{"id":15409,"date":"2009-06-08T17:51:00","date_gmt":"2009-06-08T17:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=15409"},"modified":"2009-06-08T17:51:00","modified_gmt":"2009-06-08T17:51:00","slug":"humorismo-em-crise-deixa-pais-mais-entristecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/humorismo-em-crise-deixa-pais-mais-entristecido\/","title":{"rendered":"Humorismo em crise deixa pa\u00eds mais entristecido"},"content":{"rendered":"<p>Nos tempos de crise fazem falta bons humoristas que proporcionem a toda a gente, pela sua criatividade, momentos de alegria e de esperan\u00e7a, de bem-estar e de confian\u00e7a. O que se v\u00ea \u00e9 que h\u00e1 mais gente irritada e azeda a agredir e a encobrir o sol por tudo e por nada, que artistas do humor, s\u00e1bios e serenos, a desmontar agressividades e a conciliar diferen\u00e7as, com um dito apropriado ou uma r\u00e1bula, rica de saber e de gra\u00e7a. <\/p>\n<p>O humorista, julgo eu, \u00e9 uma pessoa inteligente e criativa, um artista. Caso contr\u00e1rio, refugia-se na gra\u00e7ola, banal e pestilenta, acabando a rir sozinho com os bacocos, sem convic\u00e7\u00e3o, nem consolo. Onde n\u00e3o h\u00e1 intelig\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 criatividade. Sem intelig\u00eancia e estro art\u00edstico, o humor nasce t\u00e3o doente, que logo morre \u00e0 nascen\u00e7a. Criar humor \u00e9 mais que contar anedotas ou entreter com cantigas picantes.<\/p>\n<p>H\u00e1 p\u00e1ginas de antologia em alguns dos nossos humoristas. Quem pode esquecer o sentido acutilante, ir\u00f3nico e pedag\u00f3gico da \u201cguerra do Solnado\u201d? <\/p>\n<p>H\u00e1 no humorismo verdadeiras pe\u00e7as de arte que n\u00e3o envelhecem, nem se desfiguram. Ouvem-se hoje, como h\u00e1 dezenas de anos atr\u00e1s. O mesmo gosto e prazer. A mensagem, que nunca \u00e9 uma simples piada ou uma gra\u00e7ola insonsa, continua viva e actual. <\/p>\n<p>Coisa rara, hoje, na produ\u00e7\u00e3o dos chamados humoristas. Nem intelig\u00eancia, nem criatividade, nem gra\u00e7a, nem saber, nem verve. O pretenso humoris-mo de hoje, como a pobreza do tempo, tornou-se descart\u00e1vel como a moda: ver, ouvir, rir, deitar fora.<\/p>\n<p>Os canais de televis\u00e3o e as esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio conservam os seus humoristas, como a corte manteve o seu bobo. Alguns bem tristes, mesmo quando pretendem fazer gra\u00e7a. A gente da programa\u00e7\u00e3o ou j\u00e1 n\u00e3o sabe o que \u00e9 o verdadeiro humor, ou quer vender gato por lebre, ou, ent\u00e3o, pensa que para um pa\u00eds desiludido e alienado, qualquer coisa serve para divertir e provocar gargalhadas. <\/p>\n<p>As anedotas s\u00e3o brejeiras, os trocadilhos sem gosto, os ditos n\u00e3o dizem nada. E, quando se trata de intelectuais recentes a querer fazer humor em grupo, a desgra\u00e7a parece ainda maior. Com um ar superior, brincam com tudo e com todos, n\u00e3o respeitam nada nem ningu\u00e9m, nivelam tudo com a mesma rasa. O objectivo ser\u00e1 o prazer do grupo, inebriado com seus dizeres vazios, seu saber pretensioso e suas gargalhadas hist\u00e9ricas. Ouve-se, v\u00ea-se e tira-se logo a prova de \u201ccomo vai mal o humor em Portugal\u201d.<\/p>\n<p>O povo ri se as piadas cheiram a sexo, religi\u00e3o ou pol\u00edtica. Mas humor n\u00e3o \u00e9 isto, porque, mesmo quando faz rir, tamb\u00e9m faz pensar.<\/p>\n<p>Sempre que se deixa de pensar, as refer\u00eancias v\u00e1lidas para ajuizar e avaliar o que se ouve, se l\u00ea, se pensa e se vive, desaparecem. Assim, o humor \u00e9 imposs\u00edvel. Imposs\u00edvel fechar a boca aos insensatos e abrir o cora\u00e7\u00e3o aos incautos, se a cabe\u00e7a est\u00e1 oca e vazia.<\/p>\n<p>O bom humor \u00e9 tempero da vida di\u00e1ria. Mal vai a um povo quando o humor se serve estragado ou dele n\u00e3o se sente falta. Os latinos diziam que \u201crindo se castigam os costumes\u201d. Um dito s\u00e1bio a mostrar que se pode fazer mais com uma palavra breve de verdadeiro humor, que com um discurso longo de pretenso saber. Por\u00e9m, os costumes v\u00e3o hoje de tal ordem, que castig\u00e1-los se tornou tarefa dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Muitos pol\u00edticos agridem-se e picam-se, por tudo e por nada; h\u00e1 governantes a prometer o imposs\u00edvel e n\u00e3o suportar cr\u00edticas: muitos intelectuais viram narcisistas e olham a plebe por cima do ombro; at\u00e9 os jovens, agora mais suficientes e surdos, fazem caminho por conta pr\u00f3pria; restam os exclu\u00eddos sociais que carregam a sua dor, cada dia mais desiludidos. <\/p>\n<p>O ambiente est\u00e1 mais carregado. Ningu\u00e9m espere que o sol da esperan\u00e7a e da alegria alimente tristezas e desilus\u00f5es. Com o futebol no defeso as coisas v\u00e3o piorar. Deixemos que os humoristas, poetas e outros artistas, d\u00eaem beleza \u00e0 paisagem humana e digam a toda a gente que o tempo n\u00e3o \u00e9 de parar, nem de chorar, porque cada dia o sol nasce. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos tempos de crise fazem falta bons humoristas que proporcionem a toda a gente, pela sua criatividade, momentos de alegria e de esperan\u00e7a, de bem-estar e de confian\u00e7a. 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