{"id":14822,"date":"2009-03-26T09:30:00","date_gmt":"2009-03-26T09:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14822"},"modified":"2009-03-26T09:30:00","modified_gmt":"2009-03-26T09:30:00","slug":"a-canonizacao-do-santo-condestavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-canonizacao-do-santo-condestavel\/","title":{"rendered":"A canoniza\u00e7\u00e3o do Santo Condest\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>No meio da parafern\u00e1lia de pequenas, m\u00e9dias e grandes not\u00edcias sobre quase tudo e quase nada, foi com alegria que recebi a not\u00edcia da canoniza\u00e7\u00e3o de D. Nuno \u00c1lvares Pereira, o Santo Condest\u00e1vel. Como cat\u00f3lico e como portugu\u00eas. E tamb\u00e9m pelo facto de a este processo de canoniza\u00e7\u00e3o estar associado o cardeal portugu\u00eas D. Saraiva Martins, de quem, h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos, tive a honra de apresentar o livro \u201cComo se faz um Santo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que esta simb\u00f3lica distin\u00e7\u00e3o que muito honra a portugalidade no Mundo \u2013 mesmo que analisada apenas fora do contexto religioso \u2013 n\u00e3o faz manchetes, como fazem \u00e0 profus\u00e3o as distin\u00e7\u00f5es de um bom jogador de futebol, de um consagrado autor, de um artista de telenovela ou de um empres\u00e1rio de sucesso fulminante. <\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 certo \u00e9 que D. Nuno \u00c1lvares Pereira, cuja vida de verdadeiro patriota n\u00e3o \u00e9 contest\u00e1vel e nos habitu\u00e1mos a respeitar, \u00e9 um exemplo num tempo em que o valor da exemplaridade escasseia. N\u00e3o apenas na sua vida mais religiosa quando ap\u00f3s a morte da sua mulher e despojados de todas as propriedades, t\u00edtulos e honrarias, se tornou carmelita e viveu um tempo totalmente dedicado aos mais pobres entre os pobres, mas igualmente como not\u00e1vel general de uma guerra que nos garantiu, em Trancoso e Aljubarrota, a independ\u00eancia seriamente amea\u00e7ada.<\/p>\n<p>Bem sei que os Santos est\u00e3o \u201cfora de moda\u201d. Numa sociedade de \u201czapping\u201d, comportamentalmente hedonista, moralmente minimalista e relativista e subjugada \u00e0 \u201cditadura das banalidades\u201d, o santo exprime um projecto de vida contra a corrente. Ser santo sempre representou uma forma de subvers\u00e3o, traduzida em cada \u00e9poca de modo diverso e como regra vivida na aus\u00eancia de qualquer forma de poder, que \u00e9 onde se revela toda a for\u00e7a da presen\u00e7a de Deus. <\/p>\n<p>Neste momento em que escrevo, n\u00e3o posso deixar de registar, no plano institucional e pol\u00edtico, uma atitude e uma omiss\u00e3o. <\/p>\n<p>A atitude de o Senhor Presidente da Rep\u00fablica, como o mais alto magistrado da Na\u00e7\u00e3o, se ter congratulado, em nome de Portugal, e considerado D. Nuno \u201cuma figura maior da nossa hist\u00f3ria que, no passado e no presente, deve inspirar os portugueses na busca de um futuro melhor\u201d. <\/p>\n<p>A omiss\u00e3o e o sil\u00eancio absurdos do lado do Governo e de alguns partidos pol\u00edticos, sempre t\u00e3o pr\u00f3digos e r\u00e1pidos em felicitar outras personagens nem sempre significantes e em formular votos de congratula\u00e7\u00e3o por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha. Esgotaram, por certo, as palavras elogiosas para certos personagens de falsas democracias de que agora se dizem amigos. Ou ent\u00e3o est\u00e3o a guardar-se para a apoteose jacobina dos 100 anos da Rep\u00fablica! <\/p>\n<p>\u00c9 recorrente nestas alturas usar-se e abusar-se do argumento da separa\u00e7\u00e3o compulsiva entre o Estado e a Igreja. A louv\u00e1vel e imperativa neutralidade religiosa do Estado n\u00e3o pode, por\u00e9m, transformar este num Estado anti-religi\u00e3o, um Estado confessional de sinal contr\u00e1rio. Um Estado laico, n\u00e3o confessional n\u00e3o \u00e9 necessariamente um \u201cEstado ateu que faz da laicidade uma esp\u00e9cie de nova religi\u00e3o do Estado\u201d, como h\u00e1 anos escreveram os nossos Bispos.<\/p>\n<p>A laicidade do Estado n\u00e3o implica a laicidade da sociedade. A sociedade \u00e9 plural no sentido religioso e \u00e9 perigoso confundir sistematicamente, neste plano, Estado e Sociedade. A separa\u00e7\u00e3o do Estado e da Igreja tamb\u00e9m n\u00e3o significa neutralidade por omiss\u00e3o, indiferen\u00e7a, absten\u00e7\u00e3o, ignor\u00e2ncia ou desconhecimento dos fen\u00f3menos religiosos e muito menos hostilidade.<\/p>\n<p>Mas no caso de D. Nuno \u00c1lvares Pereira n\u00e3o se pede ao Estado que o homenageie como santo cat\u00f3lico. Apenas, que o sina-lize para as gera\u00e7\u00f5es vindouras como grande, ilustre e exemplar portugu\u00eas. A Hist\u00f3ria faz parte do presente e do futuro, embora, como um dia escreveu Miguel Torga, \u201cos nossos governantes n\u00e3o querem saber da Hist\u00f3ria. Para eles tudo come\u00e7a na hora em que assumem o poder\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No meio da parafern\u00e1lia de pequenas, m\u00e9dias e grandes not\u00edcias sobre quase tudo e quase nada, foi com alegria que recebi a not\u00edcia da canoniza\u00e7\u00e3o de D. Nuno \u00c1lvares Pereira, o Santo Condest\u00e1vel. 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