{"id":15458,"date":"2009-06-17T17:38:00","date_gmt":"2009-06-17T17:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=15458"},"modified":"2009-06-17T17:38:00","modified_gmt":"2009-06-17T17:38:00","slug":"o-brio-da-margariada-e-a-conviccao-do-miguel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-brio-da-margariada-e-a-conviccao-do-miguel\/","title":{"rendered":"O brio da Margariada e a convic\u00e7\u00e3o do Miguel"},"content":{"rendered":"<p>Fiz uma lista de assuntos sobre os quais gostava de escrever: o bolo de chocolate da Clara; os pulm\u00f5es do Miguel e os textos da Margarida. Agora, resta-me resolver o problema de os encadear para que esta cr\u00f3nica tenha coer\u00eancia e transmita uma ideia l\u00f3gica. <\/p>\n<p>Do bolo de chocolate, revelo que o bolo \u201cresidente\u201d das \u00faltimas festas tem sido um que a Clara faz num abrir e fechar de olhos e que \u00e9 uma verdadeira del\u00edcia. Noutro dia, comentava este facto com algumas amigas, quando uma me disse que tamb\u00e9m faz esse bolo e que se tornou obrigat\u00f3rio, de t\u00e3o saboroso que \u00e9. Quando o apresentou pela primeira vez, comeu-se num instante. Ah! Lembrei-me que ela j\u00e1 contara aquela hist\u00f3ria. <\/p>\n<p>O segundo apontamento tem a ver com os pulm\u00f5es do Miguel. Nos \u00faltimos dias, deram que falar. Ele descobriu que tem dois pulm\u00f5es e conta a toda a gente, apontando com as duas m\u00e3ozinhas para a cavidade tor\u00e1cica: \u201cOs meus pulm\u00f5es est\u00e3o aqui, os pulm\u00f5es do pap\u00e1 tamb\u00e9m, os teus pulm\u00f5es tamb\u00e9m; os pulm\u00f5es de tooodas as pessoas do mundo est\u00e3o aqui; mesmo que as pessoas sejam de cores diferentes, t\u00eam dois pulm\u00f5es. Tooodas as pessoas, grandes e pequenas, t\u00eam dois pulm\u00f5es.\u201d <\/p>\n<p>No final do ano lectivo, h\u00e1 sempre muito para contar. Aqui fica uma nota simples: fazendo uma an\u00e1lise dos tr\u00eas anos que agora terminam um ciclo de estudos, a Margarida comentou que os textos que escrevia no 6.\u00ba ano eram \u201cuma chachada\u201d. Agora, nota uma evolu\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande que declara cheia de brio \u201cEstou orgulhosa dos meus textos!\u201d<\/p>\n<p>Depois dos tr\u00eas apontamentos, vem o essencial que queria aqui trazer \u00e0 reflex\u00e3o. Quando lhe confessei a minha impot\u00eancia para explicar a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o se deve deitar comida fora ou gastar \u00e1gua desnecessariamente, o meu amigo sacerdote, que viveu os \u00faltimos anos em Angola, foi perempt\u00f3rio \u201cIsso n\u00e3o se explica. Vive-se.\u201d (Ele aprendeu a usar apenas um balde de \u00e1gua para a higiene di\u00e1ria: barba, dentes, banho e wc.) Mas, pensei, n\u00e3o posso levar os alunos a \u00c1frica, ou at\u00e9 aqui perto de n\u00f3s, no nosso pa\u00eds, no nosso bairro, onde h\u00e1 quem viva situa\u00e7\u00f5es de grande priva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhes consigo fazer perceber que os euros que gastam nos telem\u00f3veis (dos mais caros que h\u00e1 no mercado), ou para irem comer fora, ou para as chicletes que, \u00e0 entrada da minha aula, t\u00eam de deitar no lixo, \u00e9 dinheiro que deveriam poupar.<\/p>\n<p>Todavia, posso e devo provocar o debate com hist\u00f3rias curtas para que, entre eles, argumentem e passem uns aos outros uma no\u00e7\u00e3o de \u00e9tica, de respeito por si, pelo pr\u00f3ximo, pelos seres vivos e pelos bens. O importante ser\u00e1 desencadear a d\u00favida, tir\u00e1-los da in\u00e9rcia em que parecem viver, apesar da contesta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da idade, que se preocupa, na maior parte das vezes, com assuntos laterais e ideias nada essenciais. O importante \u00e9 colocar a pergunta certa para que cres\u00e7am e v\u00e3o mais longe. <\/p>\n<p>Que bom seria que, como a Margarida, se orgulhassem do percurso palmilhado e olhassem para ele com o encanto de quem descobre que \u00e9 capaz de fazer cada vez mais e melhor. Se \u00e9 gratificante ver os alunos em provas finais, desportivas, de dan\u00e7a, em festivais, em concursos, em representa\u00e7\u00f5es, nos saraus das escolas, cujos lucros s\u00e3o nulos, numa contabilidade em que o capital passivo poderia ser muito alto, se o capital activo que \u00e9 o envolvimento de alunos, pais, pessoal n\u00e3o docente, professores e autarquias n\u00e3o fosse t\u00e3o grande, o maior orgulho \u00e9 capaz de residir no facto de um aluno perceber o seu trajecto na escola e sentir orgulho no desenvolvimento intelectual e humano que ali concretizou ao longo de anos. <\/p>\n<p>E por que \u00e9 que comecei pelo bolo de chocolate? \u00c9 que s\u00f3 quando o provei \u00e9 que percebi o qu\u00e3o delicioso ele era. A hist\u00f3ria que a minha amiga me contara era uma simples hist\u00f3ria que a minha mem\u00f3ria arrumara cuidadosamente num recanto e que nem sequer despertara ao provar o bolo da Clara. Mas, mais tarde ela tornou-se realidade, tal como as hist\u00f3rias que se contam aos alunos, que os ajudam a cultivar valores que apontam caminhos de refer\u00eancia para construirmos um mundo melhor. Que bom seria se n\u00e3o perd\u00eassemos a aten\u00e7\u00e3o e convic\u00e7\u00e3o dos cinco anos do Miguel que, apesar de nunca ter visto os seus pulm\u00f5es, tem a certeza de que eles existem e de que todas as pessoas os t\u00eam. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiz uma lista de assuntos sobre os quais gostava de escrever: o bolo de chocolate da Clara; os pulm\u00f5es do Miguel e os textos da Margarida. Agora, resta-me resolver o problema de os encadear para que esta cr\u00f3nica tenha coer\u00eancia e transmita uma ideia l\u00f3gica. 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