{"id":15087,"date":"2009-04-29T16:52:00","date_gmt":"2009-04-29T16:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=15087"},"modified":"2009-04-29T16:52:00","modified_gmt":"2009-04-29T16:52:00","slug":"a-razao-que-se-oculta-nas-razoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-razao-que-se-oculta-nas-razoes\/","title":{"rendered":"A raz\u00e3o que se oculta nas raz\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito da Eutan\u00e1sia <!--more--> Vou propor uma reflex\u00e3o que tem o seu qu\u00ea de heterodoxa. Pretendo conduzir \u00e0 discuss\u00e3o sobre o que est\u00e1 em causa quando discutimos a eutan\u00e1sia, sem quase falar nela.<\/p>\n<p>E come\u00e7o por fazer uma constata\u00e7\u00e3o que nos abre a porta para a resposta que quero encontrar: por que se re\u00fanem, no mesmo grupo, liberais e as esquerdas mais radicais, quando discutimos a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto ou o eugenismo ou a eutan\u00e1sia? \u00c9 que assim acontece, de facto. E bastar\u00e1 a resposta de que os extremos se tocam? Admitindo a verdade do aforismo, o que significaria isso? <\/p>\n<p>\u00c9 que, com efeito, tem sido assim sempre que estes assuntos, ditos \u2018fracturantes\u2019, aparecem. <\/p>\n<p>Afinal, o que est\u00e1, de facto, em causa? <\/p>\n<p>Simplesmente o desejo de combater a ordem estabelecida? O desejo de afirmar a liberdade individual? Parece-me insuficiente essa resposta simples, pois nenhuma esquerda que se preze prop\u00f5e, por exemplo, a t\u00edtulo do direito ao exerc\u00edcio da liberdade, o fim dos impostos ou a liberdade de escolha nesta mat\u00e9ria. Ent\u00e3o, porqu\u00ea essa posi\u00e7\u00e3o comum em mat\u00e9rias relacionadas com a vida humana?<\/p>\n<p>Pois bem, est\u00e1, precisamente, na formula\u00e7\u00e3o da \u00faltima pergunta a resposta. \u00c9, com efeito, perante a vida humana que estas posi\u00e7\u00f5es t\u00e3o d\u00edspares se unem. <\/p>\n<p>Mas, em qu\u00ea? <\/p>\n<p>Na considera\u00e7\u00e3o de que a vida humana n\u00e3o se define com os limites. Esse \u00e9, de facto, o dado comum: a recusa da imperfei\u00e7\u00e3o, do limite, que, afinal, deveria ser considerado e aceite como dado inerente \u00e0 vida humana. E vejam que \u00e9 isso, realmente, o que distingue quem defende e quem \u00e9 contra a legitimidade da eutan\u00e1sia: a defini\u00e7\u00e3o e a atitude perante a vida humana e o reconhecimento dos limites da interven\u00e7\u00e3o sobre ela. N\u00e3o \u00e9 um dado marginal quanto \u00e0s concep\u00e7\u00f5es que nos estruturam. \u00c9 essencial. Dele resultam consequ\u00eancias mais ou menos graves conforme a coer\u00eancia de quem as sustenta. Bem certo que, para n\u00e3o exporem facilmente o absurdo da sua posi\u00e7\u00e3o, os defensores da eutan\u00e1sia e afins blindam-se e criam auto-limites, mas que n\u00e3o passam de expedientes e distrac\u00e7\u00f5es. Na realidade, a quest\u00e3o \u00e9 que, para os que, por motivos liberais ou radicais, se situam na defesa da eutan\u00e1sia, do aborto, do eugenismo, o limite, a imperfei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fazem parte da defini\u00e7\u00e3o da vida humana.<\/p>\n<p>Por isso, a eutan\u00e1sia \u00e9 a sa\u00edda para um vida que se apresenta com limites, por j\u00e1 n\u00e3o se definir como vida humana. Sup\u00f5em um ser humano que, na verdade, n\u00e3o existe e nunca existir\u00e1: um ser humano ilimitado, sem imperfei\u00e7\u00f5es. \u00c9 o mito, feito realidade, do para\u00edso perdido, com o condimento de se tentar mundanizar esse para\u00edso. Assim, liberais e radicais unem-se por recusarem tudo o que significa limitar a vida humana sonhada, mas nunca existente, ainda que tenham a ilus\u00e3o de que quando a vida n\u00e3o d\u00f3i, n\u00e3o est\u00e1 limitada. <\/p>\n<p>Assim, esta discuss\u00e3o deve centrar-nos no que \u00e9 importante: o ser humano deve ser recuperado, voltar a descobrir-se como um ser a caminho, um ser a fazer-se, a progredir e nunca conclu\u00eddo nem definitivamente feito. E \u00e9 isso que une aqueles que, mesmo partindo de convic\u00e7\u00f5es religiosas diversas, est\u00e3o irmanados numa fonte semelhante: a de conceber que cada ser humano deve ser respeitado, mesmo quando extremamente fr\u00e1gil, mesmo quando a sua infelicidade parece pedir o fim. Perante esse sofrimento, a resposta pode ser diversa nas suas concretiza\u00e7\u00f5es, mas semelhante no seu intuito \u2013 conduzir o homem a assumir como sua a limita\u00e7\u00e3o que vive e a fugir de viver sempre uma vida sem limites que n\u00e3o \u00e9, nem nunca foi ou ser\u00e1, a sua. <\/p>\n<p>No \u00faltimo reduto, a discuss\u00e3o sobre estes assuntos que colocam a sociedade na tens\u00e3o m\u00e1xima resulta da interroga\u00e7\u00e3o radical sobre o que \u00e9, afinal, o Homem; se um ser sem limites ou se um fazer-se na limita\u00e7\u00e3o. \u00c9 esse o drama da liberdade humana: n\u00e3o poder pensar-se sen\u00e3o em determinadas condi\u00e7\u00f5es. Liberdade sem condicionamentos n\u00e3o \u00e9 liberdade de homem. N\u00e3o existe\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito da Eutan\u00e1sia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-15087","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15087"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15087\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}