{"id":14908,"date":"2009-04-02T15:56:00","date_gmt":"2009-04-02T15:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=14908"},"modified":"2009-04-02T15:56:00","modified_gmt":"2009-04-02T15:56:00","slug":"voos-rasteiros-pragmatismo-com-baias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/voos-rasteiros-pragmatismo-com-baias\/","title":{"rendered":"Voos rasteiros, pragmatismo com baias"},"content":{"rendered":"<p>O Papa n\u00e3o precisa de quem o defenda. Quem o conhece e est\u00e1 atento, sem preconceitos, ao seu modo de agir e de intervir, antes e depois de ser Papa, sabe que nunca deixou, nem deixar\u00e1, de afirmar, na fidelidade ao seu magist\u00e9rio, o que considera essencial e, evangelicamente, mais certo. N\u00e3o fala para plateia com inten\u00e7\u00e3o de agradar, nem foge \u00e0s cr\u00edticas, mesmo que injustas. \u00c9 um homem de princ\u00edpios, coerente com a sua f\u00e9, corajoso no enfrentar dos problemas, detentor de uma consci\u00eancia que lhe mant\u00e9m bem vivo o sentido do dever e da miss\u00e3o, frente \u00e0 Igreja, a que preside, e \u00e0 sociedade, para a qual ela deve ser uma consci\u00eancia cr\u00edtica, que denuncie, abra caminhos e colabore. N\u00e3o tem a for\u00e7a medi\u00e1tica do seu antecessor, diz-se, mas faz da sua coragem e testemunho a mais v\u00e1lida media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sociedade est\u00e1 a abarrotar de gente que se contenta com voos rasteiros e se fecha num pragmatismo sem horizontes; que serve interesses pol\u00edticos e econ\u00f3micos diversos, sem olhar a meios; que deixou de considerar, ou nunca considerou, a pessoa humana, como o maior valor social; que tenta solu\u00e7\u00f5es de problemas graves, humanos e sociais, sem ir \u00e0s causas dos mesmos; que desvirtua, por emo\u00e7\u00f5es ou incapacidade de ir mais longe, o rumo e a exig\u00eancia do que \u00e9 essencial. Gente assim n\u00e3o pode gostar de Bento XVI. Ataca-o sem o entender, denigre-o sem pejo nem vergonha, fecha os olhos \u00e0s suas l\u00facidas interven\u00e7\u00f5es de ordem teol\u00f3gica, social e humanit\u00e1ria e, que por vezes, mesmo gente da Igreja, n\u00e3o se importa de pagar tributo f\u00e1cil a quem a sabe bajular e precisa de um encosto eclesi\u00e1stico protector. O conspecto actual mostra tudo isto.<\/p>\n<p>Ora, problemas dif\u00edceis nunca ter\u00e3o solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e f\u00e1ceis. Quando estas se propugnam e se p\u00f5em em pr\u00e1tica, morre a esperan\u00e7a dos caminhos v\u00e1lidos que permitem o ataque, certo e eficaz, \u00e0s causas que provocam os problemas. N\u00e3o h\u00e1 caminhos de cura pessoal e de renova\u00e7\u00e3o social, sem uma educa\u00e7\u00e3o da vontade que se consolida com convic\u00e7\u00f5es assumidas, nem sem ra\u00edzes novas e sadias que se revigoram com o tempo, o esfor\u00e7o, a aten\u00e7\u00e3o e o cuidado de todos.<\/p>\n<p>Por outro lado, as solu\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, mesmo as preventivas, ser\u00e3o sempre meios de excep\u00e7\u00e3o para casos de excep\u00e7\u00e3o. Fazer delas a solu\u00e7\u00e3o normal de epidemias graves \u00e9 iludir os problemas, enganar as pessoas, encurtar-lhes os horizontes, impedi-las que cres\u00e7am e aprendam a assumir, de modo respons\u00e1vel, os seus actos. N\u00e3o h\u00e1 meio termo.<\/p>\n<p>O que fez chegar aos povos de \u00c1frica a mancha terr\u00edvel da sida e de outras doen\u00e7as graves? Quem denuncia, hoje, com objectividade e coragem, as causas injustas destas multid\u00f5es esmagadas e indefesas? Onde est\u00e3o as grandes pot\u00eancias, que roubaram as mat\u00e9rias primas de \u00c1frica, deixando irremediavelmente pobres muitos povos ricos e, depois, lhes deram armas, esmolas e ajudas, criando neles depend\u00eancias escandalosas, e por fim abafando-os com o presente envenenado de toneladas de preservativos e de contra conceptivos? N\u00e3o foram, acaso, estes, os planos famosos de Henry Kissinger e de outra gente grande de pa\u00edses ricos, multiplicando formas de aniquilamento de ra\u00e7as e de culturas, como aconteceu com a laquea\u00e7\u00e3o generalizada de trompas, para impedir o crescimento da popula\u00e7\u00e3o e melhor explorar, injustamente, os seus bens, varrendo do terreno o obst\u00e1culo de quem ainda podia defender-se e denunciar internacionalmente?<\/p>\n<p>O Papa est\u00e1 mal informado, dizem agora os cr\u00edticos de pacotilha. Como, se no Vaticano abundam dossiers, que eu pude consultar, sobre todas estas situa\u00e7\u00f5es, as fontes que as alimentam, os bra\u00e7os que as servem, os interesses que da\u00ed decorrem? <\/p>\n<p>Podem as interven\u00e7\u00f5es corajosas de Bento XVI, agora nos Camar\u00f5es e em Angola, na sequ\u00eancia de outras, igualmente corajosas, de Pio XII, Jo\u00e3o XXIII, Paulo VI e Jo\u00e3o Paulo II, serem tidas como coisas, meramente espirituais e an\u00f3dinas? Ou devem entender-se como a voz p\u00fablica e inc\u00f3moda de uma Igreja que n\u00e3o fala de cor e faz sua a causa dos explorados de que cuida, com os quais o mundo instalado e bem pensante nunca sujou as m\u00e3os, porque prefere manter suja a consci\u00eancia? Gente \u201cimportante\u201d escandalizou-se e rasgou vestes com as palavras do Papa aos jornalistas. Bento XVI, para quem o leu, sabe que apenas p\u00f4s o dedo numa ferida grave, pensando talvez que a gente da comunica\u00e7\u00e3o fosse mais informada, inteligente e cr\u00edtica e ia com ele com o mesmo desejo de servir os africanos e pugnar pelo seu bem. O Papa n\u00e3o atingiu os doentes de sida, nem quem os acompanha, diariamente, na sua dor. Esses, tamb\u00e9m ele os levava no seu cora\u00e7\u00e3o, sens\u00edvel e dorido. A pedrada era para os pragm\u00e1ticos com as  baias que lhes encurtam os horizontes da vida e, por isso, se ficam sempre, pressurosos, na cr\u00edtica f\u00e1cil a quem v\u00ea mais longe. \u00c9 a cr\u00edtica f\u00e1cil dos incomodados e dos instalados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa n\u00e3o precisa de quem o defenda. 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