{"id":1547,"date":"2010-04-28T16:45:00","date_gmt":"2010-04-28T16:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1547"},"modified":"2010-04-28T16:45:00","modified_gmt":"2010-04-28T16:45:00","slug":"democracia-sob-o-signo-da-desilusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/democracia-sob-o-signo-da-desilusao\/","title":{"rendered":"Democracia, sob o signo da desilus\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>A democracia vai aparecendo estropia-da por interesses partid\u00e1rios e outros, e para muita gente \u00e9 j\u00e1 uma desilus\u00e3o. Nem faltam pol\u00edticos de nome a dizer desta sua crise. H\u00e1 raz\u00f5es para assim se pensar: o bem comum \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 nem se fala; as desigualdades s\u00e3o afrontosas; os favores a uns tantos sobrep\u00f5em-se aos direitos de todos; n\u00e3o se entende o rumo da justi\u00e7a, nem da educa\u00e7\u00e3o; a aten\u00e7\u00e3o ao que d\u00e1 nas vistas sobrep\u00f5e-se a car\u00eancias b\u00e1sicas de muitos cidad\u00e3os; agradar aos de fora parece mais importante que o respeitar os de dentro; constroem-se pedestais para est\u00e1tuas de p\u00e9s de barro; chega-se \u00e0 ribalta e p\u00f5e-se tudo em causa; a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um facto, descoberta di\u00e1rio e sem limites; os programas partid\u00e1rios se interes-sam ao partido s\u00e3o intoc\u00e1veis, mesmo quando a vida diz que s\u00e3o um disparate; os jovens ambiciosos, ainda que pouco v\u00e1lidos, est\u00e3o sempre com o p\u00e9 no ar para subir pela m\u00e3o de padrinhos que n\u00e3o s\u00e3o os do baptismo; grupos corporativos reivindicam sempre a olhar para o bolso e para o umbigo; a resposta \u00e0s dificuldades s\u00f3 toca a alguns; os cidad\u00e3os sentem-se enganados com sorrisos descarados; a \u00e9tica na vida \u00e9 adere\u00e7o que n\u00e3o interessa; as institui\u00e7\u00f5es essenciais, como a fam\u00edlia, entraram em leil\u00e3o; as minorias s\u00e3o o poder\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 assim que v\u00e3o surgindo nostalgias do passado, se multiplicam as anedotas pol\u00edticas, se propalam esc\u00e2ndalos reais ou inventados, se volta ao medo das recrimina\u00e7\u00f5es e das vingan\u00e7as, se vive na inseguran\u00e7a. Uns contam os tost\u00f5es a olhar para os milh\u00f5es de outros\u2026 A pol\u00edtica deixou de interessar ao cidad\u00e3o normal, as pessoas interrogam-se sobre onde tudo isto vai parar. Os mais v\u00e1lidos emigram ou tratam da sua vida\u2026<\/p>\n<p>Gerou-se um clima de desagrado que j\u00e1 nem deixa ver o que de bom se alcan\u00e7ou ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, e que n\u00e3o foi pouco, porque se fala muito de direitos e pouco de deveres. Todos, por\u00e9m, reconhecem que agora se pode opinar sem medo e votar em liberdade. No leque democr\u00e1tico, por\u00e9m, h\u00e1 espa\u00e7o para mais e \u00e9 preciso preench\u00ea-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o, nem h\u00e1, por certo, regime democr\u00e1tico que tenha sido de implementa\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e r\u00e1pida. N\u00e3o anda a esse ritmo a capacidade de mudan\u00e7a de mentalidades, interesses e atitudes, nem por ele se deixam conduzir grupos unidimensionais, de direita ou de esquerda. Tudo \u00e9 dif\u00edcil se se falar mais de direitos a exigir do que de deveres a cumprir. N\u00e3o faltam escolhos para a democracia, se esta n\u00e3o for de fachada.<\/p>\n<p>\u00c0 Europa unida, sonhada por fundadores de pa\u00edses democr\u00e1ticos, foi-se matando a alma, destruindo os valores, secando as ra\u00edzes vitais, apagando a mem\u00f3ria hist\u00f3rica, nivelando por baixo. N\u00e3o se compadece com uma democracia a s\u00e9rio uma cultura superficial, dominada pelo descart\u00e1vel e pelo ef\u00e9mero. A verdade objectiva e s\u00f3lida \u00e9 impedida por projectos pobres, culturalmente vazios. O novo tempo \u00e9 o do reino do dinheiro e do poder, do circo e da publicidade, enfim, dos interesses nacionais. Um tempo novo que j\u00e1 nasce velho. O nosso peso humano e cultural foi menosprezado c\u00e1 dentro. L\u00e1 fora, a an\u00e1lise corrente \u00e9 a dos cifr\u00f5es. Com a baixa cota\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds conta cada vez menos.<\/p>\n<p>Recordando o dito de Churchill, tamb\u00e9m eu creio que a democracia \u00e9, ainda assim, o regime menos mau. Tem, apesar de tudo, exig\u00eancias de seriedade, de participa\u00e7\u00e3o, de respeito, de derrube de feudos, de verdade nos olhos. A democracia n\u00e3o se constr\u00f3i, nem enra\u00edza ao gosto dos partidos e dos interesses. Se os partidos exprimem o meio mais normal da participa\u00e7\u00e3o de todos, t\u00eam de pugnar, acima de tudo, pelo bem comum, n\u00e3o pelos interesses pr\u00f3prios. Democracia n\u00e3o \u00e9 partidocracia. \u00c9 ac\u00e7\u00e3o clara pela liberdade e pelo servi\u00e7o ao bem, que a todos diga respeito. <\/p>\n<p>Coisas s\u00f3 explic\u00e1veis em 1975 perduram ainda como dogmas intoc\u00e1veis. A democracia n\u00e3o \u00e9 pe\u00e7a de museu. \u00c9 caminho aberto para ir sempre mais longe. N\u00e3o se compadece com reflex\u00f5es de sentido \u00fanico, por exemplo, sobre o \u201cEstado Social\u201d. A Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, j\u00e1 revista algumas vezes, continua marcada ideologicamente, impedindo o exerc\u00edcio da liberdade em campos onde esta \u00e9 essencial, como o da educa\u00e7\u00e3o. A democracia n\u00e3o suporta um Estado com ressaibos de dono e patr\u00e3o de tudo e de todos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m sonhei, em d\u00e9cadas long\u00ednquas, com uma democracia a s\u00e9rio, consciente, embora, de que ela n\u00e3o aconteceria por um toque m\u00e1gico, mas que, uma vez aberta a porta, nos podia levar a um futuro de liberdade e de consciente cidadania.<\/p>\n<p>O tempo n\u00e3o volta para tr\u00e1s. N\u00e3o h\u00e1 porque ter medo H\u00e1 sim, que ver, com urg\u00eancia, se o rumo que o pa\u00eds leva tem futuro que interesse aos portugueses ainda n\u00e3o polu\u00eddos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A democracia vai aparecendo estropia-da por interesses partid\u00e1rios e outros, e para muita gente \u00e9 j\u00e1 uma desilus\u00e3o. Nem faltam pol\u00edticos de nome a dizer desta sua crise. 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