f3logo: \u00abO jejum \u00e9 a alma da ora\u00e7\u00e3o e a miseric\u00f3rdia \u00e9 a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha miseric\u00f3rdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benef\u00edcio o cora\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o feche o seu a quem o suplica\u00bb (Sermo 43; PL 52, 320.332).<\/p>\n<p>Nos nossos dias, a pr\u00e1tica do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfa\u00e7\u00e3o material, o valor de uma medida terap\u00eautica para a cura do pr\u00f3prio corpo. Jejuar sem d\u00favida \u00e9 bom para o bem-estar, mas para os crentes \u00e9 em primeiro lugar uma \u00abterapia\u00bb para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Paenitemini de 1966, o Servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto do chamamento de cada crist\u00e3o a \u00abn\u00e3o viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e&#8230; tamb\u00e9m a viver pelos irm\u00e3os\u00bb (Cf. Cap. I). A Quaresma poderia ser uma ocasi\u00e3o oportuna para retomar as normas contidas na citada Constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, valorizando o significado aut\u00eantico e perene desta antiga pr\u00e1tica penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso ego\u00edsmo e a abrir o cora\u00e7\u00e3o ao amor de Deus e do pr\u00f3ximo, primeiro e m\u00e1ximo mandamento da nova Lei e comp\u00eandio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40).<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade \u00e0 pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Santo Agostinho, que conhecia bem as pr\u00f3prias inclina\u00e7\u00f5es negativas e as definia \u00abn\u00f3 complicado e emaranhado\u00bb (Confiss\u00f5es, II, 10.18), no seu tratado A utilidade do jejum, escrevia: \u00abCertamente \u00e9 um supl\u00edcio que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcan\u00e7ar o agrado da sua do\u00e7ura\u00bb (Sermo 400, 3, 3: L 40, 708). Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposi\u00e7\u00e3o para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salva\u00e7\u00e3o. Com o jejum e com a ora\u00e7\u00e3o permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso \u00edntimo: a fome e a sede de Deus.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o na qual vivem tantos irm\u00e3os nossos. Na sua Primeira Carta S\u00e3o Jo\u00e3o admoesta: \u00abAquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irm\u00e3o sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu cora\u00e7\u00e3o, como estar\u00e1 nele o amor de Deus?\u00bb (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irm\u00e3o que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o pr\u00f3ximo em dificuldade n\u00e3o nos \u00e9 indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de aten\u00e7\u00e3o para com os irm\u00e3os, encorajo as par\u00f3quias e todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a pr\u00e1tica do jejum pessoal e comunit\u00e1rio, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a ora\u00e7\u00e3o e a esmola. Foi este, desde o in\u00edcio o estilo da comunidade crist\u00e3, na qual eram feitas colectas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irm\u00e3os eram convidados a dar aos pobres quanto, gra\u00e7as ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Tamb\u00e9m hoje esta pr\u00e1tica deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo lit\u00fargico quaresmal.<\/p>\n<p>De quanto disse sobressai com grande clareza que o jejum re-presenta uma pr\u00e1tica asc\u00e9tica importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a n\u00f3s mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o disc\u00edpulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana. Exorta oportunamente um antigo hino lit\u00fargico quaresmal: \u00abUtamur ergo parcius, \/ verbis, cibis et potibus, \/ somno, iocis et arcitius \/ perstemus in custodia \u2013 Usemos de modo mais s\u00f3brio palavras, alimentos, bebidas, sono e jogos, e permane\u00e7amos mais atentamente vigilantes\u00bb.<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade \u00faltima ajudar cada um de n\u00f3s, como escrevia o Servo de Deus Papa Jo\u00e3o Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor, 21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada fam\u00edlia e em cada comunidade crist\u00e3 para afastar tudo o que distrai o esp\u00edrito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do pr\u00f3ximo. Penso em particular num maior compromisso na ora\u00e7\u00e3o, na lectio divina, no recurso ao Sacramento da Re-concilia\u00e7\u00e3o e na participa\u00e7\u00e3o activa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta disposi\u00e7\u00e3o interior entremos no clima penitencial da Quaresma. Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e ampare-nos no esfor\u00e7o de libertar o nosso cora\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o do pecado para o tornar cada vez mais \u00abtabern\u00e1culo vivo de Deus\u00bb. Com estes votos, ao garantir a minha ora\u00e7\u00e3o para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itiner\u00e1rio quaresmal, concedo de cora\u00e7\u00e3o a todos a B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica.<\/p>\n<p>BENEDICTUS PP. XVI<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2009<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-14439","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14439","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14439"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14439\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14439"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14439"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14439"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}